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Política & Poder

Entrevista exclusiva: Major Olímpio: “autogolpe é bravata”

Senador hoje rompido com o presidente afirma que não há apoio nas Forças Armadas ou nas corporações da PM e bombeiros para qualquer eventual arroubo autoritário de Bolsonaro

Rudolfo Lago

Publicado

em

Foto: Agência Senado
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“Bolsonaro vai ficar falando sozinho”

O senador Major Olímpio (PSL-SP) não nega que a maior parte dos mais de 9 milhões de votos que obteve nas eleições de 2018 provavelmente foram ancorados no apoio do presidente Jair Bolsonaro. Mas, apesar disso, ele tem uma liderança forte junto à Polícia Militar e outras corpo rações, que são a sua base eleitoral. É baseado nessa liderança que ele, nesta entrevista exclusiva ao Jornal de Brasília, diz duvidar de qualquer tentativa de reação autoritária, de autogolpe por parte de Bolsonaro que tenha por base essas corporações ou mesmo parte das Forças Armadas.

Rompido agora com o presidente, desde o episódio em que Bolsonaro resolveu deixar o PSL para fundar um novo partido, Major Olímpio se declara “absolutamente” decepcionado com o presidente. Para ele, o único propósito de Bolsonaro parece ser “proteger o filho bandido”, o que o leva a uma condução de confronto crônico com os demais poderes. Para Olímpio, porém, sem condições de algo além de um clima de crise permanente.

O senhor disse esta semana nas suas redes sociais que não irá mais disputar eleições. Usando as suas palavras, disse que iria “pendurar as chuteiras”. O que provocou no senhor essa desilusão?

Eu estou decepcionado demais, para não dizer enojado, com a política como um todo. O fato crucial foi ter sido duramente criticado aqui em São Paulo por irmãos policiais miltares, que querem que eu tenha uma obediência canina, uma obediência cega ao Jair Bolsonaro. O afastamento de ordem pessoal do Bolsonaro comigo se desencadeou no momento em que eu era signatário da CPI Lava Toga para apurar condutas do Supremo. O filho dele senador pressionando para eu retirar a assinatura. E depois diretamente o presidente comigo fazendo a mesma pressão para que não desse andamento. E justamente num acordo dele já para proteger filho. Aquilo já me desiludiu muito. E, a partir disso, uma série de condutas que não são condizentes com o que nós passamos para o povo na campanha. Lógico, Bolsonaro diz: “O Olímpio só se elegeu senador por minha causa”. Possivelmente seja verdade. Só que nós saímos nas ruas juntos. E dizendo às pessoas: “Nós queremos mudar o Brasil. Nós queremos tirar a esquerda”. E tirou. Mas nós dissemos também que íamos combater de forma intransigente a corrupção. Que não teria acordo. Que a lei seria para todos. Que no nosso governo não iria ter toma lá dá cá. Todos sabem que eu sempre sonhei com a oportunidade de disputar o governo de São Paulo. Mas eu me desiludi com isso. Ser atacado até mesmo pelos meus, a minha origem foi uma coisa muito dura. Mesmo sabendo que é um ataque premeditado. Mesmo sabendo que é orquestrado pelos mesmos criminosos que estão sendo acusados de formularem fake news.

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O senhor é vítima desse mesmo grupo?

A quadrilha age em todo o Brasil. Aqui em São Paulo não é diferente. É entristecedor. Eu vou cumprir o mandato de senador. Vou honrar o mandato. Vou cumprir com dignidade. Eu tenho muita obrigação com a população de São Paulo. E, por consequência, com a população brasileira. Com os servidores públicos, que é a minha origem, em especial os da segurança pública. Hoje mesmo (sexta-feira, 28), na madrugada, o presidente teve mais um gesto contrário aos servidores, principalmente os da saúde e da educação, que estão diretamente no enfrentamento da pandemia.

Nos vetos que ele fez na lei de ajuda aos estados, ele fez além de congelar salários. Nem precisava dizer que vai congelar salários, porque nenhum estado ou município vai ter um centavo para dar de reajuste. Mas ele ainda pôs uma perversidade, que é impedir a contagem de tempo de serviço para efeito de anuênio, tiênio, quinquênio, sexta parte, contagem de tempo para aposentadoria. No mundo todo, quem está em uma guerra é premiado. Aqui no Brasil, quem está na guerra da pandemia o presidente literalmente, como ele gosta de dizer, cravou a faca no peito. Eu vou lutar para derrubar esse veto no Congresso. Vou ser chamado de traíra pelos bolsonaristas mais uma vez. Mas não é traição. Traição, deslealdade, é você se desviar da lei, se desviar dos princípios, se desviar dos compromissos que colocou na campanha.

