Por Madu Suhet, Caio Batista e Lívia Laucevicius
Receber o diagnóstico de autismo na vida adulta resultou em autoconhecimento e reconstrução da própria história para a psicóloga e fisioterapeuta Carol Gonçalves, de 42 anos. “Antes ficava tudo muito vago. Eu não entendia. Achava que estava louca. Depois do diagnóstico, eu entendi, e me deu uma identidade”, afirma.
O diagnóstico tardio do Transtorno do Espectro Autista (TEA) permite ressignificar experiências, compreender antigos desafios e abrir caminhos para cuidado, acolhimento e qualidade de vida. Carol Gonsalves foi diagnosticada com autismo nível 1 de suporte já na vida adulta.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2,4 milhões de pessoas, pelo menos, convivem com o transtorno do espectro autista. Isso significa 1.2% da população brasileira, com maior incidência em homens. Os sinais costumam surgir ainda na primeira infância. Porém, segundo os especialistas, a falta de conscientização dificulta o diagnóstico precoce, impacta diretamente a rotina e o desenvolvimento das pessoas com espectro.
Importância do diagnóstico
O diagnóstico do autismo é fundamental para garantir acompanhamento adequado, acesso a terapias e maior compreensão sobre as próprias características. Quando identificado precocemente, o TEA permite intervenções que auxiliam no desenvolvimento social, emocional e educacional da pessoa autista.
Para Carol Gonçalves, o diagnóstico trouxe respostas para questões que a acompanharam durante toda a vida. Ela explica que compreender o autismo a ajudou a reconhecer limites físicos e emocionais que antes eram interpretados como fraqueza.
“Antes parecia frescura, antes do diagnóstico eu não conseguir fazer tantas coisas e estar disposta, parecia frescura, porque todo mundo dava conta, sabe? Todo mundo dava conta de virar à noite, eu nunca dei conta de virar à noite, por exemplo”, desabafou.
Impactos na vida
Quando o diagnóstico ocorre apenas na vida adulta, muitos desafios já foram vividos sem suporte adequado. A ausência de explicações pode gerar sentimentos de inadequação e sofrimento ao longo dos anos.
Sem compreender o motivo das próprias dificuldades, muitos desenvolvem estratégias para se encaixar socialmente, escondendo comportamentos naturais e reproduzindo atitudes esperadas pelos outros, o que pode gerar exaustão emocional e sofrimento psicológico ao longo do tempo.
“A gente vai colocando várias máscaras sociais para dar conta de sobreviver. Mas, por dentro, a gente está tentando viver do jeito que as outras pessoas vivem”, afirma a psicóloga.
Carol relata também que, antes de começar a faculdade de psicologia, acreditava que tinha apenas Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade.
Há dois anos, decidiu realizar a avaliação para Transtorno do Espectro Autista e, a partir daquele momento, mesmo com dificuldades, as peças começaram a se encaixar, pois durante sua infância, ela era chamada de lerda pela família, principalmente por interpretar tudo de forma literal.
Esse comportamento era constantemente reforçado por pessoas do seu convívio, já que muitas situações não faziam sentido para ela sem explicações detalhadas sobre o que era esperado. O diagnóstico, a fez ver a situação de outra forma.
“Eu lembro que, até antes do diagnóstico, há pouco tempo, eu falava pra me apresentar assim: “Ah, gente, eu sou Carol, eu sou fisioterapeuta, eu sou lerda”. Era algo que já estava com a minha minha identidade ser lerda porque eu escutei tanto isso”.
Depois dos 40
Além da experiência de Carol, o diagnóstico tardio também marcou a trajetória de Paulo Malheiros, que recebeu a confirmação do Transtorno do Espectro Autista apenas aos 46 anos, após décadas em acompanhamento psicológico.
