Hoje vai ter show do Little Quail and The Mad Birds. Não, não precisa ler de novo, você não entendeu errado. Também não era apenas um boato espalhado pelos quatro cantos da cidade. É verdade. O trio brasiliense mais querido dos anos 90, Gabriel Thomaz (guitarra e voz), Bacalhau (bateria e voz) e Zé Ovo (baixo e voz) volta a se reunir na cidade natal para fazer um show-homenagem a eles mesmos. No evento tocarão ainda as brasilienses Bois de Gerião, Móveis Coloniais de Acaju, Gramofocas, Super Stereo Surf, Capotones e a banda paulista Lóki Pimenta.
Fundada em 1988, a Little Quail and The Mad Birds foi uma banda divertida que criava letras hilárias em cima do rockabilly dos anos 50 e do rock de garagem dos anos 60 misturados com samba, blues e dance music. Eles foram responsáveis por pérolas como “O céu é azul/as plantas são verdes/o Sol, eu não sei porque quando eu olhei o olho doeu”. Quem não se lembra do hit 1,2,3,4? Ou de Família que Briga Unida Permanece Unida, Aquela, Essa Menina e Cigarrette?
Em nove anos de existência, o trio gravou uma fita demo em 1992 – que vendeu mais de 1,5 mil cópias -, os CDs Lírou Quêiol En De Méd Bãrds (1993) e A Primeira Vez que Você me Beijou (1996) e participou das coletâneas A Vez do Brasil (1993), Cidade do Rock (1995) e Banguela Hits, Último Dente (1995). Para comemorar os 10 anos da banda foi lançado no final de 1998 o terceiro CD, EP, com oito faixas, sendo que seis delas eram inéditas.
O “rock para divertir as pessoas” feito pelo Little Quail em 1991 já levava mais de mil pessoas aos shows aqui em Brasília. Quando eles colocaram o pé na estrada, foram 186 apresentações entre o Amapá e Santa Catarina, passando por Maceió, São Paulo e Rio de Janeiro.
“Sinto muito orgulho desse carinho que as pessoas têm pelo Little Quail”, assume Gabriel Thomaz em entrevista ao Jornal de Brasília. Nos intervalos das sonoras gargalhadas, Gabriel lembra as peripécias da banda. Como a turnê-aventura que fizeram por 20 cidades brasileiras viajando na Parati de Zé Ovo. “Foram três meses sem ter lugar fixo para ficar”, conta.
Ou quando a música 1,2,3,4 dividiu o troféu da revista ShowBizz de melhor música em 1993 com Haiti de Caetano Veloso e Gilberto Gil. “Imagina só: uma música composta sem qualquer pretensão, que fala “1,2,3,4 não tem 5/não tem 6/Parou no 4. 1,2,3,4″, dividir o prêmio com a verborragia de Caetano e Gil”, diverte-se.
Tem ainda o episódio em que o grupo processou a Fundação Cultural do DF. A banda havia lotado a Sala Martins Penna, mas o dono do equipamento não quis dividir o dinheiro alegando que no ano anterior o trio havia quebrado alguns instrumentos. “Processamos a fundação porque eles não tomaram o nosso partido”, sorri o músico.
Músicas emplacadas nas rádios, videoclips na MTV, por que então a banda acabou? Gabriel arrisca um palpite. “Little Quail and The Mad Birds é um nome difícil para um País onde há tanta gente analfabeta”. Acrescente-se aí o preconceito e a falta de espaço para o rock no ínicio dos anos 90. “Era a época da lambada e do sertanejo”, puxa na memória.
Com tanta pressão, Bacalhau, Zé Ovo e Gabriel acabaram brigando porque queriam seguir caminhos diferentes. Foi o fim da banda e cada um seguiu seu caminho. No entanto, quase sete anos depois, Gabriel afirma que há muito eles voltaram a ser amigos. “Há várias bandas que os integrantes não se falam, mas continuam trabalhando juntos. Com a gente foi o contrário”, conta.
Gabriel, hoje com 32 anos, mora no Rio de Janeiro e é vocalista e guitarrista do Autoramas. Bacalhau e Zé Ovo moram na terra da garoa. Bacalhau é baterista do Ultraje a Rigor e Zé Ovo trabalha de roadie a técnico de som. Desde o final da banda em 1997, hoje é a primeira vez que os três voltam a tocar juntos as músicas do Little Quail em palcos da capital federal. “Como não moramos mais em Brasília fica difícil. No Rio chegamos a tocar duas vezes”, explica Gabriel.
Apesar da garantia que a banda só está se reunindo para uma festa e não tem a intenção de retornar ao mercado, Gabriel confessa que ainda hoje se pega pensando em capas para discos da extinta banda. “Só tenho boas lembranças daquela época”, ressalta.