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Saúde

Vacinação contra HPV avança na América Latina, mas câncer cervical persiste

Estudo na The Lancet destaca cobertura vacinal desigual e rastreamento ineficiente em 35 países da região, com o Brasil se aproximando das metas da OMS.

Redação Jornal de Brasília

24/03/2026 19h25

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A vacinação contra o HPV avança na América Latina, mas mortes por câncer de colo do útero continuam a preocupar devido à cobertura desigual e rastreamento ineficiente. Um estudo publicado em fevereiro na revista The Lancet analisou dados de 35 países e territórios da América Latina e do Caribe, revelando que os índices de vacinação estão abaixo da meta global de 90% para meninas até 15 anos estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

O HPV é o vírus responsável pela infecção sexualmente transmissível mais comum no mundo, afetando pele e mucosas, e é a principal causa do câncer de colo do útero, uma doença considerada altamente prevenível. Na América Latina, a cobertura vacinal varia de 45% a 97%, enquanto no Caribe vai de 2% a 82%. Apenas a Venezuela ainda não introduziu a vacinação contra o HPV na região.

No Brasil, a cobertura alcançou 82,83% entre meninas e 67,26% entre meninos de 9 a 14 anos em 2024. Para 2025, o Ministério da Saúde intensificou a campanha, adotando a dose única e ampliando o público-alvo para jovens de 15 a 19 anos não vacinados. A imunização foi incluída no Calendário Nacional de Vacinação em 2014 e é oferecida gratuitamente. Especialistas acreditam que o país se aproxima da meta de 90% de meninas vacinadas até os 15 anos, proposta pela OMS para a eliminação do câncer cervical.

A vacinação de meninos também é enfatizada, pois protege contra cânceres de ânus, pênis, garganta e pescoço, além de verrugas genitais causados pelo HPV.

Apesar dos avanços na vacinação, o principal obstáculo é o modelo de rastreamento oportunístico adotado na maioria dos 35 países analisados. Nesse sistema, o exame é realizado apenas quando a mulher procura serviços de saúde por outros motivos ou solicita o procedimento, o que é menos eficiente que o rastreamento organizado, de base populacional, com convocação ativa e acompanhamento integrado.

De acordo com Flavia Miranda Corrêa, consultora médica da Fundação do Câncer, esse formato contribui para diagnósticos tardios e maior mortalidade. O rastreamento organizado visa mulheres de 25 a 64 anos, com busca ativa de não comparecentes e sistemas integrados para diagnóstico e tratamento. A médica reforça que não basta rastrear; é essencial garantir o seguimento até o tratamento.

No Brasil, avanços incluem a implementação do teste molecular de DNA-HPV, que está substituindo gradualmente o exame Papanicolau. Esse teste já é usado em países como Argentina, Chile e México. Em janeiro, a Fundação do Câncer atualizou o Guia Prático de Prevenção do Câncer do Colo do Útero, orientando essa transição. O atendimento é estruturado em níveis: primário para rastreamento, secundário para investigação e terciário para tratamento, com necessidade de interoperabilidade entre sistemas para evitar perdas no acompanhamento.

Lesões precursoras do câncer podem levar de 10 a 20 anos para evoluir, ampliando a janela para diagnóstico precoce com alta taxa de sucesso. Sintomas incluem sangramentos fora do período menstrual, após relações sexuais ou na pós-menopausa, corrimento persistente, e em estágios avançados, alterações urinárias ou intestinais.

O diretor executivo da Fundação do Câncer, Luiz Augusto Maltoni, defende a adoção de programas organizados de rastreamento, como os que reduziram a doença em países como Austrália, Canadá, Escócia e Dinamarca. O estudo da The Lancet enfatiza a integração entre vacinação, rastreamento e tratamento para alcançar as metas globais da OMS: 90% de meninas vacinadas, 70% de mulheres rastreadas e 90% dos casos tratados, o que pode reduzir a incidência do câncer de colo do útero a níveis residuais nas próximas décadas.

Em 26 de março, celebra-se o Dia de Conscientização do Câncer de Colo do Útero.

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