MATEUS VARGAS
FOLHAPRESS
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT), afirma que o plano do governo Lula (PT) é levar canetas emagrecedoras a “milhões” de pacientes do SUS.
O público exato que receberá o medicamento, a data do começo da oferta e o custo médio dos tratamentos, porém, ainda são incertos.
Padilha estima que a oferta deve custar R$ 1,5 bilhão por ano. Nega, ainda, que haja oportunismo eleitoral no movimento de incluir as doses na rede pública, que havia sido anunciado dias antes como promessa de campanha à reeleição de Lula.
“Não estamos falando de incorporar um milagre estético, mas uma medicação que, combinada com outras ações de alimentação, atividade física, certamente poderá ter um impacto muito positivo, inclusive de custos para o sistema de saúde”, disse o ministro em entrevista à Folha, nesta segunda-feira (28).
Na quinta-feira (24), o ministério pediu para a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde) elaborar um protocolo de uso dos medicamentos para “pacientes com obesidade”. A pasta estima que 25% da população se encaixa nesse cenário.
O pedido ainda não define com precisão o público-alvo. A área técnica da comissão deve agora sugerir recortes de pacientes elegíveis ao medicamento, como aqueles com obesidade de determinado grau, diabetes, comorbidades, entre outros fatores, além de calcular qual seria o custo para distribuir os remédios.
A Conitec rejeitou três vezes a entrada no SUS das canetas nos últimos anos. Em agosto de 2025, a comissão negou o pedido feito pela Novo Nordisk, fabricante de Ozempic e Wegovy, ao apontar que a oferta custaria R$ 6,8 bilhões em cinco anos e atenderia algumas dezenas de milhares de pacientes.
O plano do governo envolve uma estimativa de impacto no Orçamento até maior, mas Padilha afirma que o ministério agora deve conseguir descontos maiores nos preços. Logo, mais pacientes poderiam ser atendidos.
“Quando você pensa na escala de compras do SUS, produção local, isso nos traz a possibilidade de trazer uma redução de 80% a 90% do preço. Eu projeto que, com algo em torno de R$ 1,5 bilhão ao ano, a gente consegue trazer esses produtos e incorporar no SUS”, disse Padilhao ministro.
Padilha afirmou ainda que o ministério aposta em ampliar a produção por meio de laboratórios públicos, que podem fechar parcerias de transferência de tecnologia com farmacêuticas privadas.
“O Brasil quer ser soberano na produção, para não acontecer como no caos da insulina. As poucas indústrias internacionais passaram a produzir os análogos de GLP-1 [conhecidos como canetas emagrecedoras] na mesma planta, e tivemos risco no abastecimento”, disse.
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O ministro afirma que a expectativa de altos descontos nas compras públicas reflete a entrada de mais de dez canetas contendo semaglutida no mercado em 2026, mesma substância do Ozempic.
O plano do governo, porém, ainda pode esbarrar no custo dos tratamentos. Se custar R$ 1.000 no ano valor muito abaixo da oferta atual no mercado, o orçamento citado por Padilha permite que 1,5 milhão de pacientes recebam a droga.
Na análise encerrada em 2025, a Conitec considerou que ofertar caneta emagrecedora custaria mais de R$ 12 mil por ano para cada paciente.
A Novo Nordisk ainda apresentou nova proposta à Conitec para incorporar a semaglutida ao SUS. Agora, a farmacêutica mira público mais restrito: pacientes com obesidade e que já sofreram infarto. Estima que são cerca de 39 mil pessoas, ao custo de R$ 500 milhões a R$ 650 milhões por ano.
Padilha afirmou que o pedido da Novo pode ficar “superado” com a proposta do governo, que é mais ampla. Ele diz disse que poderiam ser beneficiados os pacientes da atenção primária que participam de programas voltados ao emagrecimento, não apenas em protocolos que são feitos com pacientes mais graves ou em hospitais.
Mas não foi apenas o preço do medicamento que levou a Conitec a rejeitar as canetas no SUS nos últimos anos.
A comissão também apontou que faltam políticas intersetoriais na rede pública, como de suporte psicológico e acompanhamento físico do paciente. Disse ainda que a caneta, de forma isolada, pode não ser efetiva como política pública de saúde.
Padilha disse que este cenário está superado, pois a OMS (Organização Mundial da Saúde) passou a recomendar as canetas como arma estratégica de políticas de combate à obesidade. Afirmou ainda que o programa Academia da Saúde prevê investimentos na contratação de nutricionista, educador físico e outros profissionais para a rede pública.
As canetas emagrecedoras são medicamentos agonistas de GLP-1, hormônio produzido naturalmente pelo corpo humano que atua no controle dos níveis de glicose no sangue e nos mecanismos de saciedade. São indicadas para tratamento de diabetes e obesidade.
As principais marcas no mercado são compostas por semaglutida (Ozempic e Wegovy, da Novo Nordisk, além de marcas nacionais, como Ozivy, da EMS) e tirzepatida (Mounjaro, da Eli Lilly), esta última com atuação também no receptor do hormônio GIP. Há ainda gerações anteriores, como medicamentos contendo liraglutida.
Existe forte pressão de consumidores, de parte da indústria e do universo político para ampliar a oferta e baixar os custos dos emagrecedores. O aumento do consumo para fins estéticos ou fora da bula (off-label), bem como a popularização de versões manipuladas e de medicamentos trazidos do Paraguai, porém, são pontos que preocupam associações e sociedades médicas.
Ministro da Saúde prevê caneta emagrecedora no SUS para ‘milhões’ e custo de R$ 1,5 bi por ano
Governo ainda não informou o público exato que receberá o medicamento, nem a data de início da distribuição e o custo dos tratamentos
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil