As exposições de artes plásticas tradicionais costumam privilegiar apenas o sentido da visão. Cristina Portella, na mostra Cores do Silêncio com o tema Borboletas Brasileiras, permite que o admirador explore outros sentidos, como a audição e, quem diria, o geralmente proibido tato.
Apesar da visão ser limitada, a imaginação, mesmo a do portador de deficiência visual, não tem limites. “E quem tiver visão normal será convidado a usar uma venda nos olhos para ter uma experiência completa da exposição”, diz a artista, que desenvolveu nas obras, o mimetismo, uma espécie de camuflagem das borboletas. “Ele é sentido pelo tato com galhos de madeira das árvores”, conta.
A baixa visão ou visão subnormal, que não é completamente cega, também é privilegiada pelas peças. “Trabalhei muito com contrastes, como claro e escuro, quente e frio, alto e baixo, justamente para facilitar o esforço de quem sofre desse tipo de visão”, explica.
As cores são diferenciadas por texturas diferentes, entre elas miçangas aperoladas e sementes. Tem uma borboleta do cerrado, a borboleta folha. Na peça tem cinco borboletas escondidas para a pessoa achar no meio das folhas. Al Pacino, em Perfume de Mulher, interpreta um cego que reconhece uma mulher bonita pelo aroma. Cristina utilizou técnica similar. “O galho aromático pau-rosa é o cheiro da borboleta aperolada”, explica.
A escolha pelo tema vem de uma história de infância. “Nunca saiu da minha mente uma borboleta amarela que levei para o meu pai, que chamou-a de papillon, borboleta em francês”, lembra. Todas as borboletas levam o nome popular e científico. “Foi feita uma pesquisa na linha arte e educação com biólogos”, aponta.
“Estaladeira”, por exemplo, é o nome popular da Hamadruja feronia. Para criar a sensação de vôo da estaladeira, a artista colocou plástico bolhar no chão. “Quando as pessoas pisarem, ouvirão o barulho”, adianta.