GIULIA PERUZZO
FOLHAPRESS
A Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde do Reino Unido (MHRA, na sigla em inglês) alertou, na última quinta-feira (29), sobre casos de morte em decorrência de inflamação grave do pâncreas associada a medicamentos para obesidade e diabetes, como o Mounjaro (tirzepatida) e o Wegovy (semaglutida).
A recomendação da agência é que pessoas em uso dos medicamentos análogos à GLP-1 -conhecidos popularmente como canetas emagrecedoras- se atentem para dores abdominais intensas e persistentes, geralmente acompanhadas de náuseas e vômitos, além de orientar médicos a questionarem pacientes com esses sintomas sobre o uso dos medicamentos.
Célio Geraldo de Oliveira Gomes, gastroenterologista da Rede Mater Dei de Saúde e do Instituto Alfa de Gastroenteologia do Hospital das Clínicas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), explica que o risco de desenvolver pancreatite em pessoas que fazem uso desses medicamentos é baixo. Segundo ele, a hipótese para essa associação tem relação com “uma estimulação anormal das células do pâncreas, alterando a secreção e a composição das enzimas digestivas”.
Os efeitos dessa classe de medicamentos no pâncreas são uma preocupação desde o início dos estudos clínicos há 20 anos, afirma Bruno Halpern, vice presidente da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica) e diretor do Departamento de Obesidade da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia).
“Ao longo desses 20 anos, já saíram dezenas de estudos mostrando que a pancreatite é [um efeito adverso] extremamente raro”, afirma. Segundo Halpern, pessoas com diabetes e com obesidade têm maior risco de pancreatite, além de grandes perdas de peso pode levar a cálculos de vesícula biliar poder causar pancreatite. Essa relação, no entanto, não indica que o uso de canetas emagrecedoras causa a doença.
Felipe Rossi, cirurgião gástrico do Hospital e Maternidade Santa Joana, diz que um ponto importante é que é comum que os análogos de GLP-1 causem aumento nos níveis de enzimas pancreáticas, principalmente a lipase -que também é usada como marcador de indícios de pancreatite em exames. Mas ele afirma que, na grande maioria dos casos, esse aumento não indica que o paciente está com pancreatite.
“O diagnóstico da pancreatite é clínico, com sintomas de dor abdominal intensa e aguda associada a náuseas e vômitos e aumento da lipase em número três maior que o seu basal”, diz. Assim, a alteração discreta da lipase em exames de rotina de um paciente que usa esses medicamentos e que não tem sintomas, não deve ser motivo de alarme. Gomes complementa que a monitorização da lipase não é recomenada em exames de rotina, a menos que haja suspeita clínica de pancreatite aguda.
Os médicos dizem não haver comprovação científica robusta de uma associação entre o uso das chamadas canetas emagrecedoras e o desenvolvimento de câncer de pâncreas; nem que existe alguma diferença entre os princípios ativos tirzepatida e semaglutida no impacto no pâncreas.
Para prevenir que o uso das canetas emagrecedoras possa levar à um prejuízo no pâncreas, os especialistas dizem ser imprescindível o acompanhamento clínico. “Antes de iniciar o tratamento, é fundamental investigar se o paciente possui fatores de risco para pancreatite, como histórico prévio da doença, cálculos na vesícula, níveis muito elevados de triglicerídeos ou consumo excessivo de álcool”, diz Rossi.
Em nota, a Eli Lilly do Brasil (fabricante do Mounjaro) diz que a bula do medicamento “adverte que a inflamação do pâncreas (pancreatite aguda) é uma reação adversa incomum e aconselha os pacientes a conversarem com seu médico para obter mais informações sobre os sintomas de pancreatite e informar o
médico e interromper o tratamento em caso de suspeita de pancreatite durante o tratamento com Mounjaro.”
A Novo Nordisk afirma que existe uma advertência em todos os medicamentos da classe referente ao risco de pancreatite. “Vários fatores de risco estão implicados no desenvolvimento de pancreatite, incluindo diabetes e obesidade”, dizem em nota. “Os pacientes devem ser informados sobre os sintomas característicos e orientados a descontinuar o tratamento com semaglutida/liraglutida caso haja suspeita de pancreatite, e sugere-se ter cautela em pacientes com histórico de pancreatite prévia”