A atividade física, quando adaptada e acompanhada por profissionais, pode ser uma aliada de pacientes em tratamento contra o câncer para preservar autonomia, força e qualidade de vida. A orientação, porém, precisa respeitar as condições clínicas, os limites de cada pessoa e o momento do tratamento.
A experiência da profissional de educação física e gestora de academia Maria Erenice Mendonça, a Berê, ilustra esse processo. Diagnosticada com câncer em 2020, ela decidiu não abrir mão dos exercícios e, hoje em remissão, afirma que a prática ajudou a atravessar o tratamento com mais equilíbrio. Segundo ela, mesmo quando conseguia apenas realizar atividades leves, percebia melhora na forma como lidava com a rotina.
Os especialistas ouvidos na reportagem reforçam que não existe uma recomendação única para todos os pacientes. A oncologista Katia Marchetti afirma que a atividade física integra o cuidado oncológico quando há indicação clínica e acompanhamento especializado. Ela destaca que o exercício deve ser adaptado à condição clínica, às limitações do paciente e ao momento do tratamento, e lembra que, em muitos casos, a fisioterapia motora também é uma forma importante de manter o corpo ativo, especialmente entre pacientes mais frágeis.
De acordo com a médica, estudos indicam que o exercício realizado antes, durante e após o tratamento pode contribuir para manter a capacidade física, auxiliar no controle de alguns efeitos colaterais e favorecer a recuperação após procedimentos cirúrgicos. Em algumas situações, também pode estar associado a melhores desfechos clínicos. Ainda assim, ela ressalta que o excesso pode trazer consequências negativas, como lesões físicas ou ansiedade por não conseguir cumprir o que foi proposto.
A enfermeira Kelly Marques afirma que, no acompanhamento diário, pacientes que conseguem manter algum nível de atividade física tendem a apresentar mais autonomia para tarefas simples, preservar melhor a força muscular e relatar melhora do humor e da autoestima. Ela lembra que as orientações devem ser individualizadas e que sinais como febre, anemia importante, dor intensa, alterações laboratoriais, risco de infecção ou limitações decorrentes de cirurgias precisam ser avaliados pela equipe assistencial antes do início de qualquer exercício.
O fisioterapeuta André Luiz Maia explica que a prescrição deve considerar força muscular, mobilidade, equilíbrio, capacidade cardiorrespiratória, dor, fadiga, risco de quedas, além das características da doença e dos tratamentos realizados. Segundo ele, não basta orientar o paciente a se exercitar: é preciso definir qual atividade será feita, em que intensidade, com quais adaptações e qual nível de supervisão será necessário. Caminhadas podem ser adequadas para alguns pacientes, enquanto outros precisam priorizar fortalecimento muscular, exercícios de equilíbrio, mobilidade ou fisioterapia específica.
Ao final do tratamento, Berê diz acreditar que a atividade física foi importante para manter autonomia e confiança. Para ela, cada pequena conquista fez diferença no caminho percorrido. Os especialistas reforçam que, quando orientado por profissionais e ajustado às condições de cada paciente, o movimento pode contribuir para atravessar o tratamento com mais segurança e qualidade de vida.
Com informações da Agência Brasília