Nestes tempos de guerra e muita confusão, que envolve principalmente o mundo árabe, gostaria de falar um pouco sobre o que conheci desse povo, cuja cultura rivaliza com a de meus ancestrais hebreus, desde os primórdios do tempo. Ou mais precisamente desde Abrahão.
A língua, a religião muçulmana e seus hábitos alimentares unem 21 países em todo o mundo árabe.
Para quem não sabe, alho, hortelã, coentro, açafrão, zátara (espécie de florzinha seca e moída cuja aparência faz lembrar o orégano, porém com sabor bem mais acentuado), canela, noz- moscada, flor de laranjeiras, água de rosas, tudo isso nasceu na gastronomia árabe.
Para um árabe, comer é um ato quase religioso. Servir bem, uma questão de honra. A um convidado se oferece o que se tem de melhor. Repetir é uma deferência que denota aprovação.
Na última vez em que estive em minha terra natal, o Marrocos, fui visitar o apartamento da minha família. Coisas da nostalgia, de lembranças da infância.
De repente ouvi uma pessoa aos gritos pedindo socorro. Parecia que estava presa no banheiro. A maçaneta de dentro caíra. Fiquei angustiado e comecei a falar:
– Ponha o dedo no buraco da maçaneta, puxe para cima, levante um pouco a porta e ela irá se abrir.
Instruções seguidas, em segundos a porta estava aberta e revelava um atônito morador:
– Como é que você sabia a maneira de abrir a porta?
Não era difícil. Afinal, eu havia nascido e me criado ali. Conhecia aquela maçaneta de cor e salteado. Difícil explicar como que um singelo conserto deste porte resistiu a mais de 20 anos. Coisa do mundo árabe, com certeza.
Ahmed, o novo morador, fez questão de me convidar à sua mesa farta. Serviu baklava (o famoso doce recheado de nozes) e meghli (creme feito com farinha de arroz e coco ralado). Mas a principal lembrança daquela tarde gostosa foi a certeza de que é sempre bom percorrer trilhas conhecidas anteriormente e, quem sabe, ajudar alguém que enfrenta o mesmo obstáculo que nós já enfrentamos.