Presidente do júri do Festival de Cannes de 2006, o cineasta chinês Wong Kar-wai atribuiu a Palma de Ouro a um autor 100% político, que faz um cinema bem diverso da sua análise dos sentimentos – o inglês Kean Loach, de Ventos da Liberdade. No ano passado, Kar-wai voltou a Cannes, participando da competição com o longa My Blueberry Nights, que estréia hoje com o título de Um Beijo Roubado.
O beijo, propriamente dito, é deslumbrante. A cantora – e agora atriz – Norah Jones adormece no balcão do café em que Jude Law lhe serve a torta de frutas do título original. O diretor posiciona sua câmera no alto para captar o momento em que Law, debruçando-se sobre o balcão, faz o encaixe perfeito para roubar o beijo de Norah/Elizabeth.
O filme não é unanimidade. Segundo os críticos, Wong Kar-wai repete-se, contribuindo para que Um Beijo Roubado seja praticamente o remake norte-americano de Amor à Flor da Pele. Em Cannes, na coletiva após a exibição do longa, Wong Kar-wai admitiu que talvez tivesse sido um erro participar da competição. “Meus amigos me advertiram que seria um desastre exibir o filme justamente na abertura do festival”, disse.
Questionamentos
Nos últimos anos, Wong Kar-wai muda os ambientes e os atores e segue com as mesmas perguntas: O que é o amor? Como se expressa? Como se pode viver sem ele? Como o tempo age sobre nossos sentimentos? Baseou-se no curta que havia feito, como preparação para Amor à Flor da Pele.
Desenvolveu-o com a colaboração do escritor norte-americano Lawrence Block, recorreu a atores de língua inglesa, substituindo figuras míticas do seu universo pessoal. Em vez de Tony Leung, Jude Law. Em vez de Maggie Cheung, Norah Jones. Mera repetição, rotularam os críticos, torcendo o nariz. “Não é um remake, mas uma adaptação”, defendeu-se o diretor.
E acrescentou: “É, basicamente, um filme sobre a distância. Às vezes é preciso nos distanciar milhares de quilômetros para conseguirmos nos aproximar do outro”. Na trama de Um Beijo Roubado, Jude Law faz este dono de café que vive ouvindo as histórias de amor dos clientes. Uma noite ele recebe a visita de Norah, uma jovem de coração partido com quem conversa madrugada adentro. Apaixonam-se, claro, mas a mulher, confusa e determinada a se livrar do passado, parte numa viagem pelos EUA.
Ela faz novos amigos que a ajudam a entender os caminhos do amor: um policial (David Strathairn) que não consegue abandonar a ex-mulher (Rachel Weisz) e uma sexy jogadora de cartas (Natalie Portman). Jude Law procura desesperadamente por Norah, seguindo seus passos através de telefonemas e cartas.
Numa cena muito especial – veja para conferir –, Wong Kar-wai filma Rachel Weisz caminhando com a mesma sensualidade de Maggie Cheung em Amor à Flor da Pele. Não há dúvida de que este homem sabe escolher (e filmar) suas mulheres. No caso de Um Beijo Roubado, ele escreveu o filme para Norah Jones, por causa de sua voz. “A voz de Norah é como um instrumento musical bem afinado. É cinematográfica. Quando se ouve a voz dela, sem ver o rosto, já é possível construir uma história. Foi o que me inspirou a fazer o filme”.