PEDRO S. TEIXEIRA
FOLHAPRESS
Detalhes de uma peça central na disputa tecnológica entre Estados Unidos e China vieram a público nesta segunda-feira (27). A startup chinesa Moonshot AI disponibilizou o relatório técnico sobre o modelo Kimi K3 e abriu os canais para download do produto.
Os primeiros testes independentes do modelo chinês mostram que os resultados anunciados pela Moonshot, que colocavam o Kimi K3 no mesmo nível das versões mais recentes de ChatGPT e Claude, eram um pouco exagerados. Ainda assim, a nova IA supera resultados do Google e pode ser usada com metade do investimento necessário para acionar pares americanos.
O Kimi K3 foi anunciado em uma feira global realizada em Xangai no último dia 17, mesmo dia em que o líder chinês Xi Jinping se manifestou contra o domínio da tecnologia por um único país e contra as restrições impostas à tecnologia chinesa.
“Devemos nos opor conjuntamente à interpretação excessiva do conceito de segurança nacional no âmbito da IA e à posição da segurança de um país acima da dos demais”, afirmou.
Na versão original, o Kimi K3 se destaca pela capacidade de trabalhar com longas janelas de contexto e por desempenho em programação, em linha com os anúncios mais recentes da OpenAI e da Anthropic na direção de uma IA mais autônoma.
“As novas arquiteturas conseguem trabalhar com milhões de palavras por longas horas de duração, suportando comportamentos agênticos”, diz Rodrigo Nogueira, doutor em inteligência artificial pela New York University e fundador da Maritaca AI, empresa brasileira focada no desenvolvimento de grandes modelos de linguagem.
Com a divulgação da versão pública, qualquer pessoa ou empresa interessada pode baixar a IA chinesa que rivaliza com a mais avançada tecnologia das americanas OpenAI e Anthropic. Porém, para dar partida ao grande modelo de linguagem da Moonshot AI, ainda é necessária uma rede de supercomputadores acessíveis apenas a grandes corporações ou laboratórios de pesquisa.
Técnicos apontam requisitos mínimos de 480 GB (gigabytes) de memória (um computador normal tem cerca de 8 GB) e oito chips H100 da Nvidia –cada um vendido a US$ 30 mil (R$ 153 mil). Essa configuração rodaria uma versão reduzida com menor qualidade.
Para uma empresa acionar o Kimi K3 em uma nuvem independente das big techs e isolada de outras empresas, o custo seria de cerca de R$ 500 mil, estima o fundador da Maritaca AI.
“E sai mais barato do que recorrer a um modelo de OpenAI ou Anthropic na nuvem”, diz Nogueira. “Por causa da concorrência, empresas novas no mercado, como Together.AI e DeepInfra, frequentemente usadas para armazenar esses modelos chineses, operam com margens bem menores”, acrescenta.
Os preços devem cair menos do que o esperado, por causa da licença do Kimi K3. A empresa chinesa obriga que os provedores de nuvem cobrem no mínimo o mesmo valor pedido na plataforma da Moonshot AI.
Apesar da barreira técnica, mais de 2.800 pessoas já baixaram a tecnologia desde as 14h, em um sinal da expectativa gerada entre os pesquisadores de IA.
Brasileiros interessados no desenvolvimento de inteligência artificial avaliam que a disponibilidade do novo modelo de IA cria uma nova janela de oportunidade para as empresas brasileiras criarem aplicações personalizadas, uma vez que os modelos de ponta americanos não podem ser editados.
Nogueira, por exemplo, diz que o Kimi K3 serve para treinar os modelos da Maritaca AI, gerar novos dados de treino e melhorar as análises sobre o mercado de IA disponíveis para a sua companhia. Outras empresas, diz ele, ainda podem editar o modelo da Moonshot a fim de construir soluções próprias.
Para o professor de ciência da computação do Insper, Rodolfo Avelino, o Brasil pode usar as IAs abertas da China, como DeepSeek e Moonshot, a fim de diversificar parcerias e investir em inovação própria.
“O país deve buscar autonomia e reduzir a dependência tecnológica, especialmente da infraestrutura e dos serviços americanos dos quais já dependemos”, diz Avelino.
Segundo Nogueira, da Maritaca AI, as empresas brasileiras já iniciaram uma migração para a nuvem durante a pandemia e recorrem menos a data centers próprios. “Aqui, os grandes provedores [Microsoft, Amazon, Google e Huawei] reportam números altos e vemos poucas pessoas com máquinas locais.”
É um cenário diferente, por exemplo, do Oriente Médio, de acordo com Renato Leite Monteiro, diretor de IA do think tank brasileiro Reglab e vice-presidente de IA e inovação da e&, empresa dos Emirados Árabes Unidos de telecomunicações.
“Nos Emirados Árabes, os sistemas têm que funcionar localmente, como uma estratégia para não ficar dependente de organizações ou governos que podem mudar de opinião e interromper os serviços.”
A publicação do Kimi K3 também gerou preocupações no setor de cibersegurança, uma vez que o modelo pode ser usado para encontrar brechas em sistemas de governos e empresas. Por outro lado, empresas de segurança também podem usar a mesma tecnologia para fortalecer as defesas de países e corporações, indicou carta aberta assinada pelas principais empresas de tecnologia.
Modelo chinês fica abaixo de ChatGPT e Claude, mas pode ajudar tecnologia brasileira
Tecnologia aberta da Moonshot pode impulsionar empresas brasileiras e reduzir a dependência de modelos americanos
Foto: Bloomberg / Getty Images