Tudo começou em 1996, quando Fernando Marques, a pedido do diretor Tullio Guimarães, criou três canções para uma peça que estava sendo exibida na cidade. “Foi quando tomei contato com o texto Woyzeck, do escritor alemão Georg Büchner (1813-1837). Nessa época tive vontade de adaptar o texto”, lembra o escritor, que também é jornalista, professor universitário, poeta e compositor.
Essa vontade se realizou no ano passado, quando Marques conseguiu patrocínio e publicou, pela Editora Perspectiva, o livro Zé, uma releitura do clássico de Büchner. Para ser mais exata, não uma releitura comum, mas uma verdadeira adaptação à realidade brasileira.
O trabalho, para não dizer paixão, desenvolvido por Fernando atualmente gira em torno do teatro musical dos anos 60 e 70, também sua tese de doutorado. “Assim, o texto de Zé bebe na fonte do teatro desenvolvido nos anos 60 e 70 no Brasil que traz um texto em verso. Isso, ao contrário do que pode-se imaginar, não dificulta o contato com a platéia. Cria um encantamento, é eficaz”, justifica Fernando Marques.
Ele acredita ser possível reeditar a prática do texto em verso. “Tudo é uma questão de hábito. A idéia é comunicar mais, convidar o espectador a esse jogo lúdico, feito de versos. Afinal, falar em verso é como cantar”, diz Marques. O texto original é algo denso, atemporal, que traz Woyzeck como um homem oprimido não apenas pelo médico, pelo capitão, pela namorada que o trai, mas por toda a sociedade. Assim, quando comete um crime, em conseqüência dessa opressão, ele não é e não deve ser visto como um assassino. Deve ser entendido como um homem oprimido que grita por socorro. “Não quero justificar o crime, mas até que ponto ele é culpado pelo que cometeu? Em que circunstâncias ele mata?”, lembra Marques. A leitura feita hoje será acompanhada do lançamento do livro, com direito a noite de autógrafos. Já na quinta-feira, o evento será acompanhado de um debate com o autor, os diretores e alguns convidados. Ainda haverá, no foyer do teatro, uma exposição com as oito ilustrações de Andréa Campos de Sá, feitas especialmente para o livro.