São Paulo, 28 – Um estudo publicado em novembro na revista científica The Lancet Child & Adolescent Health aponta que, nos últimos 20 anos, a prevalência de crianças e adolescentes com hipertensão arterial quase dobrou em todo o mundo. A taxa de indivíduos menores de 19 anos com pressão alta cresceu de 3,2% em 2000 para 6,2% em 2020, segundo a pesquisa, uma metanálise de 96 estudos envolvendo mais de 443 mil crianças de 21 países.
No total, cerca de 114 milhões de jovens são afetados pela doença no mundo, estimam os cientistas.
A obesidade é um dos fatores fortemente relacionados ao aumento da hipertensão infantil, de acordo com o estudo. Cerca de 19% das crianças e adolescentes com obesidade apresentaram pressão arterial elevada, contra 2,4% daquelas com peso saudável.
Para Andressa Mussi Soares, integrante da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), obesidade e sobrepeso estão entre os principais determinantes para o aumento de casos de hipertensão entre os mais jovens. “E, por mais que se trate de um estudo internacional, esse cenário é visível no Brasil. Alguns estudos nacionais também mostram que, conforme variam as taxas de obesidade infantil, cresce também a prevalência de pressão arterial elevada”, diz.
O estudo indica ainda que cerca de 9% das crianças e adolescentes apresentam hipertensão mascarada, condição em que a pressão alta só é identificada em exames clínicos feitos fora do consultório. Por outro lado, a prevalência da síndrome do jaleco branco (condição em que a pressão arterial fica elevada apenas quando a pessoa está em um ambiente médico, mas é normal em casa) foi estimada em 5,2%.
“A hipertensão na infância é mais comum do que se pensava anteriormente, e confiar apenas nas medições tradicionais da pressão arterial em consultório provavelmente subestima a verdadeira prevalência ou leva a diagnósticos errôneos de hipertensão em crianças e adolescentes”, diz a pesquisadora Peige Song, da Faculdade de Medicina da Universidade de Zhejiang (China), em nota.
“A detecção precoce e o acesso facilitado a opções de prevenção e tratamento são mais importantes do que nunca para identificar crianças com hipertensão ou em risco de desenvolvê-la. Abordar a hipertensão infantil agora é vital para prevenir futuras complicações de saúde à medida que as crianças fazem a transição para a idade adulta”, acrescenta autora.
A pressão alta é um dos principais fatores de risco para a ocorrência de acidente vascular cerebral (AVC), infarto e insuficiência renal e cardíaca.
Hipertensão na infância
Segundo Isabela de Carlos Back, médica integrante do Departamento Científico de Cardiologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a pressão arterial deve ser medida ao menos uma vez por ano a partir dos três anos de idade.
Ela lembra que a hipertensão é silenciosa, especialmente na infância, mas às vezes surgem sinais que servem de alerta, como dores de cabeça recorrentes, tontura, enjoos, ganho de peso e distúrbio do sono.
Além disso, algumas condições médicas podem estar relacionadas aos quadros de hipertensão na infância e adolescência. A principal delas é a doença renal, mas problemas como cardiopatias congênitas, algumas doenças endócrinas e o uso de medicamentos como corticoides também podem provocar o aumento da pressão arterial nessas faixas etárias, diz Isabela.
Outros fatores, como complicações durante a gestação, uso de cigarro durante a gravidez, tabagismo passivo, privação de sono e histórico familiar de hipertensão precoce, também podem favorecer o desenvolvimento de pressão alta na infância, segundo as especialistas.
Pré-hipertensão
O estudo estima que 8,2% das crianças e adolescentes apresentam pré-hipertensão, um sinal de alerta para o risco de hipertensão. O problema é mais comum na adolescência, com até 11,8% dos jovens atingindo a condição.
Para evitar a piora do quadro e sua evolução para a doença, as especialistas recomendam diminuição no consumo de sal e produtos ultraprocessados; aumento da ingestão de alimentos in natura, como frutas e verduras; prática regular de atividade física; controle do peso; sono adequado e redução da exposição às telas
“O ponto central é que mudanças simples, feitas precocemente, reduzem não só a pressão arterial, mas também o risco de aterosclerose (doença inflamatória causada pelo acúmulo de gordura na parede dos vasos sanguíneos), condição que pode se iniciar entre os 9 e 10 anos”, explica Andressa.
Estadão Conteúdo