O diagnóstico tardio o trouxe sentimentos ambíguos. Apesar da compreensão maior sobre si mesmo, houve impacto emocional. “
“Eu já fazia terapia desde a adolescência, mas naquela época,no final dos anos 90, ainda tinha muito estigma sobre a saúde mental. Depois de 2 anos de tratamento, meu psiquiatra descobriu, por causa de rigidez de pensamento e ingenuidade. O diagnóstico deixou minha autoestima mais baixa, mesmo com alguns benefícios. Você começa a perceber suas limitações”, relatou.
Preconceitos e estigmas
Além dos desafios pessoais, pessoas autistas ainda enfrentam preconceitos decorrentes da falta de informação social. A ideia equivocada de que o autista possui sempre limitações intelectuais visíveis ou incapacidade de autonomia contribui para atitudes discriminatórias e para a invisibilização de diferentes perfis dentro do espectro.
Paulo, por exemplo, afirma que passou a ficar mais atento nas relações sociais após entender características do espectro. “Eu senti que precisava prestar mais atenção para as pessoas não se aproveitarem da minha ingenuidade”, disse.
Inclusão
A inclusão de pessoas autistas na sociedade ainda enfrenta obstáculos que vão além do acesso a direitos formais, envolvendo principalmente a compreensão das diferenças comportamentais e das habilidades sociais.
Segundo a psicóloga, situações consideradas simples podem gerar grande desgaste emocional.
“Você quer ver eu ficar desesperada é se eu vou num lugar novo e sei que vou ter que cumprimentar várias pessoas. Eu não sei como cumprimentar: pega na mão? Abraça? Dá só oi? Para mim é muito complicado”, relata.
A dificuldade em compreender essas nuances sociais faz com que comportamentos sejam frequentemente interpretados de maneira equivocada. Ela explica que, muitas vezes, pessoas autistas são vistas como frias ou desinteressadas, quando, na verdade, enfrentam desafios na leitura social e na adaptação a diferentes ambientes.
“As habilidades sociais, no geral, são o que mais precisa ser trabalhado no autismo, porque é tentar entender as nuances do mundo e como lidar com elas”, afirma.
No ambiente escolar, essas dificuldades se tornam ainda mais evidentes diante da falta de estrutura adequada para acolher alunos neurodivergentes. Muitas vezes, professores e instituições não estão preparados para lidar com as necessidades dos alunos com TEA, o que atrasa e atrapalha o processo de aprendizagem e a convivência entre os alunos no geral.
O aluno está na sala, mas não participa das atividades da mesma forma que os outros, ficando mais distante. Isso acaba evitando o contato direto com os colegas, trazendo um grande empecilho nas relações.
Carol destaca que a inclusão também esbarra na ausência de preparo institucional. “As escolas não estão preparadas. O professor precisa lidar com 30 alunos e mais um aluno neuro divergente, sem estrutura e sem capacitação suficiente”, explica.
O autismo no Brasil e o aumento de diagnóstico
As primeiras publicações jornalísticas sobre o autismo no Brasil eram matérias traduzidas de países como os Estados Unidos, que definiam o transtorno como doença. Na década de 1980, o TEA começou a ganhar maior visibilidade com a formação de associações públicas como a Associação Brasileira do Autismo (Abra).
O aumento das discussões ocorre devido a uma maior capacidade de identificação pelos médicos, a compreensão de que o autismo é um “espectro” (com diferentes níveis de suporte) e a inclusão de comportamentos na área de comunicação e interação social.
Conscientização
Ampliar o debate público é essencial para reduzir estigmas e melhorar o acesso ao diagnóstico. Carol destaca que a inclusão depende não apenas do indivíduo, mas da preparação da sociedade. “As pessoas não conhecem, não entendem. Falta disseminar melhor o que é o autismo para que saibam como lidar”, afirma.
As histórias mostram que o diagnóstico tardio não apaga dificuldades vividas, mas pode abrir caminhos para autoconhecimento e adaptação mais saudável. Para muitos adultos autistas, entender a própria condição significa reconstruir a própria identidade.
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira