De acordo com o artigo, o marco de fundação da neurobiologia dos sonhos foi a descoberta, em humanos, de que longos episódios de sono sem sonhos, caracterizados por ondas eletroencefalográficas lentas (slow-wave sleep, SWS), são sucedidos por episódios curtos de sono com sonhos, caracterizados por eletroencefalograma cortical rápido e movimentos oculares involuntários (rapid-eye-movement sleep, REM). Este achado deflagrou um grande progresso no entendimento dos mecanismos cerebrais responsáveis pela geração dos sonhos. No entanto, a elucidação das funções biológicas dos sonhos demorou bem mais a amadurecer. A despeito de estudos experimentais pioneiros, foi somente após 1970 que a ciência começou a reconhecer o papel decisivo do sono na consolidação de memórias. Os principais achados a favor desta visão são: o efeito negativo da privação de sono sobre a aprendizagem, o aumento da quantidade de sono após a aquisição de memórias, e o fato de que ritmos hipocampais típicos do estado de alerta comportamental também caracterizam o sono REM. Dado o envolvimento do hipocampo na aquisição de memórias, estes resultados sugeriram que o sono facilita o processamento de novas de informações. A investigação dos mecanismos subjacentes ao papel mnemônico do sono levou a dois resultados importantes: o bloqueio de síntese protéica durante o sono danifica a aquisição de memórias, e padrões de atividade neuronal relacionados às experiências da vigília reaparecem no hipocampo durante o sono. Tendo em vista que o aprendizado duradouro requer modificações sinápticas dependentes de atividade neuronal e de síntese protéica de novo, sugere-se que o sono abriga ambos os mecanismos postulados por Hebb29 como necessários e suficientes para explicar a consolidação de memórias: reativação neuronal pós-estímulo (“reverberação”) e plasticidade sináptica (“mudança estrutural”). A reverberação de atividade neural durante o sono foi detectada em roedores, humanos e mesmo pássaros canoros. Demonstrou-se que tal reverberação neural preserva relações temporais da atividade neuronal da vigília, correlaciona-se com o conteúdo aprendido em tarefas cognitivas, prediz quantitativamente as taxas de aprendizado antes do sono, chega a durar até 48 horas em várias estruturas telencefálicas, e é mais robusta durante o sono SWS que durante a vigília ou o sono REM.