Por João Roberto Delattre
O atraso no diagnóstico de autismo priva crianças e adolescentes de oportunidades, segundo avaliam pesquisadores especializados no tema. Nesta quinta (2 de abril), dia de conscientização sobre o autismo, profissionais defendem que é necessário combater estigmas e preconceitos, além de promover a maior difusão sobre essa área.
A pesquisadora Luciana Brites, que estuda o neurodesenvolvimento infantil, afirma que o Transtorno de Espectro Autista (TEA) apresenta muitas variações. “Isso torna a análise mais complexa, porém o diagnóstico tardio não é inevitável”, afirmou.
Estudiosos no tema explicam que parte da desinformação nasce da fragmentação dos sistemas de saúde e educação pois as consultas com os diversos profissionais envolvidos no processo não são integradas. Esse pode ser um obstáculo real para o desenvolvimento da criança, acesso a direitos e para a qualidade de vida das famílias.
“No Brasil, uma criança autista, ela pode levar em média de 2 a 4 anos entre os primeiros sinais e o diagnóstico confirmado”, diz Luciana Brites
Sem um laudo formal, por exemplo, benefícios como passe livre, BPC e adaptações escolares não ficam disponíveis. a vida fica em pausa, os pais e responsáveis acumulam desgaste emocional, financeiro e logístico, ao tempo em que a criança não recebe o suporte necessário e cresce sem acesso a estímulos adequados.
Família
Ao se deparar com o diagnóstico, os pais passam por um luto do filho idealizado, enfrentam emoções intensas e mudanças na dinâmica familiar. O momento é difícil, mas também traz alívio por finalmente dar nome ao que percebem.
Uma comunicação adequada favorece a aceitação e incentiva a busca por estimulação e intervenções precoces, fundamentais para o progresso da criança.
Famílias de crianças com autismo enfrentam altos níveis de estresse e precisam de apoio. Há maior incidência de problemas psiquiátricos, separações e sofrimento emocional entre os familiares. Por isso, é essencial cuidar de quem cuida, oferecendo suporte contínuo à família.

A ABRACI, presidida por Lucinete Andrade é uma instituição aberta ao atendimento para pessoas autistas
A conselheira tutelar Lucinete Ferreira de Andrade, é mãe da Mayara, uma jovem autista nível 3 de suporte. Ela enfatiza que, por ser uma deficiência não aparente, muitas pessoas julgam o comportamento da criança como “falta de limite” ou confundem autismo com superdotação. Isso coloca sobre a família a responsabilidade de educar os ambientes sociais e escolares sobre o transtorno
“Junto com essa questão da deficiência não visível, vem a situação de enfrentar uma sociedade discriminatória, que julga essa maternidade, que diz que essa criança é criada com falta de limite”, comenta Lucinete
Escola
A alfabetização de alunos com TEA exige mais qualidade, evidências científicas e conhecimento profundo do transtorno. O espectro confere características diferentes a cada aluno como deficiência intelectual, ausência de linguagem verbal e outros transtornos associados que demandam abordagens específicas.
Segundo especialistas, professores precisam de formação muito mais qualificada e de programas altamente estruturados para que a alfabetização aconteça. Muitas vezes são necessários materiais adaptados, apoio adicional e metodologias bem planejadas. Sem esses recursos, a inclusão se torna apenas “decorativa”. A criança está fisicamente na sala, mas não aprende de fato, participa apenas de forma simbólica, sem avanço real na escolarização.
As escolas não estão preparadas para inclusão, existem leis, mas elas não garantem formação adequada, turmas menores ou profissionais de apoio qualificados, a inclusão só funciona quando os professores têm acesso a formação contínua, fundamentada em neurociência e em métodos comprovados. Não basta um curso curto, é um processo permanente. Segundo a pesquisadora, um professor sozinho não consegue fazer inclusão, é necessária uma rede intersetorial envolvendo família, saúde, assistência social e outros profissionais que acompanhem a criança.
Diagnóstico tardio
A psicóloga Ellen Moraes, especialista no tema, ressalta que a pessoa diagnosticada na fase adulta passa por uma ambivalência emocional. Pode sentir uma mistura de alívio e revolta ao receber o diagnóstico e percebe que passou a vida inteira sem nomear aquilo que sentia.
“A pessoa cresce sentindo que tem algo de errado, sem ter um nome, sem ter um significado, uma explicação”, afirma Ellen
Sem uma explicação formal, a pessoa tende a acreditar que ela é o problema, que não se esforça o suficiente, que não tenta o bastante, carrega sozinha a responsabilidade por suas dificuldades, além disso alimenta uma revolta direcionada aos cuidadores e ao ambiente, pois a pessoa cresce sentindo que “há algo errado”, enquanto ninguém percebe ou investiga, reforçando a sensação de inadequação.
Na prática eles crescem enfrentando ambientes que não estão preparados para suas necessidades, passam pela infância e adolescência sem adaptações, sem apoio e tendo que mascarar comportamentos para tentar se encaixar no que a sociedade espera. Esse esforço constante gera um acúmulo de desgaste emocional que acompanha a pessoa até a vida adulta.
Sem intervenção precoce, o indivíduo chega à fase adulta já adoecido, carregando marcas de anos tentando funcionar em espaços que nunca foram acessíveis para ele. As dificuldades do dia a dia, como autocuidado, alimentação seletiva e organização da rotina, permanecem sem orientação adequada. Além disso, a falta de suporte inicial aumenta a pressão para corresponder a padrões neurotípicos, o que intensifica o sofrimento.
Ofensas
A assistente social Anna Rebeca Ekroth, de 50 anos, foi diagnosticada com TEA apenas aos 47 anos de idade. Ele conta que sempre ouve frases como “todo mundo é um pouco autista”.
Para ela são afirmações ofensivas e reforçam capacitismo, explica que autismo não é “um pouco disso ou daquilo”, mas uma condição real, com desafios sensoriais e sociais específicos.
Ela Lembra que, no passado, autistas eram escondidos, internados e excluídos, hoje existe mais diagnóstico e visibilidade, mas ainda precisa avançar no respeito, conscientização e o fim do capacitismo.
“Autistas têm direitos, capacidades e autonomia como qualquer outra pessoa”, diz Anna
A inteligência não define o autismo. Pessoas nessa condição não são necessariamente superinteligentes nem abaixo da média. As especialistas explicam que o transtorno não determina o nível intelectual ou habilidades específicas comuns. Há pessoas autistas que desenvolvem talentos muito focados, como mapas, desenho ou atividades que exigem atenção a detalhes e introspecção.
As especialistas acrescentam que a inclusão de crianças com TEA depende de uma articulação que vai muito além da escola. é indispensável contar com políticas públicas integradas, envolvendo saúde, assistência social e educação, para que o processo seja efetivo. A escola é um espaço importante, mas não pode carregar sozinha a responsabilidade pela inclusão, apontam as pesquisadoras
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira