A Fundação do Câncer lançou nesta quinta-feira (8) uma nova versão do Guia Prático de Prevenção do Câncer de Colo do Útero, como parte das ações do Janeiro Verde, mês dedicado à conscientização e prevenção da doença. A atualização, lançada dois anos após a primeira edição de 2022, incorpora mudanças recentes na vacinação contra o HPV e no rastreamento, com foco na transição gradual do exame Papanicolau para o teste molecular de DNA-HPV no Sistema Único de Saúde (SUS).
De acordo com Flávia Miranda Corrêa, consultora médica da Fundação do Câncer e doutora em Saúde Coletiva da Criança e da Mulher pela Fiocruz, as alterações incluem a ampliação do público-alvo da vacinação contra o HPV e a incorporação dos testes moleculares no SUS a partir de setembro de 2023. O processo de implementação ocorre de forma gradativa, iniciando em municípios de 12 estados e expandindo para mais regiões com apoio do Ministério da Saúde. Enquanto a transição não for concluída, o rastreamento citológico com Papanicolau continuará valendo nas localidades não cobertas.
O guia segue as novas Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, aprovadas pela Conitec, que preveem a substituição do Papanicolau pelo DNA-HPV. Luiz Augusto Maltoni, cirurgião oncológico e diretor executivo da Fundação, destaca que o novo exame detecta a infecção pelo HPV antes das alterações celulares, ampliando a detecção precoce e a efetividade da prevenção.
O público-alvo do rastreamento permanece o mesmo: mulheres de 25 a 64 anos. Com o teste molecular, mais sensível, o intervalo entre exames negativos pode ser estendido para cinco anos, contra três anos no Papanicolau. Resultados positivos para HPV 16 e 18, responsáveis por 70% dos casos de câncer cervical, levam a encaminhamento imediato para colposcopia. Para outros tipos oncogênicos, realiza-se citologia reflexa; se normal, o teste é repetido em um ano.
O Brasil adere à Estratégia Global da OMS para Eliminação do Câncer de Colo do Útero até 2030, com metas de vacinar 90% das meninas até 15 anos, rastrear 70% das mulheres com teste molecular e tratar 90% das casos diagnosticados. A vacinação, disponível no SUS desde 2014 para meninas e meninos de 9 a 14 anos, está em campanha de resgate para adolescentes de 15 a 19 anos até o primeiro semestre de 2026, visando recuperar a cobertura afetada pela pandemia e pelo movimento antivacina.
Flávia Corrêa enfatiza os três pilares da estratégia: prevenção primária pela vacinação, que impede a infecção pelo HPV; rastreamento secundário com o DNA-HPV, mais preciso e automatizado que o Papanicolau; e tratamento oportuno de lesões precursoras e câncer. A vacina quadrivalente protege contra os tipos mais associados ao câncer, e está disponível gratuitamente para grupos prioritários como pessoas com HIV, transplantados e vítimas de abuso sexual.
Para mulheres de 20 a 45 anos, a vacinação não é incorporada ao SUS e deve ser avaliada individualmente no setor privado. Profissionais do sexo, grupo de alto risco, ainda não estão incluídos, mas há discussões para expansão. O guia atualizado está disponível para consulta e download no site da Fundação do Câncer.