Stellan Skarsgård vive o pintor Francisco Goya no novo filme de Milos Forman. Podemos dizer que Sombras de Goya é um filme duplo. Por uma primeira leitura, cinebiografia de um dos mais expressivos pintores do realismo espanhol, Francisco Goya. Em segunda análise, as histórias trágicas dos personagens de Goya, engolidos ou redimidos pela Inquisição.
Mas, como um filme é um filme e, assim, deve-se entendê-lo como um todo, Sombras de Goya é o trabalho mais deslizante do bom diretor Milos Forman, que volta de uma pausa de sete anos sem rodar em 35 milímetros (a última vez fora a cinebiografia do polêmico comediante Andy Kauffman, em O Mundo de Andy, com Jim Carrey).
Deslizante por não se definir, Forman soma outro tropeço a esta obra ao escolher o razoável ator sueco Stellan Skarsgård (de Exorcista: O Início e Dogville) para o papel do pintor espanhol (ah, sim, todos falam em inglês). O descuido com o elenco tem na atuação de Javier Bardem, seu único refúgio. A própria Natalie Portman desenvolve uma clássica aristocrata, mas sucumbe à caricatura quando sua personagem mais exige.
A trama segue uma linha frágil (o que é uma surpresa, dado aos créditos do roteiro, assinado por Froman e o mestre Jean Claude-Carrière). A partir do título, o filme remete aos rostos que Goya pintou em algum momento do passado e pelos quais é “perseguido” ao longo de cada fase político-religiosa da Espanha-França num período de 15 anos: da sua fama entre os nobres e a família real, à surdez, que o isola num mundo do qual pouco compreende.
De outro lado está o rigor do tratamento narrativo sobre a Inquisição (pontos a mais para o roteiro), de onde tira-se aspectos de seu ridículo, trágico e até mesmo redentor – este último, no episódio em que um dos bispos da Igreja é traído por seus próprios princípios e submetido à sarjeta.
O traço mais suave da pintura de Milos Forman se dá quando acompanha a infeliz trajetória da personagem de Portman, julgada judaizante por preferir comer frango a carne suína: torturada até perder o juízo.