Pesquisadores brasileiros divulgaram o maior estudo global sobre os efeitos do vírus zika na infância, analisando 843 crianças com microcefalia nascidas entre janeiro de 2015 e julho de 2018, em regiões Norte, Nordeste e Sudeste do país. Coordenado pelo Consórcio Brasileiro de Coortes de Zika (ZBC-Consórcio), com dados de 12 centros de pesquisa, o trabalho foi publicado em 29 de dezembro de 2023 no periódico PLOS Global Public Health.
A pesquisadora Maria Elizabeth Lopes Moreira, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), destacou a relevância do estudo, que analisa o espectro da microcefalia associada ao zika, diferenciando-a de outras causas. Diferentemente de microcefalias comuns, onde o cérebro é simplesmente pequeno, a causada pelo zika envolve um colapso cerebral e ósseo, especialmente quando a infecção ocorre no segundo ou terceiro trimestre da gestação. Essa morfologia única é acompanhada de distúrbios neurológicos, auditivos e visuais, incluindo convulsões de difícil controle.
Entre os principais achados, a professora Cristina Hofer, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apontou anormalidades estruturais no sistema nervoso central em grande parte dos casos, detectadas por neuroimagem. A microcefalia ao nascer foi observada em 71,3% das crianças, com 63,9% dos casos graves, enquanto a microcefalia pós-natal afetou 20,4%. Outras complicações incluem prematuridade em até 20%, baixo peso ao nascer em média 33,2%, e malformações como epicanto (40,1%) e occipital proeminente (39,2%).
Alterações neurológicas frequentes englobam déficit de atenção social em cerca de 50%, epilepsia em 58,3% em média, e persistência de reflexos primitivos em 63,1%. Comprometimentos sensoriais afetam até 67,1% com alterações oftalmológicas e uma menor proporção com problemas auditivos. Exames revelaram calcificações cerebrais em 81,7%, ventriculomegalia em 76,8% e atrofia cortical em 50%.
Cerca de 30% das crianças estudadas faleceram, e as sobreviventes, com idades entre 8 e 10 anos, enfrentam desafios como inclusão escolar limitada devido a paralisia cerebral grave ou déficits de aprendizagem. O professor Demócrito Miranda, da Universidade de Pernambuco (UPE), enfatizou que o estudo consolida conhecimentos acumulados desde a epidemia de 2015-2016 no Brasil, epicentro global de microcefalia por zika.
Não há tratamento específico para o zika, mas as recomendações incluem prevenção com repelentes, roupas protetoras e evitar áreas infestadas pelo Aedes aegypti. Para as crianças afetadas, a estimulação precoce com fisioterapia e fonoaudiologia é essencial, aproveitando a neuroplasticidade infantil. Mesmo bebês sem microcefalia, mas cujas mães foram expostas, devem receber estímulos adicionais para mitigar atrasos de desenvolvimento.
O pesquisador Ricardo Ximenes, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), alertou para a necessidade de cuidados multidisciplinares vitalícios, com acesso desafiador no SUS, gerando sobrecarga para famílias, muitas chefiadas por mães solteiras. Maria Elizabeth defendeu o desenvolvimento de uma vacina para mulheres em idade fértil e o acompanhamento contínuo das crianças, especialmente na vida escolar, para investigar impactos de longo prazo.