Como o senhor se define hoje com relação ao governo?

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Eu hoje me posiciono de forma independente. Eu quero dizer para vocês: não foi o PSL que abandonou o Bolsonaro. Bolsonaro, impregnado por advogados inescrupulosos e pelos filhos, na ganância de poder, na ganância de ter a administração de fundos eleitorais vultosos a que têm direito o partido. Literalmente, não foi (Luciano) Bivar (presidente do PSL) e PSL que quiseram dar um golpe em Bolsonaro. Foi ao contrário. Os grupos ligados a Bolsonaro é que quiseram dar esse golpe na administração do partido. Eu sou absolutamente independente. O PSL é independente hoje. Nós não compomos bloco. O PSL não virou Centrão. O PSL não está negociando cargos.

Quem está negociando cargos? Veja bem o perfil de quem está negociando cargos com o governo do presidente Bolsonaro. Alguns condenados lá atrás do mensalão, figuras públicas de quem a opinião pública e a Justiça já têm uma avaliação de quem são.

O senhor disse também que o presidente “protege filho bandido”. O senhor está convencido disso, de que o filho do presidente é bandido?

Eu não tenho dúvida. Em conversa direta comigo o presidente falou sobre isso. Ele vai dizer que não lembra. No dia 15 de agosto, dentro do alojamento dele, dentro do palácio do governo. E ele me prevenindo: “Se me perguntarem amanhã, eu vou dizer que essa conversa não existiu”. E depois, pelo telefone. Eu estava discutindo com o filho dele, ele tomou o telefone do filho e passou a me execrar. Logicamente, eu também não sou tão educado assim, passei a responder na medida do que ele merecia. Exatamente para proteção, sim, do filho.

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Mas o que exatamente ele disse?

Ele disse claramente:

“Nós estamos conversando de questões aqui, porque somos só nós dois. Se amanhã me questionarem, eu vou dizer que essa conversa não existiu”. Eu sei como funciona a coisa. Eu ainda vou ter a oportunidade de detalhar tudo isso. Mas será olho no olho. Será de homem para homem fazer ele dizer: “Nega”. Para mim, ladrão é ladrão. Não tem ladrão de direita, não tem ladrão de centro, não tem ladrão de esquerda.

O senhor se arrepende de ter ajudado a eleger o presidente Bolsonaro?

Não me arrependo, não. Era necessário retirar a esquerda e todas as mazelas produzidas por esses governos nesse período do PT. Esse aparelhamento do país. Essa roubalheira desenfreada. Eu não me arrependo. Eu só gostaria que todos nós tivéssemos mantido os nossos compromissos originais.

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O Brasil estaria muito melhor neste momento. Nós não estaríamos disseminando o ódio entre as pessoas. Nós não estaríamos tentando destruir as instituições. Nós não estaríamos fazendo com que o povo questione a estrutura democrática do país. Eu estou extremamente decepcionado com os rumos, com as condutas, com a subserviência, com a prostração de alguns ministros que cercam o presidente, uns babões de ocasião, uns bajuladores contumazes, que sabem que o presidente não gosta de ser contrariado e ficam até estimulando o presidente a ter ações cada vez mais agressivas em relação a tudo e a todos. Não é esse o perfil do governo que eu imaginei que teria.

Com relação às denúncias que foram feitas pelo ex-ministro Sergio Moro ao sair do governo, de tentativa de interferência na Polícia Federal, como o senhor avalia?

Eu nunca fico em cima do muro. Mas eu vou explicar porque vou me permitir não ter um juízo final de valor. Isso hoje é objeto de um inquérito. Porque eu vou me permitir não fazer um juízo de valor? Porque, dependendo do resultado desse inquérito, poderá ser proposto um pedido de impeachment do presidente da República. Se o Senado for processar, aí eu passo a ser juiz. Então, eu não tenho o direito neste momento, nem nenhum senador, de prejulgar, sob pena de ter o seu voto viciado lá na frente.

