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A bossa de uma turma verde-amarela

Arquivo Geral

02/09/2004 0h00

Houve um tempo em que o Brasil pode ser visto nas histórias em quadrinhos, um universo dominado por criações norte-americanas e européias. Era a década de 60, e um quixote chamado Ziraldo espetava a consciência do público, insertando idéias ecológicas e sentimentos políticos na floresta habitada pela Turma do Pererê. Esse esforço heróico está documentado em Todo Pererê(Editora Salamadra), que chega ao seu terceiro volume.

Quando a Turma do Pererê surgiu, os intelectuais e o povo brasileiro viviam um rompante de modernidade e de possibilidades de um Brasil novo. No cenário nacional, a música se rendia ao banquinho e violão da bossa nova, a seleção de futebol mostrava-se uma potência mundial e todos se preparavam para o marco arquitetônico que seria Brasília. Ziraldo foi atrás desse sentimento de inovação.

O que era novo na criação do artista mineiro, cheio de gás e amor pelo País, era a tentativa de criar personagens com identidade puramente nacional. Ziraldo foi buscar nas lendas e fauna exclusivamente brasileiras os heróis de suas histórias.

O Saci, protetor da natureza, a Boneca-de-Piche, o índio Tininim, a onça Galileu, o macaco Alan e os caipiras Sêo Neném e Compadre Tonico, entre outros eram indistintamente verde-amarelos. E viviam situações que projetavam o cotidiano tupiniquim. Havia sobretudo, com uma dose exata de ingenuidade e carga lúdica, um resgate de nossa cultura mais tradicional, de velhas brincadeiras, cantigas de roda, causos da mata e do sertão. Era uma busca do passado sem ranço conservador.

Entre uma e outra historinha de companheirismo e solidariedade, havia uns lampejos de exercício político. Socialista de carteirinha, Ziraldo fazia que com seus divertidos personagens discutissem aqui e ali a destruição das matas, a onda de consumismo criada pela sociedade capitalista e os estrangeirismos impostos ao dia-a-dia do brasileiro. Tudo com muita graça e sem qualquer panfletarismo. Bom para fazer a criançada se questionar.

Lançada originalmente na superlida, na época, revista O Cruzeiro, a turma do Pererê chegava como um combo na maré contrária do que se via nas bancas, apinhadas de publicações com assinaturas estrangeiras. O time de fora, contudo, acabou vencendo. As aventuras de Saci e sua turma saíram de cena na década de 70. Na década seguinte, tentaram reeditar esparsamente as historinhas, mas sem sucesso.

O retorno de Pererê em edição de luxo mostra o que é que nossas crianças, e o adultos também, perderam com a aposentadoria precoce da trupe de Ziraldo. O volume três da série traz histórias desenhadas nos anos 60, a maioria, e nos anos 70. Nelas, há uma síntese da alegria e paixão com que Ziraldo se dedicou ao projeto.

Para se emocionar, é bom rever histórias como Um Pai para o Saci em que seus colegas discutem, na véspera do dia dos pais, quem poderia ser o progenitor da figurinha lendária. Num final tocante, o Pererê tem que presentear todo o povo brasiliero, disposto, no ultimo quadrinho, numa longa fila indiana.

É legal ver ainda o didatismo e a inventividade de O Beijoqueiro, publicada pela primeira vez em julho de 1975, em que o índio Tininim sai beijando buritis, pitangueiras, jacarandás, graviolas e todas as árvores da floresta que vê pela frente. O motivo: elas serão derrubadas par dar lugar a um “estradão fura-mata”. Um belo elogio á natureza.

Na publicação da Editora Salamandra dá para perceber, por fim, a criatividade de Ziraldo, com seus traços simples e cenários completamente despojados de detalhes. Muitas vezes o fundo era simplesmente uma cor forte e chapada. O colorido das histórias não poderia ser mais tropical e estimulante. Arte brasileira com todas as letras.

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    Quando a Turma do Pererê surgiu, os intelectuais e o povo brasileiro viviam um rompante de modernidade e de possibilidades de um Brasil novo. No cenário nacional, a música se rendia ao banquinho e violão da bossa nova, a seleção de futebol mostrava-se uma potência mundial e todos se preparavam para o marco arquitetônico que seria Brasília. Ziraldo foi atrás desse sentimento de inovação.

    O que era novo na criação do artista mineiro, cheio de gás e amor pelo País, era a tentativa de criar personagens com identidade puramente nacional. Ziraldo foi buscar nas lendas e fauna exclusivamente brasileiras os heróis de suas histórias.

    O Saci, protetor da natureza, a Boneca-de-Piche, o índio Tininim, a onça Galileu, o macaco Alan e os caipiras Sêo Neném e Compadre Tonico, entre outros eram indistintamente verde-amarelos. E viviam situações que projetavam o cotidiano tupiniquim. Havia sobretudo, com uma dose exata de ingenuidade e carga lúdica, um resgate de nossa cultura mais tradicional, de velhas brincadeiras, cantigas de roda, causos da mata e do sertão. Era uma busca do passado sem ranço conservador.

    Entre uma e outra historinha de companheirismo e solidariedade, havia uns lampejos de exercício político. Socialista de carteirinha, Ziraldo fazia que com seus divertidos personagens discutissem aqui e ali a destruição das matas, a onda de consumismo criada pela sociedade capitalista e os estrangeirismos impostos ao dia-a-dia do brasileiro. Tudo com muita graça e sem qualquer panfletarismo. Bom para fazer a criançada se questionar.

    Lançada originalmente na superlida, na época, revista O Cruzeiro, a turma do Pererê chegava como um combo na maré contrária do que se via nas bancas, apinhadas de publicações com assinaturas estrangeiras. O time de fora, contudo, acabou vencendo. As aventuras de Saci e sua turma saíram de cena na década de 70. Na década seguinte, tentaram reeditar esparsamente as historinhas, mas sem sucesso.

    O retorno de Pererê em edição de luxo mostra o que é que nossas crianças, e o adultos também, perderam com a aposentadoria precoce da trupe de Ziraldo. O volume três da série traz histórias desenhadas nos anos 60, a maioria, e nos anos 70. Nelas, há uma síntese da alegria e paixão com que Ziraldo se dedicou ao projeto.

    Para se emocionar, é bom rever histórias como Um Pai para o Saci em que seus colegas discutem, na véspera do dia dos pais, quem poderia ser o progenitor da figurinha lendária. Num final tocante, o Pererê tem que presentear todo o povo brasiliero, disposto, no ultimo quadrinho, numa longa fila indiana.

    É legal ver ainda o didatismo e a inventividade de O Beijoqueiro, publicada pela primeira vez em julho de 1975, em que o índio Tininim sai beijando buritis, pitangueiras, jacarandás, graviolas e todas as árvores da floresta que vê pela frente. O motivo: elas serão derrubadas par dar lugar a um “estradão fura-mata”. Um belo elogio á natureza.

    Na publicação da Editora Salamandra dá para perceber, por fim, a criatividade de Ziraldo, com seus traços simples e cenários completamente despojados de detalhes. Muitas vezes o fundo era simplesmente uma cor forte e chapada. O colorido das histórias não poderia ser mais tropical e estimulante. Arte brasileira com todas as letras.

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