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Primos em lados opostos, João Campos e Marília Arraes disputam voto conservador do Recife no 2º turno

Recife é a única capital do Brasil onde haverá disputa entre duas candidaturas situadas no campo da esquerda

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em

Foto: reprodução
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João Valadares
Recife, PE

O embate no ninho da família mais tradicional da vida política pernambucana, que divide o eleitorado do campo mais alinhado à esquerda no Recife, ganha um novo contorno no segundo turno entre os primos João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT).

Os dois, que tiveram 29,17% e 27,95% dos votos respectivamente, disputam uma fatia de 42% do eleitorado recifense que votou em candidatos do campo conservador.

Nos bastidores, algumas estratégias de alianças já estão sendo traçadas. Juntos, o ex-ministro da Educação Mendonça Filho (DEM) e a delegada Patrícia Domingos (Podemos), apoiada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), tiveram 39% dos votos.

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Os dois já declararam publicamente que vão ficar neutros neste segundo turno. Recife é a única capital do Brasil onde haverá disputa entre duas candidaturas situadas no campo da esquerda.

Candidato da situação, João Campos recebeu os ataques mais fortes dos adversários que estão fora da corrida eleitoral. Preferiu não responder.

Agora, o tom mudou. “Recife já conhece o resultado das arengas do PT”, disse o deputado logo após a apuração numa referência às gestões petistas na capital pernambucana. O PSB foi vice do ex-prefeito João da Costa (PT) e integrou os dois governos de João Paulo (PT) à frente da Prefeitura do Recife.

Durante debate na reta final do primeiro turno, ao responder um questionamento da prima sobre desvios de recursos na gestão de Geraldo Julio, disse que causava estranheza uma candidata do PT falar de corrupção.

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O PT integra o primeiro escalão do governo Paulo Câmara e, até outubro, de Geraldo Julio.

Para o segundo turno, o PSB prepara uma ofensiva com o objetivo de mostrar fragilidades na atuação parlamentar de Marília Arraes quando esteve na Câmara Municipal do Recife e na Câmara dos Deputados.

A ideia é tentar neutralizar o argumento da falta de experiência pública de João Campos mostrando a diferença de atuação parlamentar entre os dois.

No primeiro turno, Marília acabou sendo poupada de ataques. A disputa acirrada entre Mendonça Filho e a Delegada Patrícia Domingos a beneficiou. A expressiva votação da petista, com uma diferença de apenas 9.780, o que corresponde a 1,22%, ligou o alerta do PSB.

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“Foi cargo comissionado na rua sendo obrigado a pedir voto para não perder emprego, exército de vereadores nas ruas e tivemos praticamente a mesma votação que o candidato do PSB”, disse Marília a uma rádio local nesta segunda-feira numa referência a João Campos.

Ela tem repetido nos discursos de que o povo do Recife não tem dono.

No primeiro turno, Marília, que é classificava pelo ex-presidente Lula como “boa de briga”, chamou seu primo de “frouxo” por, no seu entendimento, fugir do confronto direto.

Também repetiu que Campos esconde no palanque Geraldo Julio (PSB) e Paulo Câmara (PSB).

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No começo da campanha, temendo uma efeito antipetista, Marília se afastou dos principais símbolos do partido. Só depois, após receber críticas, mudou a estratégia e investiu todas as fichas no ex-presidente Lula como principal cabo eleitoral.

Também fez acenos ao eleitorado mais conservador ao defender que a Guarda Municipal seja armada e que os presos do Presídio Aníbal Bruno, o maior de Pernambuco, sejam retirados do Recife e colocados em outra cidade.

João e Marília são primos de segundo grau. Cresceram na escola do PSB, com simbolismo histórico no estado, mas desde 2014 estão em lados opostos.

Ele é bisneto do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes (1916-205). Ela, neta.

Marília deixou o PSB após ser bloqueada nas suas pretensões políticas dentro do partido pelo primo e pai de João, o ex-governador Eduardo Campos (1965-2014), morto em acidente aéreo na campanha presidencial de 2014.

