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Política & Poder

Entrevista: Ugo Braga; a monstruosa sombra do ciúme sobre a saúde do país

“Ciúme de homem político, que é o ciúme mais corrosivo e mais desgraçado que existe…”

Rudolfo Lago

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Na canção O ciúme, Caetano Veloso descreve o poder nocivo e corrosivo desse sentimento nas relações amorosas. Mas o ciúme pode corroer também relações profissionais. E, quando envolve poder e as estratégias necessárias para combater um grave problema de saúde pública, como a pandemia da covid-19, o sentimento torna-se nocivo para todo o país.

A forma como o ciúme “lançou sua flecha preta” sobre o Brasil é o tema do livro Guerra à Saúde, do jornalista Ugo Braga. Ele era o assessor de Comunicação do Ministério da Saúde. E acompanhou de perto como a estratégia guinou quando o ciúme começar a corroer Bolsonaro por dentro. É o que ele conta no livro e nesta entrevista:

No começo da pandemia, a estratégia adotada pelo Ministério da Saúde era muito elogiada. De repente, tudo isso desanda na disputa entre o presidente Bolsonaro e o ministro Mandetta. O que aconteceu?

O livro conta muitas histórias do lado de dentro do ministério, aquelas discussões acaloradas que acontecem antes de aquilo virar política pública. Esse determinado aspecto da realidade geralmente é escondido da sociedade. As pessoas não sabem.

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No caso da pandemia, eu achei relevante documentar isso em um livro. Primeiro, porque – vou bater na madeira aqui – é possível que outras pandemias venham a ocorrer no futuro. E acho importante que esteja documentado o que aconteceu nesta para que, numa necessidade futura, os gestores da crise não cometam os mesmos erros.
Mas, no caso específico da divergência entre Mandetta e Bolsonaro, o que se deu?

Se eu tivesse que resumir em uma palavra a treta entre Mandetta e Bolsonaro, eu vou arriscar – e isso eu deixo bem claro no livro – que foi o mais puro ciúme. Ciúme de homem político, que é o ciúme mais corrosivo e mais desgraçado que existe. Quando Mandetta começa a ser querido, a ser admirado pela sociedade, Bolsonaro vira um Bolsonaro raiz e sai atropelando toda a ciência, o bom senso e o conhecimento humano.

Então, não havia ali uma divergência de conceitos, de convicções?

Bolsonaro entende de saúde pública tanto quanto ele entende de balanço de pagamentos do Banco Central. Ele não recebeu do Ministério da Saúde, em nenhum momento, a informação de que se tratava de uma mera “gripezinha”, uma coisa sem importância que o governo não precisasse agir. Se em algum momento ele obteve essa informação, foi fora do Ministério, fora do governo dele mesmo. Há uma passagem do livro, em que o Mandetta participa de uma reunião ministerial, bota o dedo na direção do presidente e o critica por isso. “Olha, você ouve todo mundo, menos a sua equipe. E quem sabe tecnicamente das coisas é a sua equipe, é o Ministério”.

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Essas discussões acaloradas davam-se à frente de todo mundo?

Mandetta tem muito medo de ser infectado pelo vírus, porque ele foi fumante por 40 anos. A partir de um determinado momento, ele passou a não atender o telefone com o aparelho encostado, com medo da infecção por contato. Ele só botava o telefone no viva voz e falava. E algumas das conversas os assessores mais próximos ouviram. Eu, por exemplo, ouvi uma conversa dele com Bolsonaro.

Nessa conversa, Bolsonaro se mostra um presidente absolutamente claudicante, hesitante, sem informação, sem certeza.

Ficou a impressão de que se o país tivesse seguido na linha inicialmente adotada, nós talvez tivéssemos aqui uma situação modelo…

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O Brasil deu no início um salto à frente do mundo. Ninguém estava falando nisso ainda quando a vigilância de saúde brasileira conseguiu escutar um zum-zum-zum nas redes sociais chinesas. Uma ferramenta de captura conseguiu captar uma discussão de médicos chineses a respeito de uma pneumonia misteriosa e contagiosa. E é o Brasil que vai à Organização Mundial de Saúde (OMS) e pergunta sobre isso. A posteriori, a OMS admite. Então, o Brasil dá esse pontapé inicial e se prepara. O marco zero da nossa pandemia é de uma etapa muito forte de vigilância em saúde e de bloqueio. Na nossa fase zero, o Brasil foi eficientíssimo, a ponto de causar o que se chama de achatamento da curva. Depois, isso tudo foi jogado fora.

O ministro Mandetta também escreveu seu próprio livro. O que há de diferenças entre os dois?

Eu diria que o livro do ministro é uma biografia autorizada dele mesmo. E a primeira pessoa desse narrador é uma pessoa política. Então, tende a preservar algumas nuances que eu não precisei preservar porque eu sou jornalista. O meu é uma biografia não autorizada da crise. Então, aparecem lá as muitas virtudes do ministro Mandetta, mas também os muitos defeitos. Assim como os meus próprios defeitos aparecem lá também.

Quem acompanha o governo percebe muito claramente as disputas entre as alas, as disputas ideológicas. Como isso se dava nesse debate com relação à covid-19?
Esse debate nunca chegou ao nível técnico. A interface concreta entre essa ala e a crise foram os diversos ataques, com notícias falsas, que todos nós sofremos, inclusive eu, do esquema bolsonarista. As que foram feitas especificamente contra mim, o Bolsonaro quis criar como pretexto para demitir o Mandetta.

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Era uma coisa relacionada a contratos na área de comunicação, não é isso?

A contratos de publicidade. As agências de checagem rapidamente desmentiram, e a história correu naturalmente para o ralo, que ela merecia (de acordo com a denúncia, teriam sido renovados contratos de publicidade firmados no governo Dilma pela gestão de Mandetta. Os contratos, na verdade, foram renovados no governo Michel Temer, dentro do que é previsto em lei, registrada na Secretaria de Comunicação e publicada no Diário Oficial da União).

Serviço:

Guerra à Saúde
Ugo Braga

Editora Leia
R$ 49

Em pré-venda na www.casadosmundos.com.br. e na Amazon. O livro virtual estará disponível a partir de 28 de outubro, e o livro físico 10 de novembro.




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