Há mais de um ano do início da pandemia da covid-19, os efeitos colaterais da doença ainda estão sendo estudados. O novo coronavírus apresenta mutações e comportamentos variados, por isso, além dos sintomas mais conhecidos – febre, dor no corpo, tosse seca e cansaço – outros têm surgido, como perda auditiva. As complicações do ouvido podem aparecer em dias ou até mesmo semanas após o diagnóstico.
É comum que infecções virais e bacterianas causem perda auditiva repentina. Em relação ao novo coronavírus, diversas pessoas têm relatado o sintoma. Uma análise do Manchester Biomedical Research Centre (BRC), divulgada em março deste ano, mostra que 14,8% dos pacientes relataram zumbido no ouvido após desenvolverem a covid-19, 7,6% tiveram perda de audição em algum grau e 7,2% apresentaram sintomas relacionados a vertigem.
Outro estudo, desta vez do Departamento de Otorrinolaringologia da Universidade de South Valley, do Egito, mostra que a infecção causada pela Covid-19, mesmo assintomática, pode prejudicar as funções das células ciliadas da cóclea (responsável pela função auditiva).
A fonoaudióloga Ariane Gonçalves, explica que os estudos sobre a relação entre a covid-19 e danos no sistema auditivo estão apenas começando. “É preciso entender o que exatamente tem ocasionado a perda auditiva, o zumbido e a vertigem”. Ariane explica que muitos tratamentos contra vírus e bactérias requerem medicamentos ototóxicos (capazes de lesar estruturas da orelha interna). Por isso, ainda não se sabe se os sintomas podem ter relação com alguma etapa do atendimento de urgência dos pacientes, se originam diretamente da doença ou ambos. “Há uma necessidade urgente de mais estudos conduzidos para compreender as causas e os efeitos de longo prazo da covid no sistema auditivo”, garante a fonoaudióloga.

Ibrahim Almufarrij, principal autor da pesquisa do BRC, compartilha da mesma opinião. Por isso, lidera atualmente um estudo no Reino Unido para avaliar a questão e entender quais os efeitos do novo coronavírus e seus tratamentos desencadeiam no sistema auditivo. “Há um aumento do peso das evidências científicas de que existe uma forte associação entre covid-19 e problemas auditivos”, explica Almufarrij. Entretanto, ele alerta que as informações coletadas são de estudos de “qualidade variável” e que é preciso ter cuidado. O pesquisador afirma que as pesquisas devem continuar sendo feitas e analisadas por profissionais de todo o mundo para que se possa entender o grau de relação entre a doença e os problemas auditivos.