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Política & Poder

Os caminhos do hacker

Hacker diz que os conteúdos das conversas não foi editado e afirma que só divulgou os conteúdos das conversas por ter encontrado atos ilícitos

Publicado

em

Aline Rocha
redacao@grupojbr.com

Durante depoimento à Polícia Federal, Walter Delgatti relata o caminho percorrido para hackear grande parte da República. Mesmo declarando que não é nenhum expert em informática, chama atenção a astúcia de Walter em quebrar o código de um dos mais utilizados aplicativos de mensagens, Telegram.

Tudo começa em março de 2019, quando teve acesso ao seu correio de voz por meio do aplicativo BR Voz, ligando para seu próprio número. Nesse momento, descobriu que conseguiria acesso a qualquer outra conta somente com o número do celular da pessoa em mãos.

A primeira pessoa a ter o telefone acessado foi o do promotor Marcelo Zanin, onde achou conversas com irregularidades mas, com receio de temer ser vinculado ao ataque, preferiu não divulgar o conteúdo. A partir do telefone do promotor, conseguiu acesso ao grupo “Valoriza MPF”, por onde começou o caminho para chegar no ministro de Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro.

No grupo “Valoriza MPF”, Delgatti conseguiu o telefone de José Robalinho e por meio da agenda de contatos, entrou nos telefones de, nessa ordem: José Robalinho → Kim Kataguiri → Alexandre de Moraes → Rodrigo Janot → membros da Força-Tarefa da Lava Jato no Paraná → Deltan Dallagnol → Sérgio Moro.

O hacker afirma que os conteúdos das conversas não foi editado e acredita que a edição não é possível de ser feita. Afirma também que só divulgou os conteúdos das conversas por ter encontrado atos ilícitos. O acesso às linhas de telefone foram feitas entre março e maio de 2019.

Delgatti diz que, para chegar em Glenn Greenwald, percorreu um caminho de três pessoas diferentes, na seguinte ordem: Pezão → Dilma Rousseff → Manuela D’Ávila → Glenn Greenwald. Ele chegou a acessar o telefone do ex-Presidente Lula mas só conseguiu acesso à agenda telefônica do político. De acordo com ele, entrou em contato com Manuela D’Ávila para solicitar o telefone do jornalista do The Intercept Brasil e, como Manuela não acreditou que ele teria o conteúdo das mensagens, ficou receosa em passar o telefone.

Para convencer Manuela, Delgatti encaminhou uma mensagem de voz capturada no grupo “Valoriza MPF”. O plano funcionou e o próprio Glenn Greenwald entrou em contato com o hacker, sem saber de quem se tratava, solicitando os arquivos que, de acordo com ele, eram de interesse público.

Para encaminhar os arquivos para Greenwald, Delgatti utilizou uma conta no Dropbox e passou para o jornalista a senha. O hacker afirma que nunca recebeu valor algum e que o material foi coletado, exclusivamente, pelo aplicativo Telegram.

Os outros investigados pela PF são amigos de infância de Delgatti, mas ele diz não saber de envolvimento de nenhum deles no vazamento das mensagens. Delgatti diz não ter criptomoedas, bitcoins e não possui renda mensal fixa, já que não exerce atividade remunerada fixa. Ele não soube, entretanto, explicar como conseguiu os recursos que passaram por sua conta bancária.

Em nota, Manuela D’Avila confirmou que foi ela quem passou os dados de Glenn para o hacker com quem conversou, e se colocou a disposição da Justiça para esclarecer todas as dúvidas quanto ao caso. Manuela já orientou seus advogados a apresentar todas as mensagens trocadas com o hacker.

Segue nota à imprensa de Manuela D’Avila:

Tomando ciência, pela imprensa, de alusões feitas ao meu nome na investigação de fatos divulgados pelo “The Intercept Brasil”, e por me encontrar no exterior em atividades programadas desde o início do corrente ano, esclareço que:

1. No dia 12 de maio, fui comunicada pelo aplicativo Telegram de que, naquele mesmo dia, meu dispositivo havia sido invadido no Estado da Virginia, Estados Unidos. Minutos depois, pelo mesmo aplicativo, recebi mensagem de pessoa que, inicialmente, se identificou como alguém inserido na minha lista de contatos para, a seguir, afirmar que não era quem eu supunha que fosse, mas que era alguém que tinha obtido provas de graves atos ilícitos praticados por autoridades brasileiras. Sem se identificar, mas dizendo morar no exterior, afirmou que queria divulgar o material por ele coletado para o bem do país, sem falar ou insinuar que pretendia receber pagamento ou vantagem de qualquer natureza.

2. Pela invasão do meu celular e pelas mensagens enviadas, imaginei que se tratasse de alguma armadilha montada por meus adversários políticos. Por isso, apesar de ser jornalista e por estar apta a produzir matérias com sigilo de fonte, repassei ao invasor do meu celular o contato do reconhecido e renomado jornalista investigativo Glenn Greenwald.

3. Desconheço, portanto, a identidade de quem invadiu meu celular, e desde já, me coloco a inteira disposição para auxiliar no esclarecimento dos fatos em apuração. Estou, por isso, orientando os meus advogados a procederem a imediata entrega das cópias das mensagens que recebi pelo aplicativo Telegram à Polícia Federal, bem como a formalmente informarem, a quem de direito, que estou à disposição para prestar quaisquer esclarecimentos sobre o ocorrido e para apresentar meu aparelho celular à exame pericial.


MANUELA D’AVILA


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