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Saúde

Câncer de colo do útero avança 14% no Brasil, indicam estimativas

Especialistas apontam que o estigma ainda compromete o enfrentamento da doença

Redação Jornal de Brasília

06/03/2026 21h11

São Paulo, 06 – Em plena pandemia, aos 34 anos, a apresentadora da Band Mirelle Moschella percebeu que algo estava errado após um episódio de hemorragia intensa. O sangramento fora do padrão a levou a procurar atendimento médico e realizar exames complementares. O diagnóstico foi câncer de colo do útero

Ela mantinha acompanhamento ginecológico regular e levava um estilo de vida saudável. “Sempre fiz meu check-up ginecológico. Costumava fazer os exames uma vez por ano, mas, na época do diagnóstico, o último havia sido dois anos antes. Sempre me cuidava e praticava atividade física. Mesmo assim, aconteceu. Fiquei em choque”, relembra.

Após passar por cirurgia, radioterapia e quimioterapia, Mirelle está em remissão há cinco anos. Ao tornar pública a experiência, passou a defender o rastreamento periódico e a atenção aos sinais do corpo.

“Existe muito tabu, mas é preciso quebrá-lo. O HPV é extremamente comum e pode afetar qualquer pessoa. Falar abertamente sobre isso é uma forma de prevenção”, diz Mirelle. Estima-se que oito em cada 10 pessoas sexualmente ativas terão contato com o vírus ao longo da vida.

Especialistas apontam que o estigma ainda compromete o enfrentamento da doença. “Há uma associação equivocada entre a infecção e promiscuidade. Estamos falando de uma condição amplamente disseminada na população. Reduzir o debate a comportamento individual é um erro e dificulta políticas de saúde eficazes”, afirma Valentino Magno, chefe do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Incidência em alta

Estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca) indicam que o Brasil deve registrar cerca de 19,3 mil novos casos anuais no triênio 2026-2028. No levantamento anterior, a previsão era de pouco mais de 17 mil casos por ano, alta aproximada de 14%.

O tumor é o terceiro mais frequente entre mulheres no País, desconsiderados os cânceres de pele não melanoma. Também é o que mais mata brasileiras até os 35 anos e figura entre os mais letais até os 60.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), quase 99% dos casos estão associados à infecção persistente pelo papilomavírus humano, o HPV.

Mobilização diante do avanço

O aumento projetado reforça a importância de ações como as do Março Lilás, mês dedicado à conscientização sobre o câncer de colo do útero.

Em São Paulo, a campanha “Por um Futuro Sem Câncer de Colo do Útero”, promovida pela MSD Brasil em parceria com a McCann Health, inaugurou nesta semana a Casa Lilás, espaço criado para ampliar o debate sobre prevenção fora do ambiente estritamente clínico. A programação reúne atividades interativas, especialistas e criadores de conteúdo em conversas sobre vacinação contra o HPV, rastreamento e autocuidado.

A atriz Juliana Paes participa como embaixadora da iniciativa. A proposta é que ela ajude a ampliar o alcance das mensagens de conscientização ao longo do ano, combinando presença em ações presenciais e conteúdo digital voltado à informação em saúde.

A estratégia também envolve influenciadores de diferentes áreas, como a divulgadora científica Mari Krüger, além de nomes ligados a comportamento e bem-estar. A proposta é traduzir recomendações médicas em linguagem acessível e aproximar o tema do cotidiano das famílias, incentivando a imunização e o acompanhamento clínico regular.

Para Alexandre Damasceno, diretor de Marketing e Operações de Vacinas da MSD Brasil, o desafio é transformar informação em mobilização. “Hoje, o câncer de colo do útero mata cerca de 20 mulheres por dia no Brasil. Esse cenário pode ser mudado por meio da vacinação contra o HPV, dos exames de rotina e do tratamento das lesões pré-cancerígenas. A prevenção é a principal ferramenta de combate à doença.”

Segundo ele, a Casa Lilás surge com a proposta de ampliar o alcance da conscientização. “Ela é a materialização física da campanha Março Lilás. Queremos transformar conscientização em experiência, criando um espaço acolhedor, que combine informação, diálogo e mobilização social.”

Proteção existe, mas cobertura é desafio

A maioria das infecções por HPV é transitória. O risco surge quando o vírus persiste e provoca alterações celulares que podem evoluir lentamente para o câncer, processo que pode levar décadas.

Para a ginecologista Susana Cristina Aidé Viviani Fialho, presidente da Comissão Nacional Especializada em Vacinas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), o principal desafio está na adesão à vacinação.

No Brasil, a vacina contra o HPV está disponível gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS) para meninas e meninos de 9 a 14 anos. Jovens de até 19 anos que ainda não se vacinaram também podem receber a dose, assim como vítimas de violência sexual de 15 a 45 anos, pessoas vivendo com HIV, pacientes transplantados e outros grupos específicos definidos pelo Ministério da Saúde.

Na rede privada, a versão nonavalente, que amplia a proteção para nove subtipos associados ao câncer, pode ser aplicada em homens e mulheres até 45 anos.

Apesar da oferta, a cobertura vacinal permanece abaixo das metas internacionais. Pesquisa do Instituto Locomotiva mostra que seis em cada 10 mulheres desconhecem que o vírus está ligado à quase totalidade dos casos de câncer de colo do útero.

“Temos milhares de casos todos os anos e quase 7.500 mortes estimadas em 2024. A vacina está disponível no Programa Nacional de Imunizações desde 2014 e hoje é indicada para meninas e meninos. Quando temos uma doença que pode ser prevenida, não é aceitável manter esse patamar de incidência”, afirma Susana.

Em 2020, a OMS lançou uma estratégia para eliminar o câncer de colo do útero como problema de saúde pública até 2030. “É possível atingir esse objetivo, mas depende de cobertura vacinal elevada e acesso ao rastreamento”, diz a ginecologista.

Além do exame de Papanicolau, o Ministério da Saúde vem ampliando no SUS o uso do teste de DNA-HPV, considerado mais sensível para identificar tipos de alto risco.

HPV também afeta homens

Além do colo do útero, a infecção por HPV está relacionada a tumores de pênis, vulva, vagina, canal anal e orofaringe.

“O HPV não é um problema apenas feminino. Entre os homens, ele tem impacto importante sobretudo nos casos de orofaringe, cuja incidência vem crescendo nos últimos anos. Diferentemente do tumor cervical, essas doenças não contam com rastreamento estruturado. Por isso a vacinação é fundamental”, afirma Rodin de Carvalho Fernandes, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e presidente da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).

Especialistas apontam que o aumento desses diagnósticos reflete uma mudança no perfil dos tumores de cabeça e pescoço. “Durante muito tempo, esses cânceres eram associados principalmente ao tabagismo e ao consumo de álcool”, afirma Magno. “Hoje sabemos que o HPV tem papel importante, especialmente nos casos de orofaringe.”

Estadão Conteúdo 

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