O uso de medicamentos que aceleram o processo de emagrecimento virou febre nos últimos anos no Brasil. Segundo dados do Conselho Federal de Farmácia, produtos do tipo subiram 88% em 2025, comparado com o ano anterior. Mas o uso indiscriminado das popularmente conhecidas como “canetas emagrecedoras” preocupa especialistas.
Em entrevista à equipe de reportagem do JBr, o médico endocrinologista Neuton Dornelas Gomes, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), alerta que o termo “medicamentos para tratar a obesidade” seria melhor para se referir a esses produtos. O especialista aponta que o famigerado termo “canetas emagrecedoras” poderia ser evitado, pois a caneta é apenas o veículo condutor e que o termo popular tende a simplificar uma doença complexa. “O que pode reforçar estigmas de que a obesidade ‘é culpa de quem vive com ela’, o que definitivamente não é verdade”, pontuou. Para ele, o que trata a condição é o conteúdo do fármaco, desde que aliado à mudança no estilo de vida, alimentação saudável e atividades físicas.
O médico destaca que esses injetáveis foram descobertos inicialmente para o tratamento do diabetes mellitus, mas eles também têm eficácia na perda de peso. Atualmente, o uso de medicamentos do gênero é permitido para o tratamento da obesidade — quando caracterizada por medidas objetivas, como o IMC acima de 30kg/m2 ou circunferência abdominal maior que a metade da altura da pessoa. O tratamento também é indicado em casos de sobrepeso (IMC igual ou maior que 27) associado a doenças como hipertensão, apneia do sono ou gordura no fígado. “Portanto, tais medicamentos são preconizados para tratar a obesidade, reduzir riscos cardiometabólicos e restaurar a saúde, e não apenas para perder peso”, resumiu.
O presidente da SBEM apontou ainda, que os medicamentos precisam ser usados quando a pessoa precisa por questão de saúde, não apenas por estética. “Quando se perde peso, perde-se massa gorda mas, também, em uma proporção menor, perde-se massa magra.” Logo, ele aponta que para pessoas com menor quantidade de massa gorda a perder, em tese, pode haver perda de massa magra proporcionalmente maior, o que aumentaria mais os riscos, do que eventuais benefícios. Ele citou que este é apenas um dentre outros riscos e efeitos colaterais.
Neuton indicou que tais medicamentos atuam principalmente no intestino estimulando a liberação de insulina, para reduzir os níveis de glicose no sangue. Além disso, também promovem o retardo do esvaziamento gástrico, o que mantém por mais tempo a sensação de saciedade do paciente. Esses produtos injetáveis também atuam no cérebro, ao regular o apetite, reduzir a fome e aumentar a saciedade. “Ao promover perda de peso, melhoram a autoestima, promovem recompensas e, por isso, tendem a mudar, positivamente, a relação do paciente com os alimentos, evitando seus excessos.”
Entretanto, em tempos de redes sociais e seus “influenciadores” que divulgam “uma falsa ideia de que beleza só existe na magreza extrema” e a propaganda de que “tratar obesidade tornou-se tarefa fácil”, os riscos dessa desinformação podem levar pessoas a buscarem a automedicação. Por consequência, essas pessoas também acabam encontrando a importação ilegal, e a aquisição desses medicamentos em fontes não confiaveis. “Isso expõe essas pessoas a riscos importantes. O papel social da medicina, da imprensa e de entidades de saúde torna-se, portanto, fundamental para esclarecimentos e implantação de práticas seguras”, frisou.
Alerta contra a automedicação
Para adquirir tais medicamentos por vias legais, somente com receita médica. No começo deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a comercialização, distribuição, fabricação, importação e uso de medicamentos à base de tirzepatida (das marcas Synedica e TG) e de retatrutida. A médica endocrinologista e professora da pós-graduação em Endocrinologia Clínica da EPM/UNIFESP, Carolina Castro Porto Silva Janovsky, acrescentou que essas “canetas” (agonistas de GLP-1 e GLP-1/GIP, como semaglutida e tirzepatida) não se tratam de uma “anestesia do apetite”, mas sim de uma recalibração dos sinais de fome e recompensa no organismo.
Para Carolina, o uso desses injetáveis sem indicação clínica aumenta riscos desnecessários, como efeitos gastrointestinais, cálculos na vesícula e pancreatite, sem um benefício médico claro. A médica reforça ainda que a pressão estética e o estigma do peso pioram a saúde, aumentando a ansiedade e comportamentos alimentares desregulados. Ela defende que, se o motivo for apenas aparência, a melhor rota é avaliar riscos e benefícios com um profissional, cuidar do sono, do manejo do estresse e do ambiente alimentar. “E, se preciso, suporte em saúde mental e nutrição antes de pensar em fármacos”, recomendou.
Para quem busca utilizar medicamentos do gênero de maneira correta, as recomendações da especialista são rigorosas. Primeiro, é fundamental confirmar a indicação médica baseada no IMC e histórico familiar, além de realizar exames básicos e uma revisão de outros remédios que o paciente já utilize — ela alerta que há risco de hipoglicemia se houver associação com insulina. O planejamento deve ser de longo prazo, já que são remédios de uso crônico, acompanhados de metas realistas e atividade física, especialmente musculação, para preservar a massa magra.
A médica também faz alertas específicos para situações do dia a dia: em casos de cirurgias, é preciso alinhar com o anestesista, pois pacientes com digestão lenta podem precisar de dieta líquida prévia. Quanto à contracepção, Carolina alerta que, com a tirzepatida, anticoncepcionais orais podem ter a eficácia diminuída, sendo necessário o uso de métodos de barreira. Por fim, a orientação é evitar produtos manipulados ou falsificados. “Compre só com receita e procedência, pois a Anvisa restringe a manipulação e alerta para riscos sanitários”, pontua.
