Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
*Por Beatriz Ribas, Yasmin Fernandes e Maria Eduarda Barros
O ciúme, que pode ser confundido com uma prova de amor, revela-se como um dos principais catalisadores da violência de gênero, segundo a psicóloga Flávia Tim, do Centro Universitário de Brasília (Ceub).
O ciúme não é apenas uma emoção passageira, mas uma “afecção”; que nasce de ideias pré-concebidas sobre o que deve ser uma união amorosa. Ela explica que o sentimento surge quando qualquer desvio de atenção é interpretado como uma ameaça ao vínculo.
“O ciúme predispõe um comportamento de controle. Na violência doméstica, ele aparece como a dificuldade de aceitar a alteridade da mulher ou o fato de ela ter outros focos de interesse que não sejam exclusivos ao parceiro”, afirma a especialista.
Essa dinâmica de poder se manifesta em sinais que muitas vezes passam despercebidos no cotidiano. O isolamento social, o constrangimento em interações simples e a renúncia de escolhas pessoais para evitar conflitos são alguns dos alertas que devem levar uma maior atenção.
Segundo a psicóloga, quando um parceiro passa a proibir amizades, roupas ou atividades profissionais, a autonomia da vítima é ferida, configurando o abuso.
A psicóloga destaca que frases como “você é minha e de mais ninguém” ou “ninguém vai te amar como eu” são estratégias comuns para degradar a autoestima e fazer com que a mulher duvide de sua própria sanidade mental.
Violência
Especialistas alertam que esse sentimento, enraizado em crenças culturais de posse e exclusividade, predispõe comportamentos de monitoramento que podem evoluir para agressões psicológicas, morais e físicas.
Em um cenário onde a violência doméstica é discutida com urgência, compreender a transição do zelo para o abuso torna-se fundamental para romper ciclos de opressão que muitas vezes começam de forma sutil e naturalizada por ambos os parceiros.
Cuidar sem julgar
De acordo com a profissional, a complexidade do tema reside também na resistência em romper esses vínculos já que mulheres defendem seus agressores por possuírem laços afetivos e acreditarem que a violência é uma “fragilidade emocional” do parceiro e que elas podem ajudar a curá-lo.
Segundo acredita, a sociedade, por sua vez, tende a isolar essas vítimas através do julgamento, o que dificulta a busca por ajuda. A especialista enfatiza a importância de uma rede de apoio presente e ética, que acolha sem moralismos, permitindo que a mulher recupere sua autonomia no tempo necessário.
“O nosso compromisso social é de não julgar as mulheres que passam por essas situações pois não sabemos como é a história do ponto dela.”
Meio digital
No ambiente digital, essa vigilância ganha escala e velocidade visto que, para a psicóloga, as redes sociais funcionam como ferramentas de “efeito manada” onde comportamentos abusivos são validados e replicados globalmente.
Grupos que promovem a misoginia utilizam dessas plataformas para organizar a violência estrutural, transformando o controle individual em uma ameaça coletiva.
Repensar o ciúme exige desconstruir a ideia de que o amor requer a anulação do outro, promovendo uma educação afetiva baseada no respeito à liberdade e à individualidade.
Do sentimento para a realidade
Muitas mulheres não percebem que o ciúmes do parceiro se tornou algo abusivo até chegar o fim do relacionamento, como é o caso da Ana (nome fictício para a preservação da entrevistada).
Ela relata que por volta dos seus 15 ou 16 anos conheceu o Lucas (nome alterado para a preservação da identidade) pelo Facebook no final de 2018 e logo se tornaram bons amigos.
Ciúmes excessivo
No início, tudo era tranquilo e agradável, porém, depois, Ana reconhece que algumas atitudes e falas do namorado eram um sinal de alerta para o ciúmes excessivo que vinha acompanhado de agressões verbais.
Ana afirma que, em uma ocasião, o namorado acabou vendo mensagens antigas do histórico do celular dela, de um período em que eles não estavam juntos, e então começaram as indagações de quem seria aquela pessoa e o porquê daquelas conversas.
Ela revela que, na época, se sentiu culpada e envergonhada por algo que tinha acontecido meses antes. A psicóloga narra que, uma ve,z chamou ele para lhe acompanhar em uma festa de 15 anos de uma amiga e até então ele tinha confirmado que iria. Porém no dia da festa ele desmarcou e sumiu.
Ela achou a atitude estranha pois ele geralmente ficava mandando mensagens quando ela saia. Até que em determinado momento da festa ela recebeu algumas fotos dele em um banheiro insinuando que ele iria tirar a própria vida. Ela diz que na hora se sentiu culpada e não sabia o que fazer.
Quando ela saía e não respondia as mensagens dele, ele a acusava de traição e disparava insultos.
“Quando eu não respondia ele por qualquer motivo, começava uma onda de xingamentos. Lembro que eu ficava muito mal e nem conseguia falar com os meus amigos sobre.”
Ana conta que, por causa do relacionamento, teve muitas inseguranças para ter relações com outras pessoas, principalmente em momentos de intimidade. Ela relata que, em várias ocasiões, ele chegava a forçá-la a ter relações sexuais.
“Eu tenho uma insegurança muito grande. São essas coisas que eu acho que, até hoje, eu levo comigo, infelizmente, de uma forma muito muito mais tranquila, claro. Mas, querendo ou não, isso recai muito sobre os meus relacionamentos de hoje em dia, infelizmente”, disse Ana.
Com todo o ocorrido na vida de Ana, ela disse que teve uma rede de apoio muito forte e importante principalmente vindo da sua mãe.
“Quando eu terminei com ele eu já estava muito mal e a minha mãe já tinha percebido a muito tempo. Ela foi o meu maior apoio depois de toda a situação. Acho que quem foi a minha salvadora nesse momento foi a minha mãe.”
*Supervisão de Luiz Claudio Ferreira