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Saúde

Jovens garantem que ficam mais felizes longe das redes

Segundo estudo realizado a partir da consulta de jovens em 50 países, a dinâmica das redes favorece a comparação constante e expõe os usuários a um volume elevado de estímulos, o que pode afetar a felicidade

Redação Jornal de Brasília

09/04/2026 19h16

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Foto: Reprodução

Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
*Por Beatriz Ocké, Isabella Ribeiro e Nathaly Ferreira

O  Relatório da Felicidade de 2026, estudo realizado a partir da consulta de jovens em 50 países,  destacou que o uso intensivo das redes sociais está tornando adolescentes mais infelizes. O psicólogo clínico comportamental Jayme Pinheiro Rabelo, que atua em Brasília (DF), explica isso ocorre porque o ambiente digital tem impacto direto na forma como os indivíduos percebem a si mesmos.

Segundo ele, a dinâmica das redes favorece a comparação constante e expõe os usuários a um volume elevado de estímulos, o que pode afetar a felicidade. 

Para o especialista, embora o uso das plataformas seja um fenômeno coletivo, os efeitos não são homogêneos e variam de acordo com a realidade de cada indivíduo. Ele aponta ainda que, em um cenário de rápida evolução tecnológica, a dificuldade em acompanhar esse ritmo pode intensificar a sensação de sobrecarga.

Vulnerabilidade

O psicólogo avalia que o uso excessivo está menos relacionado ao aparelho em si e mais aos estímulos que ele oferece, capazes de gerar padrões de comportamento associados à dependência.

O profissional destaca que o principal desafio está no reconhecimento desse processo e na forma como cada pessoa se relaciona com o ambiente digital. “O mais difícil é a tomada de consciência. A psicoterapia trabalha a forma como o paciente se relaciona com esses elementos”, afirma.

O especialista acrescenta que a exposição constante a estímulos pode ampliar a vulnerabilidade psicológica de alguns usuários, facilitando o contato com diferentes conteúdos, ideias e influências presentes no ambiente digital.

“Fora da rede”

O estudante de economia Luís Felipe de Souza, de 19 anos, recorda que, após anos desativando e ativando sua conta no Instagram, sente-se mais feliz agora, que decidiu, de forma definitiva, deletar a plataforma e as outras redes que utilizava.

A decisão partiu de uma reflexão pessoal sobre a dificuldade em  gerenciar o tempo que passava nas redes com as suas obrigações e tarefas diárias. “Eu acho que não tenho maturidade suficiente para poder ter e conciliar com a minha vida pessoal.” relata.

Por não estar mais em contato com a hiperestimulação do ambiente online, Luís garante que consegue, agora, focar mais na própria vida e naquilo que está ao seu alcance. Hoje, ele explica que as informações relevantes costumam chegar até ele pelos amigos que permanecem conectados.

Além do tempo gasto que o impedia de se dedicar à sua vida pessoal, o estudante explica que as redes sociais o traziam a sensação de estar perdido ou confuso, devido ao excesso de informações que recebia ao entrar diariamente nas plataformas.

Querendo ou não, a gente é bombardeado o tempo inteiro com informação, com trend nova e com dancinha. E isso, para mim, faz mal”, desabafa.

Luís também pontua o perigo da comparação, uma vez que, muitas das realidades mostradas nas redes parecem inalcançáveis para a maioria dos usuários. 

“A rede social mostra um mundo muito bom para as outras pessoas e ruim para você. Parece que a sua vida é muito ruim comparada à dos outros“, defende Luís

O jovem entende a felicidade como algo “relativo”, mas que agora se tornou mais constante. Sem os picos de euforia e dopamina (neurotransmissor produzido no parágrafo) das telas infinitas, Luís se sente melhor, mais presente para as pessoas ao seu redor e conclui que deixar as redes foi “um sacrifício que precisou ser feito e valeu a pena.”

“Mais prazer”

“Estar sem redes sociais é mais prazeroso do que estar nelas, mas o processo é doloroso”. É assim que descreve o servidor público Vinícius Alves, de 24 anos, que decidiu se afastar das plataformas digitais após perceber os impactos do uso excessivo.

Atualmente, Vinícius relata que passa cerca de 80% do seu tempo com o celular desde o momento que acorda. O hábito constante o levou ao chamado doomscrolling, termo utilizado para descrever a compulsão por consumir conteúdos negativos ou irrelevantes por longos períodos.

Segundo dados do DataReportal, o Brasil tinha, no  início de 2025, cerca de 183 milhões de usuários de internet. Entre eles, 10,1% têm entre 18 e 24 anos, faixa etária em que o uso intenso das redes sociais é mais comum. 

Procrastinação

O servidor público ressalta que a trajetória dele no mundo das redes sociais começou ainda na adolescência, como uma forma de fugir da realidade. Com o tempo, porém, o uso se intensificou e passou a afetar sua rotina, gerando procrastinação e dificuldade de concentração. A necessidade de estar sempre conectado provocava a insegurança de não se sentir incluído  nas informações. 

Esse sentimento fez com que a decisão de se afastar das redes sociais fosse adiada. Ainda assim, ele buscou diminuir o tempo de tela, especialmente no Instagram, onde se sentia mais impactado pelo algoritmo. Após esse período, em janeiro deste ano, Vinicius conseguiu deletar todas redes sociais que utilizava, em busca de uma maior controle da situação.  

Lidar com o tédio

Sem o contato com as redes, o servidor público afirma que começou a lidar melhor com o tédio e que se sentia mais leve e descansado. No entanto,  durante o carnaval, ele enfrentou problemas pessoais e voltou a consumir conteúdos, principalmente no Tik Tok. “Tive alguns problemas e senti que precisava daquela dopamina barata”, relata. 

Atualmente, ele descreve que se encontra em um estado pior de dependência do que antes da tentativa de se afastar. Apesar disso, afirma com certeza que se sente mais feliz quando está longe das redes sociais e reconhece a necessidade de se desconectar novamente, mesmo diante das dificuldades. 

“Pra mim, é a mesma situação de estar condicionada a algum tipo de vício porque essa sensação de não estar incluído, de estar perdendo algo, pesa bastante.”

*Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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