Agora, o presidente tinha um ciúme desgraçado da visibilidade e da credibilidade do Sergio Moro com a população. Isso é claro! Talvez a motivação final ou a encrenca em função da substituição de quadros da Polícia Federal esteja na Lei Tim Maia: “Me dê motivos”.

O presidente fica o tempo todo enxergando os fantasmas que ele talvez tenha que enfrentar em 2022. Ele fica permanentemente fustigando, já tentando nocautear, fazendo de tudo para que o adversário não entre no ringue. Com relação ao Sergio Moro, foi isso o que acabou acontecendo.

Em uma conversa ontem, outro filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro disse que já não se discute “se” haverá uma fissura entre os poderes, mas “quando” haverá essa fissura. O senhor acha que o país corre um risco de ruptura democrática?

Eu não vejo que haja riscos dessa natureza. Até porque as nossas instituições são sólidas. As Forças Armadas compreendem o seu papel constitucional. Se o presidente tomasse a iniciativa de tentar um autogolpe, ia ficar falando sozinho, como Jânio Quadros ficou falando sozinho.

O senhor está convicto disso?

Eu tenho convicção disso. Do papel das Forças Armadas, da responsabilidade. Isso é o Eduardo. É o filho bobão que fica repetindo em casa: “Ahnn, papai falou que basta um jipe com dois soldados e a gente fecha o Congresso”. Que é isso? Ora, vamos ser menos ridículos! Quando eu queria apurar a conduta do Supremo, o presidente veio para me marretar, rompeu comigo por causa disso. Por que naquele momento era inconveniente e agora se tem que subjugar o Supremo Tribunal Federal? O que é que mudou? Quando é para os meus, quando é para minha conveniência, está tudo certo. Eu não encontro, eu não vejo essa legitimidade. Logicamente, o presidente ainda é bastante popular.

Ele tem aí 30% da população brasileira que o segue nessa lealdade canina. Agora, imaginar que há essa liderança para a sublevação da ordem, para a insurgência contra os poderes constituídos, AI-5 ou qualquer número de ato institucional que não tem mais pertinência constitucional, não vejo a menor possibilidade.

Acho mais um bravateamento de manifestações a partir de manifestações do presidente. “Ah, vou nomear o (Alexandre) Ramagem de novo (para a diretoria da Polícia Federal)”. E vai ser derrubado de novo!

Mas não lhe preocupam coisas como esse Acampamento dos 300, com gente armada, as questões relacionadas às corporações militares – como a sua mesmo, o senhor disse que fica pessionado? Às vezes, parece que o presidente Bolsonaro aposta em algum tipo de apoio vindo justamente de parte do segmento militar, de parte da corporação da polícia, somado a esses grupos radicais…

Em primeiro lugar, as instituições militares, sejam as federais ou as dos estados, sejam policiais e bombeiros, não têm essa disposições. Quando eu entrei na Academia de Polícia Militar, em 16 de fevereiro de 1978, há mais de 42 anos, no primeiro dia me ensinaram:

“O seu quepe tem uma aba que é para você enxergar daqui para baixo. Não chove para cima. Não tem essa de sublevação da ordem. Quem tentou fazer um discurso desse na Central do Brasil também foi botado para correr. Não tem eco isso.

Como o senhor vislumbra, então, o desfecho de tudo isso?

Não corre o menor risco de melhorar. A tendência será sempre essa luta, esse posicionamento belicoso. Se fala em harmonia em um momento, depois já se restabelece a guerra. A maioria das crises no governo foram criadas pelo presidente. O seu Jair Bolsonaro é quem mais dá trabalho para o governo Bolsonaro. Isso não vai parar. É da natureza do presidente. E os seguidores dele adoram. Quando teve a difusão do conteúdo da reunião ministerial, as redes sociais, os seguidores do presidente saíram dizendo: “Coisa do mito”. “Tremenda mitagem”. Xingar e falar palavrão é a coisa do mito. Então, encontra eco, encontra seguidores. O presidente se dirige permanentemente a essa massa que ainda é bastante significativa de apoiadores. O fim será no dia em que houver o fim do mandato. Ou o fim desse mandato. Caso se reeleja, até o fim do dia do segundo mandato. Ou em um processo de impedimento. Não vai ter mar de almirante ou céu de brigadeiro. Porque não é da natureza do presidente buscar consensos, buscar harmonias. Ele infelizmente vive da conflagração.


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