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Saúde

Janeiro Branco: um convite para recalcular a rota da saúde mental em 2026

Entre histórias de superação e o alerta de especialistas, o Janeiro Branco propõe uma pausa na rotina acelerada e questiona o que tem adoecido a sociedade.

Amanda Karolyne

09/01/2026 11h19

laço branco saúde mental janeiro branco

Foto: jcomp / Freepik

Um convite a desacelerar e a recalcular a rota. A campanha Janeiro Branco de 2026 chega para chamar a atenção da sociedade sobre a importância de cuidar da saúde mental. Para entender como priorizar o tema, a reportagem conversou com especialistas e foi às ruas do Distrito Federal perguntar aos moradores como anda a relação de cada um com o próprio bem-estar emocional.

Leonardo Abrahão é psicólogo, professor, palestrante, escritor e o criador e organizador da Campanha Janeiro Branco. Ele fundou o Instituto de Desenvolvimento Humano Janeiro Branco, organização da sociedade civil criada para coordenar, ampliar e dar sustentação institucional à campanha. Segundo ele, a iniciativa nasceu no Brasil, em 2014, e hoje é reconhecida por leis municipais, estaduais e pela Lei Federal nº 14.556/23, o que confirma sua legitimidade social, histórica e política.

O criador do Janeiro Branco afirmou que essa é uma campanha de conscientização social sobre saúde mental, criada a partir da vida real, do sofrimento humano e da urgência de transformar a forma como a sociedade lida com emoções, vínculos e adoecimentos psíquicos. “Ela nasceu da minha própria experiência de dor emocional e do reencontro com a saúde mental por meio do cuidado psicológico”. Ainda de acordo com ele, janeiro foi escolhido por simbolizar começos, revisões de rota e projetos de vida. E a cor escolhida representa uma folha em branco. “É um convite coletivo para que indivíduos, famílias, instituições e governos escrevam, com mais consciência, histórias menos violentas consigo e com os outros. É uma campanha legítima porque não nasce do marketing, mas da condição humana”, completou.

De acordo com Leonardo, o Distrito Federal, assim como todo o Brasil, conta com mobilizadores, profissionais, instituições públicas e privadas e cidadãos que realizam ações do Janeiro Branco todos os anos. Ele destacou que a campanha é aberta, voluntária, colaborativa e democrática, o que amplia sua força social e seu alcance territorial. “Não há donos da campanha além da própria sociedade. Essa estrutura aberta é justamente o que garante sua legitimidade: o Janeiro Branco acontece onde houver pessoas dispostas a falar, ouvir, refletir e cuidar da saúde mental coletiva.”

Paz e equilíbrio

Para a neuropsicóloga Valéria Gomes, o Janeiro Branco é um movimento que convida a população a entender que saúde mental não é apenas uma questão individual, mas social. “Não depende só de força de vontade, pensamento positivo ou escolhas pessoais. Ela é profundamente influenciada pelas condições de vida, trabalho, renda, mobilidade, acesso ao lazer, às políticas públicas e à qualidade das relações”, declarou. Ela acredita que, para a população do DF, essa é uma chance de buscar uma conscientização em 2026 que passa por reconhecer que não adianta falar de metas individuais se as pessoas vivem cansadas, sobrecarregadas e sem tempo para existir fora das obrigações. “Reescrever a própria história não é se cobrar mais, mas questionar o que tem adoecido coletivamente e buscar mudanças possíveis: pessoais, institucionais e sociais”, frisou.

O tema da campanha deste ano é “Paz. Equilíbrio. Saúde Mental.”, mas Valéria destacou que a paz e o equilíbrio não surgem apenas de práticas individuais, como meditação ou organização da rotina. A especialista considera que eles dependem de condições concretas de vida. “É difícil falar em equilíbrio quando não há descanso, quando o trabalho é adoecedor ou quando o lazer é tratado como luxo”, apontou.

Para ela, equilíbrio não é dar conta de tudo, mas não viver em constante estado de exaustão ou em comparação com a realidade de outras pessoas. Logo, para priorizar a saúde mental, a neuropsicóloga pontuou alguns pontos que precisam ser valorizados: o descanso real, sem culpa; o lazer como necessidade, não como recompensa; ambientes de trabalho mais humanos; e relações mais seguras, respeitosas e menos violentas emocionalmente. Além disso, ela salientou que é preciso valorizar também o direito à saúde física e mental.

Valéria frisou que a internet ajudou a quebrar o silêncio sobre a saúde mental, mas muito tem sido falado de forma individualizada e superficial. “Houve uma banalização dos diagnósticos, que passaram a circular como explicações rápidas para problemas complexos. Isso pode invisibilizar questões sociais importantes, como jornadas excessivas, precarização do trabalho, solidão e falta de políticas de cuidado. Nem tudo é um diagnóstico e um transtorno”, comentou.

