O Carnaval Multicultural do Recife promete mostrar a autêntica folia pernambucana à capital da República, amanhã, a partir das 16h, no gramado da Funarte. O evento, gratuito, que será pontuado pelas apresentações do cantor e compositor Alceu Valença e do sexteto brasiliense Casa de Farinha, faz parte do Projeto 100 Anos do Frevo, que pretende mostrar a importância do que é mais do que um estilo musical, mas um extrato das raízes culturais genuinamente brasileiras.
Desde 2003, a Prefeitura de Recife tem trabalhado na difusão do Carnaval pernambucano na cidade de São Paulo. Em 2005, o projeto estendeu-se para o Rio de Janeiro. Agora, é a vez de Brasília entrar na rota da folia. “Brasília reúne brasileiros de todos os cantos. É uma cidade multicultural por natureza”, define a coordenadora da iniciativa, Lygia Falcão. “Brasília não tem um Carnaval muito forte, mas sempre teve simpatia pelo Carnaval de Pernambuco, expressa pelos blocos de rua Galinho da Madrugada e Suvaco da Asa”, completa.
Os dois blocos participarão do Carnaval Multicultural, além das agremiações pernambucanas Maracatu Piaba de Ouro e Maracatu Encanto da Alegria, da Frevioca – espécie de trio elétrico com orquestra de frevo – e os cantores Claudionor e Nono Germano.
O projeto já deu frutos. No dia 9 de fevereiro deste ano (mesma data em que o frevo completou seu primeiro centenário), o ritmo tornou-se patrimônio cultural e material do Brasil. No próximo ano, o Carnaval carioca também mergulha no estilo: o tema do samba-enredo da escola de samba Mangueira será o centenário do frevo.
Desafios
Além de promover shows, o 100 Anos de Frevo tem trabalhado na divulgação de artistas locais, na realização de seminários e no projeto do Museu do Frevo. Mesmo com os progressos da iniciativa, Lygia Falcão lamenta a pouca atenção que as rádios dão ao frevo. Alceu Valença – descrito por Lygia como “a cara de Pernambuco e do frevo” – concorda: “As rádios não tocam música brasileira. Só tocam música de fora ou subprodutos nacionais que copiam as canções estrangeiras”, dispara.
O cantor e compositor promete “um dia de glória e maravilhoso para Brasília”. Mas Alceu, “que quando canta não deixa ninguém parado”, na descrição de Lygia Falcão, vai cantar outros ritmos. “Cantarei outras coisinhas também”, adianta ele.
Sem modéstia, o artista assume ser o autor dos grandes sucessos do Carnaval de Pernambuco. Pudera: desde 1978, ele nunca passou a folia em outro lugar. “É afetivo”, resume. Mas lamenta a falta de destaque das músicas tradicionais da folia fora do período festivo. “O frevo seria importante se tivesse maior divulgação na grande mídia”, afirma. Por isso, um de seus muitos projetos é o de divulgar, principalmente no exterior, a música brasileira. “Acabei de voltar da Europa e ela está totalmente aberta à música brasileira”, observa.
Uma das soluções propostas pelo cantor e compositor para resgatar o brilho da música nacional e contornar a pirataria é a redução do preço do CD. “A pirataria está levando a indústria fonográfica à falência.” Valença sugere que o governo aplique imposto único sobre a produção do CD, o que reduziria seu preço final. “O custo de produção de um CD é de R$ 1,50. Com o imposto único, daria para ser vendido por R$ 7 ou até R$ 5”, projeta.
Carnaval Multicultural do Recife em Brasília – Shows com Alceu Valença, Casa de Farinha e desfile de agremiações do Recife. Amanhã, a partir das 16h, no gramado do Complexo Cultural da Funarte (Eixo Monumental, entre a Torre de TV e o Clube do Choro). Acesso livre. Informações: 3322-5202.