O ciúme doentio é um sentimento ruim que pode causar muitos problemas na vida das pessoas. Mas, toda regra tem sua exceção. Quem comprova isso é o bailarino Sérgio Henrique Paes, 16 anos. Se hoje, ele e a irmã Larissa Lundim, 17 anos, são os mais novos integrantes da Companhia de Dança Carlinhos de Jesus, liderada por um dos maiores dançarinos do Brasil, é graças ao ciúme doentio de Sérgio pelas irmãs.
Tudo começou há cinco anos. Larissa e a irmã Ludmila faziam aulas de dança na Lúcia Toller. Para acompanhar as irmãs, por ciúmes delas, Sérgio começou a freqüentar as aulas também. “No começo eu achava que era uma coisa de outro mundo ser bailarino. Eu relutei até, gostava de futebol. Mas o meu ciúme foi mais forte. Como eu acompanhava as irmãs eu acabava fazendo aulas”. “No começo eu fazia uma por semana, com o tempo foi aumentado e logo e eu estava lá na escola todos os dias”, recorda Sérgio. Com jeito para a dança, Sérgio começou a arrancar elogios dos professores. “Eu tenho um estilo bem diferente. Mesclo os ritmos e as danças. Acho que é um diferencial que chama atenção”. Por achar que estava estagnado na dança, Sérgio e a irmã Larissa mudaram para a escola de dança Marcello Amorim com o objetivo de aprender mais o lado artístico e também dança de salão. “Nessa época eu nem cogitava a hipótese de fazer balé clássico, eu era preconceituoso”, conta ele.
Resistência Apesar da resistência, Sérgio começou a fazer balé clássico e caiu nas graças do público. “O meu professor elogiou bastante e diz que eu tinha que investir pois levá-va jeito. Ele também falou que eu podia ganhar dinheiro com isso. Foi quando eu me animei mais”, diz Sérgio, ressaltando que ele fazia balé e futebol ao mesmo tempo para equilibrar. “Eu não queria dar margem para as pessoas falarem. O futebol me fazia sentir melhor”. Investindo na carreira de bailarino, Sérgio fez duas exigências: não usar roupas coladas e também não fazer passos tão afeminados. A primeira delas não durou por muito tempo. Logo começaram as apresentações e Sérgio teve que usar roupas coladas. “Não tive como fugir disso. Mas os passos afeminados eu continuo sem fazer. Eu evito e isso não influencia na qualidade da minha apresentação. Então, não tem problema”, acredita.
Fazendo apresentações pelas cidades Larissa e Sérgio queriam algo mais. Foi então quando Ludmila, irmã mais velha, que na época já estava morando no Rio de Janeiro, falou sobre a audição da Companhia do Carlinhos de Jesus. “No começo eu não quis ir. Mas a Larissa acabou colocando pilha e me convencendo. Ela é muito importante na minha carreira. Graças a determinação e a confiança dela no meu trabalho, eu consegui estar aqui”. A audição foi realizada no Rio de Janeiro no dia cinco de outubro, deste ano. Cerca de 100 bailarinos participaram, dentre eles, Sérgio e Larissa. “Foi o momento mais nervoso da minha vida. Ex-professores competiram com a gente. Eu achava que não tinha chance, mas a Larissa estava confiante”. Durante a audição Carlinhos de Jesus fazia piadinhas para aliviar o clima. “Ele é muito engraçado e simpático. Mas na hora, o nervosismo era tanto que eu nem ria. A Larissa entrou e ficou só cinco minutos. Quando eu entrei Carlinhos me disse que eu tinha uma tarefa difícil: superar a minha irmã que tinha ido muito bem”, conta Sérgio, recordando que no dia da audição ele dançou com três dedos do pé quebrados. “Durante a apresentação eu mesclei movimentos do balé com a dança de salão, isso chamou a atenção do Carlinhos”.
Transferido Três semanas depois o resultado. Para a alegria da família e amigos, os dois foram aprovados. Larissa está no Rio de Janeiro há um mês e já começou seu estágio. Sérgio segue amanhã para o Rio. Seu atraso foi em função do término do ano letivo. “Agora a família vai toda para o Rio, com exceção do meu pai. Agradeço muito a minha mãe por tudo. Ela sempre me apoiou nas minhas decisões e irá para o Rio com a gente dar um apoio”. Sérgio diz que apesar da dança, ele e a irmã continuarão estudando.
“A Larissa passou em uma faculdade do Rio para Jornalismo. Eu estudo no Colégio Militar e vou ser transferido. Nós não pretendemos de forma alguma deixar os estudos”. Maduro com relação a sua carreira, Sérgio tem consciência que essa é a primeira porta de muitas que virão pela frente. “Sei que não é fácil. Essa oportunidade é só um estágio de quatro meses. Mas, para o meu currículo, será ótimo. Quero me aprofundar na academia do Carlinhos, mas também quero continuar com o balé clássico. Hoje, meu objetivo é ser bailarino e representar a minha cidade. Eu e a Larissa somos prova de que existem bons profissionais em Brasília”.