Oano nem havia começado direito e o clima já era de fim de festa. Em janeiro, falava-se em escassez de sucessos garantidos de bilheteria, safra ruim, tendência inevitável de queda de público e renda nos cinemas do País. A queda não foi mesmo evitada. De acordo com a previsão do boletim Filme B, feita a partir dos números de 2005 até novembro, o ano deve acabar com queda de público de 23% e de renda, de 17%, em relação a 2004.
Ainda assim, as boas notícias apareceram. A maior de todas foi 2 filhos de Francisco — A História de Zezé Di Camargo & Luciano em primeiro lugar. Era, de fato, o filme brasileiro mais propenso a figurar no ranking das maiores bilheterias. No entanto, ninguém esperava que fosse encabeçá-la. Após o primeiro fim de semana, o filme cresceu 26% sem aumento do número de cópias na semana seguinte. Daí para a frente, impulsionado por um efeito boca a boca que não se limitou à esfera dos fãs da dupla, só fez crescer e surpreender os próprios mentores, até chegar aos 5.313.624 espectadores. Até agora.
Do segundo lugar para baixo, 2005 comprovou a força dos filmes de animação computadorizada e do cinema fantástico mais feérico (notadamente os adaptados dos quadrinhos) junto ao público brasileiro. Animações de estúdios concorrentes, Madagascar, da DreamWorks, e Os Incríveis, da Pixar (lançado em dezembro de 2004), foram os únicos outros filmes a passarem dos quatro milhões de espectadores. E os desempenhos fortes de Quarteto Fantástico e Constantine (este, em particular, acima das expectativas), dois filmes de ação nada contidos, e o fato de terem superado o ultra-aguardado e bem mais sóbrio Batman Begins, dizem tudo: brasileiro prefere filme de ação à escola de samba.
No meio disso e em menor escala, Sin City — A Cidade do Pecado fez respeitáveis 725 mil espectadores, num resultado que parece confirmar e, ao mesmo tempo, negar a tendência. Se é a mais visualmente arrojada adaptação de quadrinhos do ano, é também um filme mais desafiador. De certa forma, foi o grande sucesso miúdo de um ano em que eles tiveram seu espaço (em novembro, Marcas da Violência, de David Cronenberg, outra adaptação de HQ, e Flores Partidas, de Jim Jarmusch, chegaram a aparecer muito bem colocados no ranking semanal da Filme B).
No cinema de horror, igualmente forte no País, destaques maiores foram o grande êxito de Jogos Mortais e o fracasso de Água Negra, apesar de Walter Salles na direção.
SombraEm relação ao cinema, repassar 2005 é voltar o olhar para aquilo que aconteceu à sombra de 2 filhos de Francisco. E, se o quadro geral do mercado de cinema no Brasil não é desesperador, na seara do filme brasileiro é um pouco diferente.
Não chegou a ser o fim do mundo, mas o ano foi bem pior do que pode parecer para quem levar em conta apenas o fato de que o filme brasileiro de maior bilheteria no ano foi também o filme de maior bilheteria no ano. Foram mais de cinco milhões de espectadores para o filme de Breno Silveira (afinal, a Conspiração Filmes emplacou um êxito em larga escala). Em compensação, daí para baixo, o cenário é pouco animador.
Por um lado, houve os filmes que renderam menos do que esperava todo mundo. No patamar mais alto do mercado, O casamento de Romeu e Julieta, fazendo menos de um milhão de espectadores quando se esperava o dobro. No patamar médio, Casa de Areia, da Conspiração, lutando sem sucesso para chegar a 200 mil espectadores, menos da metade das estimativas da produtora. Para não falar em O Coronel e o Lobisomem e Meu Tio Matou um Cara, produções de Paula Lavigne, trabalhadas com afinco para integrarem o patamar alto e, ao fim do ano, tendo de se conformar em pertencer ao patamar médio.
DescompassoNa outra ponta do espectro, houve filmes que nem conseguiram se encaixar direito no mercado. Vítimas do descompasso entre a realidade atual e as aspirações de seus diretores, passaram o ano numa prateleira ou, pior, entraram em cartaz e ninguém notou.
Nesse campo, a novidade foi o fato de que alguns diretores se cansaram de esperar por um acordo de distribuição decente ou por um melhor momento para lançar que não chegava nunca e foram à luta eles próprios, com o filme debaixo do braço, como no tempo de Carlota Joaquina.
Celeste e Estrela, de Betse de Paula, Morro da Conceição, de Cristiana Grumbach (ambos lançados em conjunto com a Pipa Nativa), Cama de Gato, de Alexandre Stockler, Vlado, 30 Anos Depois, de João Batista de Andrade, e O Signo do Caos, derradeiro filme de Rogério Sganzerla, chegaram ao circuito assim. O fato mais denota falta de opções do que indica que uma solução satisfatória tenha sido encontrada.
A entrada das médias e pequenas distribuidoras no jogo do filme brasileiro, movimento que começou em 2005, poderá ser a solução. No fim do ano, os cem mil espectadores de Cidade Baixa e os 56 mil de Cinema, Aspirinas e Urubus provaram isso, ainda que o atropelo de lançamentos tenha prejudicado um pouco (houve ainda Vinicius, lançado pela gigante UIP, mas com um tratamento e cuidado que mais confirmam do que negam a tese). Contudo – os casos citados acima são a prova –, se não há motivo para pânico é só porque, mercado à parte, o cinema brasileiro vive um belo momento.