A popularização dos medicamentos subcutâneos para o tratamento da obesidade, conhecidos como canetas emagrecedoras, tem gerado intensos debates. Apesar de seus efeitos expressivos e endosso de sociedades médicas, esses remédios são usados sem acompanhamento profissional ou por pessoas sem obesidade.
Em entrevista ao programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, exibido na última segunda-feira (27), a professora Fernanda Scagluiza, das faculdades de Saúde Pública e de Medicina da USP, explica que o apelo das canetas surge da ‘economia moral da magreza’. Segundo ela, essa economia atribui significados diferentes aos corpos: o magro ou sarado é visto como virtuoso, resultante de esforço e controle, enquanto o corpo gordo é associado a preguiça, falta de disciplina e estereótipos como incompetência e falta de higiene.
Scagluiza destaca que, no jogo social, pessoas com corpos magros acumulam privilégios em relações de trabalho, educação e amorosas, enquanto gordos enfrentam opressão e perda de direitos. Padrões de beleza, que variam historicamente, sempre limitam a diversidade para alimentar indústrias que vendem soluções.
A especialista afirma que, atualmente, ‘nunca se é magro o suficiente’, com toda gordura sendo castigada pela gordofobia. Isso afeta especialmente mulheres, mas também pressiona outros grupos. O movimento de positividade corporal dos anos 2010 trouxe mudanças, mas concessões limitadas, e as canetas podem reforçar a magreza extrema, perigosa para crianças e adolescentes.
Para as mulheres, em um contexto de feminicídios, machismo e movimentos conservadores, a obsessão pela magreza atua como sedativo político, desviando o foco de lutas necessárias.
Scagluiza discute a medicalização do corpo saudável por padrões estéticos, transformando a alimentação em algo médico. Em estudo, usuárias das canetas chamam o medicamento de ‘vacina contra fome’, tornando a fome opcional e levando a comportamentos como restrição radical, náuseas usadas para não comer e perda de rituais alimentares. Isso ameaça a saúde física e mental, além de direitos como a alimentação saudável.