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Saúde

Inca lança cartilha unindo candomblé e prevenção de câncer em mulheres negras

Material integra saberes ancestrais e conhecimentos científicos para promover exames e autocuidado.

Redação Jornal de Brasília

05/02/2026 8h25

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Candomblé de Joãozinho da Gomea. Salvador, Brasil (1946), Pierre “Fatumbi” Verger. Reprodução: Divulgação

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) lançou a cartilha ‘Saúde com Axé: mulheres negras e prevenção do câncer’, que integra saberes tradicionais de terreiros de candomblé à prevenção da doença em mulheres negras. Disponível na internet, o material explica os tipos de câncer mais frequentes nessa população, hábitos diários que aumentam ou diminuem o risco de desenvolver a doença, e os impactos do racismo e do racismo religioso no acesso ao diagnóstico e tratamento.

Com imagens de mulheres e famílias negras em destaque e referências à mitologia iorubá, a cartilha adota um formato de conversa para destacar, por exemplo, o poder da amamentação na prevenção do câncer de mama. Ela também indica sinais de alerta para o câncer de intestino e explica a transmissão do câncer de colo de útero pela via sexual. As figuras das yabás, orixás femininas, servem como referência para inspirar o autocuidado e uma vida plena, incentivando hábitos saudáveis e a realização de exames periódicos.

A detecção precoce é enfatizada como a principal forma de combater o câncer, com orientações sobre os principais exames para cada fase da vida. Elaborada para circular nos terreiros, a cartilha resulta da pesquisa ‘Promoção da Saúde e Prevenção do Câncer em Mulheres Negras’, realizada entre 2023 e 2025, em parceria com as casas de candomblé Ilê Axé Obá Labí, em Pedra de Guaratiba, zona sudoeste do Rio de Janeiro, e Ilê Axé Egbé Iyalodê Oxum Karê Adê Omi Arô, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

O material aborda como o racismo pode aumentar o risco de adoecer, dificultar o acesso aos serviços de saúde e ao tratamento, como no mito de que mulheres negras aguentam mais dor. Outras formas de discriminação incluem provocações sobre nomes religiosos em clínicas e exigências para remover fios de conta em hospitais, vistos como proteção espiritual.

Iyá Katiusca de Yemanjá, do terreiro Obá Labí, que participou da redação, relata provocações em unidades de saúde ao pedir ser chamada pelo nome religioso. Ela lidera um programa de saúde popular na comunidade e destaca que os terreiros sempre promoveram a saúde por meio de banhos de ervas, lavagens, chás e cuidados com a saúde íntima da mulher, especialmente para mulheres negras de periferia sobrecarregadas.

Mãe Nilce de Iansã, coordenadora-geral da Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde (Renafro), que se tratou de câncer de pulmão no Inca, enfatiza o racismo religioso como determinante social na vida das mulheres negras. Ela critica a discriminação contra indumentárias religiosas nos atendimentos médicos.

Os autores da cartilha afirmam que os terreiros são locais de acolhimento, cuidado e solidariedade, espaços de cultura e religiosidade afro-brasileira. Aproximar esses saberes ancestrais aos conhecimentos técnicos pode ajudar a prevenir o câncer, promovendo diálogo entre práticas tradicionais e científicas.

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