Carolina teve um caso recente de um paciente com diabetes tipo 1 que usou uma “caneta paraguaia” sem autorização médica. “O caso evoluiu com muitos vômitos que levaram à desidratação e internação por cetoacidose diabética.” O paciente ficou internado por uma semana em uma UTI para se recuperar do quadro, com risco iminente de morte, enquanto estava de férias no Nordeste. “Um verdadeiro perigo. Teve sorte que a equipe do hospital que o recebeu era muito competente”, disse.
Por fim, Carolina argumentou que a pressão pela magreza e o uso midiático dessas canetas acabam aumentando o estigma de peso e comportamentos de risco. “O estigma está associado à piora na saúde mental e física, mais transtornos alimentares e ganho de peso a longo prazo”, pontuou. Para a médica, a comunicação responsável e o foco na saúde, e não em um “corpo ideal”, são fundamentais.
A nutricionista funcional e professora de Nutrição do CEUB, Pollyanna Ayub, reforçou que, para quem busca perder peso com esses medicamentos, a indicação médica é essencial, especialmente se houver acompanhamento nutricional. “Como se trata de uma medicação que envolve mecanismos hormonais, não é uma decisão isolada que visa apenas a estética imediata, mas sim um conjunto de mudanças no padrão alimentar para promover a saúde cardiometabólica e evitar deficiências nutricionais.”
Ela observa que o aumento da procura reflete a busca por soluções rápidas, muitas vezes impulsionada por relatos em redes sociais. “A dieta prescrita por um nutricionista é fundamental para evitar deficiências nutricionais devido à baixa ingestão alimentar e alterações na composição corporal”, relatou. Para ela, a alimentação orientada é o pilar central, atuando na mudança de hábitos e na correção de carências nutricionais por meio da comida ou, se necessário, de suplementação para potencializar os resultados. “A dieta adequa as necessidades de acordo com idade, sexo, nível de atividade física e doenças associadas”, ressaltou.
Pollyanna acredita que a medicação serve para facilitar a adesão às mudanças, reduzindo a fome e aumentando a saciedade. Nesse contexto, o nutricionista ajuda o paciente a criar metas além da balança, como a melhora do sono, disposição física e a recuperação do prazer em comer de forma saudável. O profissional também trabalha na flexibilidade e autonomia do paciente, além de preparar o caminho para o futuro desmame da medicação. Segundo a especialista, o foco é desmistificar alimentos e eliminar o conceito de “proibidos”, reduzindo a culpa e a mentalidade de “tudo ou nada”.
Da indicação de bariátrica ao tratamento injetável
A empresária Amanda Maria Fernandes da Guarda, de 29 anos, conta que passou a usar a caneta emagrecedora inicialmente por estar com sobrepeso. “Eu já tinha recebido um pedido médico para fazer bariátrica. O medo da cirurgia me fez repensar e ir atrás de um especialista”, afirmou. Após realizar vários exames, descobriu que estava com obesidade grau três e esteatose hepática (gordura no fígado). “Meu fígado estava com 12% de cobertura de gordura, então o médico receitou o uso do injetável durante um ano, com acompanhamento endócrino e nutricional”, disse.
Ela admite que os resultados aparentemente milagrosos postados no Instagram foram o que a motivaram a procurar a medicação, somados à sua condição física. Até agora, Amanda afirma não ter tido efeito rebote ou resultados negativos. “Para ser bem sincera, não tenho críticas à caneta, a não ser o custo-benefício, que é bem alto”, comentou. Apesar do valor, a empresária notou uma melhora drástica na disposição e no sono, que antes era prejudicado pelo peso. “Hoje durmo e respiro tranquilamente, minha necessidade de doce reduziu para quase zero e minha autoestima está lá em cima; é prazeroso entrar em uma roupa que não servia há anos”, salientou. Atualmente, Amanda celebra conseguir fazer atividades físicas sem ficar ofegante. “Infelizmente, o sobrepeso deixa a gente muito estagnada”, completou.
Saiba mais
Segundo a Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF), a Anvisa é a responsável pelo registro desses fármacos no Brasil. A pasta reforça que, apesar do termo popular “canetas emagrecedoras”, os medicamentos análogos ao GLP-1 (hormônio que regula o apetite e a glicemia) pertencem originalmente à classe dos antidiabéticos.
Atualmente, a rede pública conta com três protocolos para o tratamento da obesidade. O tratamento clínico para maiores de 18 anos inclui avaliação física, exames laboratoriais e suporte psicológico focado na mudança de estilo de vida — priorizando hábitos alimentares, sono e redução do sedentarismo.
Para adolescentes (a partir de 12 anos) e adultos com complicações de saúde (como problemas cardíacos, hipertensão ou obesidade mórbida) que não obtiveram êxito apenas com a mudança de hábitos, estão disponíveis outros dois caminhos. Um deles é o uso da Liraglutida 3,0mg, que é a caneta padronizada para fornecimento pela SES-DF. A outra opção é a cirurgia bariátrica, indicada para casos de obesidade muito elevada ou grave, quando não há resposta ao tratamento conservador (dieta e exercícios).
Ainda de acordo com a pasta, a incorporação de novos medicamentos segue critérios rigorosos de viabilidade técnica e econômica. No momento, o órgão está em fase de estudo para a possível incorporação de mais uma opção: a Semaglutida.