Ela só migrou oficialmente para o PT em 2016 na tentativa de se viabilizar em projetos majoritários.

Nas eleições de 2018, João Campos e Marília Arraes chegaram à Câmara dos Deputados como os dois mais votados do estado.

João, que há dois anos fez toda sua campanha se autointitulando “o filho da esperança”, com menções a Eduardo Campos e Miguel Arraes, obteve 460.387 votos. Marília, 193.108.

Nestas eleições, também usou o pai como principal cabo eleitoral. Em uma das peças de propaganda, aparecia falando com o mesmo gestual.

O espólio eleitoral familiar fez com que João Campos conseguisse a maior votação da história de Pernambuco em 2018. Superou, inclusive, o seu bisavô Miguel Arraes, que, em 1990, teve 339.158 votos.

​Desde que rompeu com a família Campos, Marília Arraes, única mulher entre 25 parlamentares da bancada federal do estado, personificou de maneira contundente a oposição ao PSB em Pernambuco.

Acusou Eduardo Campos de controlar o partido com mão de ferro, desrespeitar a democracia interna da sigla e escolher “candidatos biônicos” para disputar eleições.

Antes do rompimento, era uma aguerrida defensora da gestão do PSB. Pelo partido, se elegeu pela primeira vez vereadora do Recife em 2008, quando Campos já era governador de Pernambuco.

Em 2013, chegou a ocupar a Secretaria de Juventude e Qualificação Profissional na primeira gestão de Geraldo Julio (PSB), que era o apadrinhado político de Eduardo Campos.

O rompimento com o PSB começou a se desenhar mais claramente no início de 2014, ano em que Eduardo se lançou candidato à Presidência da República.

Marília demonstrou descontentamento quando o primo quis emplacar o filho João Campos no comando da Juventude do PSB em Pernambuco, cargo com assento na executiva do partido.

Logo em seguida, nas eleições de 2014, Eduardo freou diretamente os objetivos eleitorais da prima, que esperava herdar os votos da tia Ana Arraes, que havia se tornado ministra do TCU (Tribunal de Contas da União) após forte campanha do filho governador.

Nesta campanha, ela se manteve afastada da disputa. Os 387 mil votos recebidos por Ana na eleição de 2010, que a tornou a deputada mais votada em Pernambuco e a quinta no Brasil, foram estrategicamente repartidos. Marília ficou de fora.

Os principais beneficiados foram os mais próximos de Campos: os deputados federais Tadeu Alencar (PSB), que é sogro da filha de Eduardo, e Felipe Carreras (PSB), que, na época, era casado com uma sobrinha do socialista.

No segundo turno das eleições presidenciais de 2014, João Campos, ao lado da mãe, Renata Campos, apoiou o candidato Aécio Neves (PSDB).

Marília, que ainda não havia se filiado ao PT, preferiu ficar já no primeiro turno ao lado da petista Dilma Rousseff. Em Pernambuco, fez campanha para Armando Monteiro (PTB), adversário de Paulo Câmara (PSB).

Dois anos depois, já filiada ao PT, Marília se reelegeu vereadora do Recife. A disputa com o PSB pernambucano ficou ainda mais acirrada quando a sigla decidiu encampar o impeachment da ex-presidente Dilma.

Em 2018, após ser estimulada pelo ex-presidente Lula, sonhava em disputar o Governo de Pernambuco contra Paulo Câmara.

Foi até aonde poderia ir. Conseguiu o apoio do diretório estadual, mas uma intervenção nacional após costura entre PT e PSB, feita pelo próprio Lula para isolar a candidatura de Ciro Gomes (PDT) no plano nacional, a retirou da disputa.

Neste ano, Marília enfrentou novamente adversários dentro do partido. Uma ala do PT, capitaneada pela senador Humberto Costa, maior liderança petista no estado, queria a aliança com o PSB.

O senador se manteve afastado da campanha neste primeiro turno. Mas, nos bastidores, as informações apontam que a ofensiva de João Campos contra o PT poderá finalmente unir o partido em torno da candidatura de Marília.

As informações são da FolhaPress




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