Intérprete de voz grande e de expressão simples (porém, marcantes), Maria Bethânia abre seu baú afetivo de canções em curta temporada, amanhã e sábado, na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional. A cantora baiana desembarca em Brasília com o espetáculo comemorativo de seus 40 anos de carreira, Tempo, Tempo, Tempo, Tempo, que serve também como apresentação do seu recém-lançado disco-tributo a Vinícius de Moraes, Que Falta Você me Faz.
Em entrevista ao Jornal de Brasília, Bethânia previne que a performance não é exclusiva para o repertório do poetinha, nem mesmo uma retrospectiva das quatro décadas de glória. “Passo pelos 40 anos e faço, obviamente, referências. Mas não terá esse peso, esse compromisso com a releitura da carreira. É um show de expressão minha, das coisas que gosto e das paixões que sinto hoje”, conta a intérprete.
A doce bárbara – que dividiu seus primeiros anos de Tropicália com os conterrâneos Gilberto Gil, Gal Costa e o irmão Caetano Veloso – não esconde o fascínio que a estrada ainda exerce sobre sua vida. “Carrego comigo aquela coisa verdadeira de artista: a paixão por cantar é maior do que eu mesma. Não me custa nada, porque acho o ofício, em si, extraordinário”, diz, impulsiva. Mas reitera, despindo-se do romantismo: “Não é que seja fácil. É cheio de infernos”.
espetáculo Quem alguma vez já conseguiu assistir a uma performance da cantora – ou mesmo se deleitou na peça musical arrebatadora registrada no DVD Brasileirinho – sabe que a presença de Maria Bethânia não se limita ao microfone na mão, às luzes no rosto e à disposição dos músicos no palco. É verdadeiramente um espetáculo de classe (sem purpurina) e expressões cênicas (sem melodrama). A própria Bethânia registra o melhor conceito: “Apesar de ter uma imponência, acho bonito o contraste de ser um show tão simples, tão nu”.
A apresentação que o público brasiliense verá nesses dias será generosa. A cantora organizou um programa com 38 músicas, divididas em três momentos. O prólogo reúne uma saudação com versos de Vinícius de Moraes (Olha Maria, Modinha e Poética I) seguido pela música que inspirou o título da turnê: Oração do Tempo, de Caetano.
Na seqüência, ela desfila um repertório sortido no primeiro ato. Abre mais uma vez com Vinicius (O Astronauta, com Baden Powell) e Caetano (Nossos Momentos). Depois costura sambas de Dona Ivone Lara (Nos Combates Dessa Vida), Benito di Paula (Você Vai Ficar na Saudade) e Paulo Vanzolini (Volta por Cima) com consagradas de Chico Buarque (Quem Te Viu, Quem Te Vê e Olhos nos Olhos), Roberto e Erasmo Carlos (Pode Vir Quente Que Eu Estou Fervendo) e mais algumas de Vinicius (agora com Tom Jobim), como Lamento no Morro e Soneto de Separação.
O segundo ato, que congrega a maior fatia da apresentação com 22 músicas, traduz a memória afetiva da intérprete do samba-canção à MPB dos anos 80. Ela planeja um viagem no tempo com a música que a projetou como cantora nacionalmente, Carcará (em 1965), e aquelas feitas sob medida para sua voz, como Berceuse Criolle (Jards Macalé e Wally Salomão), Estranho Rapaz (Roberto Mendes e Capinam) e Imagem (Suely Costa e Cecília Meireles).
Entrarão mais algumas do poetinha da parceria com Toquinho (Como Dizia o Poeta e Tarde em Itapoã) e citações dos versos do Soneto de Felicidade e de Poema: Cartão Postal. Ao falar de Vinícius, Bethânia deixa escapar o saudosismo: “Quando fui apresentada para ele, olhamos um para o outro e demos uma gargalhada. Era como se nos conhecêssemos há anos. Nunca fui amiga íntima do Vinícius, mas sempre que queria uma consulta intelectual, musical ou um silêncio, recorria a ele”.
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo estreou no Rio, foi para a “terrinha” (Bahia), passou pelos demais estados do Sudeste e do Sul e, depois da escala em Brasília, segue pelas demais capitais nordestinas. Ao saber que Bethânia viria a Brasília, Gilberto Gil (que encerra hoje sua temporada na mesma Sala Villa-Lobos) não hesitou em ligar para a parceira de Tropicália. “Ele me chamou para participar do show amanhã, mas será na hora em que estarei chegando a Brasília”, esclarece. O convite foi retribuído, mas Bethânia lamentou que Gil tenha de deixar a cidade no dia.
serviço
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo – Show da cantora Maria Bethânia. Amanhã e sábado, às 21h, na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional. Ingressos a R$ 140 (inteira, com meia-entrada para estudantes e idosos), à venda na bilheteria do teatro.