Ainda assim, ela ressaltou que o tratamento médico é necessário, principalmente quando o sofrimento deixa de ser apenas reativo ao contexto e passa a gerar prejuízos importantes na vida da pessoa, como dificuldade de trabalhar, estudar, se relacionar ou cuidar de si. “É fundamental entender que o cuidado em saúde mental não se resume à medicação. Ele envolve escuta qualificada, acompanhamento psicológico, redes de apoio e mudanças possíveis nas condições de vida.” A especialista afirmou ainda que a saúde mental importa porque ninguém adoece sozinho e ninguém se cuida sozinho. “Ela é um direito, não um privilégio, e precisa ser pensada de forma coletiva”, finalizou.

Como os brasilienses buscam o equilíbrio

A administradora e fotógrafa Cleonice Gusmão, 51 anos, sabe bem a importância dos cuidados com a saúde mental. Em sua casa, a filha sofreu muito e precisou buscar tratamento após a pandemia. “Eu trabalho algumas vezes dentro de escolas e vejo que, depois da pandemia, houve um aumento muito grande de problemas de saúde mental pelo uso excessivo da tecnologia”, disse. Para ela, a sociedade está sofrendo como um todo; não só quem é diagnosticado, mas muitas pessoas estão ansiosas, estressadas e em situações complexas.

Depois de 2020, a filha de Cleonice precisou fazer tratamento psiquiátrico e psicológico. “Ano passado ela se estabilizou, mas até 2024 estava totalmente dependente emocionalmente e a vida dela parou.” Essa experiência e a agressão que o irmão de Cleonice sofreu em 2021 fizeram com que ela percebesse a importância de cuidar da mente. Responsável pela filha e pelo irmão, ela também tenta cuidar de si para que os problemas não cresçam: “Eu oro muito, Deus é minha força. Mas também estudo bastante sobre saúde mental e, às vezes, vou ao parque; dependendo, também tiro um dia para mim.”

Ana Carolina Oliveira de Carvalho, 23 anos, é psicóloga e tem consciência da importância de cuidar de si para viver bem coletivamente. “Eu acho que começa da gente para poder ajudar o outro”, afirmou. Ela pratica exercícios, faz terapia e tenta de tudo para se manter bem. Uma coisa que Ana acredita ser essencial para lidar com o dia a dia estressante é cuidar da alimentação. “Exercício físico e cuidar do sono também são essenciais. Principalmente com relação ao sono, porque estamos muito acelerados e consumimos muito conteúdo”, comentou.

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Ana Carolina Oliveira de Carvalho  / Amanda Karolyne 

Como psicóloga, ela não conhecia a campanha do Janeiro Branco e achou interessante a ideia da conscientização no início do ano. “Eu diria que poucas pessoas sabem ainda. Vou pesquisar sobre, até porque preciso saber. É algo muito interessante”, complementou.

A bióloga Maria Eduarda Xavier de Souza, 23 anos, também não conhecia a campanha, mas acredita ser fundamental cuidar da mente. “Eu fazia terapia há um tempo, só que dei uma pausa devido à rotina.” Para ela, exercícios físicos e encontros com amigos são hábitos que, para além do tratamento médico, fazem a diferença. “Tem a rotina de sono também; tento manter de 7 a 8 horas por dia. Além dos estudos e da leitura”, acrescentou. Ela pensa em voltar às sessões de terapia em 2026. “É super relevante. A terapia salva vidas. Já salvou as das minhas sobrinhas”, citou.

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Maria Eduarda Xavier de Souza / Credito Amanda Karolyne 

Na família dela, o cuidado é sempre incentivado. “Minha mãe faz terapia e minhas irmãs também.” Mas ela frisou que estar perto de quem ama e ter momentos de respiro, como leitura ou estar ao ar livre ouvindo música, são vitais. “Porque tem aquela questão de que a terapia na rede pública hoje está bem difícil e muitas pessoas não têm recursos financeiros para buscar o atendimento particular, então é preciso se adequar a algo mais real”, concluiu.

SAIBA MAIS

Apoio na palma da mão A Secretaria de Saúde do DF (SES-DF) lançou a SAMia – Serviço de Assistência em Saúde Mental, uma assistente virtual voltada à saúde mental. O serviço é gratuito e anônimo.

  • O que faz: Orienta sobre fluxos de atendimento, oferece práticas de apoio e avalia riscos em situações de violência ou crise.
  • Como acessar: Pelo web app no site saude.df.gov.br/samia.
  • Importante: A ferramenta orienta o usuário sobre qual unidade de saúde procurar, mas não substitui o diagnóstico médico presencial.

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