Em tempos de antitabagismo e do politicamente correto, o escritor cubano Guillermo Cabrera Infante não hesitou em descrever de forma técnica, mas também bastante passional as artes de se fumar um charuto, ou um puro, como gosta de chamá-lo em seu livro Fumaça Pura. A obra foi publicada em 1985 em inglês e espanhol, mas somente foi lançada no Brasil em julho deste ano, pela Editora Bertrand.
Fumaça Pura mostra a descoberta do tabaco – foi o marinheiro Rodrigo de Jerez, que acompanhava Cristóvão Colombo em sua descoberta da América que descobriu também os hábitos dos indígenas, que soltavam uma estranha fumaça pela boca e pelo nariz – a moda entre os europeus da época, o preconceito, a paixão e a sedução dos charutos há 500 anos, desde que foi achado entre os indígenas.
O livro também descreve a relação entre o fumo e o cinema. Descreve o glamour, o prazer e a sedução, sempre associados à fumaça de um cigarro ou de um charuto. De forma simples, Infante afirma que sua obra é uma “crônica erudita, mas também divertida da relação entre o charuto e o cinema”.
Ele escreve sobre Fidel Castro, que não gosta de cinzeiros, mas não dispensa um puro e sente prazer em largar tantas pontas de charutos no chão quantas quiser. Infante não esquece de citar Humphrey Bogart e Marlene Dietricht, que não fumavam um puro, mas tinham como extensão do próprio corpo o cigarro, nas telas ou fora delas. E chega até a lagarta fumante de Alice no País das Maravilhas, obra do britânico Lewis Carrol, primeira a fumar em contos infantis e segundo fontes do escritor cubano, fumante de ópio, o que a deixava com aquela voz sonolenta e rouca.
Infante não faz apologia ao tabaco, mas não esconde sua paixão pelo charuto. “Um cigarro é uma partícula pedente de seus lábios, e um cachimbo, dentes apertados e nenhuma fúria. Mas um puro é como uma paixão: primeiro você o prende, em seguida ele arde vermelho, violeta, violento, virulento (…) Um puro é uma mulher, uma fumada divina! (…)”.
Para os fumantes e apreciadores do charuto, o livro é uma interessante viagem ao mundo do cinema fumante. E para os não-fumantes, Fumaça Pura os encoraja a experimentar, ao menos uma vez, um puro.