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Política & Poder

Entenda como indisposição com China pode agravar crise

Como medida preventiva, ainda na segunda-feira (06/04), a China divulgou que iria começar a importar soja dos Estados Unidos

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Antes, relação era amistosa. Presidente Bolsonaro recebeu embaixador da China, Yank Wanming em 2019. Foto: Alan Santos/PR
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Samara Schwingel
Jornal de Brasília/Agência UniCEUB

Grande parte das exportações brasileiras são direcionadas à China. Só em 2019, o comércio bilateral movimentou US$ 98 bilhões, segundo o Ministério das Relações Exteriores. Por isso, especialistas advertem que uma crise entre os países pode afetar negativamente a economia, principalmente a do Brasil. Mesmo assim, alguns membros do atual governo seguem atacando a China e causando um mal-estar entre as nações.

Depois que o deputado federal, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), culpou a China pela crise do coronavírus e causou indisposição entre o governo brasileiro e o do país asiático, foi a vez do ministro da Educação atacar o principal parceiro comercial do Brasil. Na conta oficial do Twitter, Abraham Weintraub utilizou um gibi da Turma da Mônica para ridicularizar os chineses e insinuar que eles irão sair “fortalecidos” da crise causada pela Covid-19.

“Geopolíticamente, quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial? PodeLia seL o Cebolinha? Quem são os aliados no BLasil do plano infalível do Cebolinha paLa dominaL o mundo? SeLia o Cascão ou há mais amiguinhos?”, postou o ministro.

A publicação foi considerada racista e a embaixada chinesa no Brasil se manifestou. Em nota divulgada na segunda-feira (06/04), o embaixador Yang Wanming pede uma retratação do ministro. “A maior urgência neste momento é unir todos os países numa proativa organização internacional para acabar com a pandemia”, escreveu a embaixada. “Instamos que alguns indivíduos do Brasil corrijam imediatamente os seus erros cometidos e parem com acusações infundadas contra a China”, continua o texto.

O professor de relações internacionais Marcelo Valle considera que, desde o início do mandato de Jair Bolsonaro, o governo adota uma postura de distanciamento em relação à China. Os repetidos ataques ao país asiático seguem essa linha de pensamento. “As declarações não são baseadas em fatos nem em dados, mas podem gerar uma retaliação comercial por parte da China”, diz.

Segundo o professor, é esperado que o governo se desculpe formalmente pelos ataques, pois uma indisposição com a China pode ser prejudicial para a economia brasileira. Além disso, ele reforça a necessidade de se utilizar os meios oficiais para o pronunciamento. “Não se pode tratar questões diplomáticas como se estivesse sentado em uma mesa de bar com amigos. O presidente precisa se pronunciar por meio de um documento oficial”, afirma.

Impactos econômicos

Como medida preventiva, ainda na segunda-feira (06/04), a China divulgou que iria começar a importar soja dos Estados Unidos. Segundo José Luís Oreiro, economista, o aviso foi necessário para alertar o Brasil. “A embaixada elevou o tom  para que o Brasil recue e foi uma ação sensata. Agora, é necessário uma retratação brasileira, pois uma retaliação econômica só agravaria a crise pela qual estamos passando”, diz.

José Oureiro explica que a redução das exportações no agronegócio, por exemplo, aprofundaria o desemprego no Brasil. Para ele, os setores precisam evitar que a tensão entre os países aumente. “Agora, é necessário pressionar o presidente, publicamente, e afirmar que não é de interesse do Brasil criar desavenças com o principal parceiro comercial do país”, confirma.

Riezo Silva, economista, considera que outros setores prejudicados por um rompimento seriam carne, minério de ferro e petróleo. “Ano passado as exportações de petróleo para a China renderam US$ 15 bilhões, seguido por minério de ferro (US$ 13 bi) e carne (US$ 2,68 bi)”, diz. Ele explica que, se esses valores deixarem de entrar na economia brasileira, a reserva cambial sentirá o impacto. “ A entrada de dólares é muito importante e, se ela deixar de acontecer, o valor da moeda americana pode bater mais recordes do que os vistos até então”, afirma.

Bloqueio comercial

Depois dos dois episódios, a base bolsonarista usou as redes sociais para defender um bloqueio comercial à China, sendo que o país é o principal fornecedor de equipamentos e medicamentos necessários ao combate da Covid-19. A hashtag #BloqueioComercialChinesJa ficou entre as mais comentadas do Twitter no  Brasil na tarde de segunda-feira (06/04).

José Luís acredita que um bloqueio não condiz com a realidade. “Nossa indústria ficará desabastecida, mas os chineses podem vender para outros países. Então, nessa briga, o Brasil é uma formiguinha comparado com a China. Nossa capacidade de prejudicar a China é zero”, explica. Os especialistas reforçam que grande parte do superávit comercial do Brasil é resultado das negociações com os chineses. “Interromper as relações seria um enorme tiro no pé, ainda mais em um momento de déficit fiscal no qual o país busca maneiras de custear o combate ao coronavírus”, alerta o professor Marcelo Valle.

O ministro da Educação, Abraham Weintraub chegou a se desculpar. Em entrevista ao apresentador José Luiz Datena, Weintraub afirmou que retirou o post a pedidos de terceiros. “Eu sou brasileiro, eu peço desculpas, falo ‘por favor, me perdoem pela imbecilidade’. A única condição é que vendam mil respiradores para o Ministério da Educação pelo preço de custo”, disse.

 


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