O caráter militante da banda pernambucana Mundo Livre S/A nunca esteve tão acentuado como no novo CD do grupo, O Outro Mundo de Manuela Rosario, lançado pela gravadora independente Candeeiro Records e distribuído pela Trama. Os versos politizados desse quinto álbum dos “punks” do movimento mangue beat lembram os tempestuosos momentos de 1968 e o suingue faz referências constantes ao samba-rock de Jorge Ben (antes de agregar o Jor ao nome).
A proposta é diferente do rock essencialmente pernambucano do álbum de estréia Samba Esquema Noise (analogia ao primeiro disco de Jorge Ben, Samba Esquema Novo). A linguagem musical é ainda controversa à do CD anterior, Por Pouco, que valoriza as melodias num ritmo dançante.
Manuela Rosario é mais um testamento sócio-político a favor da luta dos zapatistas no México, do Movimento Sem Terra no Brasil e dos índios Xukuru em Pernambuco, com doses altas de ficção (ou esperança).
O discurso mordaz do letrista e vocalista da banda Fred Zero Quatro é acompanhado por uma trincheira de sons fecundos de uma mistura de rock com muito samba, sotaque nordestino, batidas eletrônicas e sonoplastias.
O importante mesmo é o enredo do disco. Insira o CD no disc play, feche os olhos, sinta-se dentro de uma sala de cinema e deixe se envolver pela narrativa romântica e, ao mesmo tempo, trágica do outro mundo da guerreira Manuela Rosario.