Quando tinha lá seus 11 anos, Carlos Nascimento, ainda um garoto franzino, passava os dias a jogar bola na rua. Preocupada, a mãe quis logo botar o moleque para fazer alguma coisa que o tirasse do ócio. Zelosa, perguntou o que ele gostaria de fazer. Nascimento prontamente respondeu: queria trabalhar na única rádio da cidade de Dois Córregos, no interior de São Paulo.
“Quem trabalhava na rádio entrava no cinema de graça, tinha mesa cativa no melhor clube e era alvo de todas as garotas. O que eu podia querer mais?”, diverte-se o novo apresentador do Jornal do SBT – Edição da Noite. O SBT é a única emissora aberta onde ele nunca trabalhou.
Na rádio, Nascimento começou como sonoplasta. Ainda garoto, cobriu o maior evento do lugar: as eleições municipais. “Na verdade, pegava os resultados e anotava num quadro para o locutor ler”, recorda. Da rádio, foi ser repórter do jornal Democráticos e não parou mais. Prestes a completar 40 anos de carreira, o jornalista orgulha-se de ter sobrevivido na profissão. “É difícil demais. Conheço muita gente que desistiu, mas eu não saberia fazer outra coisa”.
Pai de quatro filhos, frutos de dois casamentos, aos poucos Nascimento vê surgir no “clã” mais um coleguinha de profissão. “O garoto de 19 anos resolveu fazer jornalismo”, conta ele, com sorriso largo, deixando escapar certo orgulho. Por ter se dedicado anos a fio ao ofício de reportar notícias, Nascimento só se arrepende de não ter acompanhado mais de perto a vida dos “garotos”, como ele chama a prole. “Poderia tê-los visto crescendo”, divaga.
Dono de um bom humor quase interiorano, Nascimento espera imprimir boa parte dessa personalidade também no novo jornal. Depois de dois anos à frente do Jornal da Band, no horário nobre, o apresentador vai experimentar pela primeira vez o turno da madrugada. “Nunca fiz esse horário e não tenho medo de ficar desgastado. Para quem acordava às três da manhã, dormir às duas e meia é mole”, brinca.
Nascimento ainda não teve tempo de percorrer as redações das principais afiliadas da emissora, e por enquanto conta com uma equipe de profissionais bem enxuta. O jornalista está herdando de Hermano Henning, o ex-titular do informativo – que vai para um jornal local de São Paulo, ainda em formatação –, 14 pessoas. Na Band contava com 80. “Sei que estamos em fase de reimplantação do Jornalismo. É preciso ter paciência, mas ter uma equipe maior faz parte das minhas demandas”, explica.
telefonema A troca de uma emissora pela outra foi avaliada depois de um telefonema de Silvio Santos, o dono do SBT. A decisão levou apenas uma semana e, pelo visto, não tirou noites de sono de Nascimento. “Pela primeira vez tomei uma resolução baseada na minha intuição. Senti que era a hora de vir para cá”, jura ele, que nega estar recebendo R$ 500 mil por mês. “Garanto que é muito menos do que foi publicado por aí”, esquiva-se.
Entre as mudanças no telejornal estão matérias mais leves, entradas ao vivo das principais praças, como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, a cobertura da Copa, as eleições majoritárias e muitas matérias que mostrem um Brasil que, na maioria das vezes, não se enxerga. “O brasileiro mudou e os jornais também têm de mudar. O público quer se ver na tela e, principalmente, entender o que está acontecendo no mundo, por meio de uma linguagem mais próxima ao que conhece”, diz.
Nascimento pretende ainda ter uma repórter exclusiva para fazer matérias de estilo e comportamento, mas não vai ter comentaristas ao seu lado na bancada. Em vez de ser um âncora opinativo, ele prefere ser mais econômico em comentários. “O comentário só deve existir se tiver extrema relevância”, analisa o jornalista, que também é editor-chefe do jornal, e nas horas de folga dedica-se a um novo hobby. “Estou plantando café e criando umas vaquinhas”, diz, modestamente.