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Saúde

Associação faz campanha pelo direito à morte assistida com vídeo que aborda a eutanásia animal

A força do argumento está na decisão que parece natural no caso de um animal, mas que se torna impossível quando se trata de um ser humano.

Redação Jornal de Brasília

14/04/2026 23h17

eutanasia veterinaria

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IVAN FINOTTI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Um cachorro doente, em sofrimento, sem chance de cura. A tutora decide interromper a dor. Anos depois, é ela quem está em uma situação semelhante —mas, no Brasil, a pessoa não pode fazer a mesma escolha.


As cenas compõem “Cachorrinho”, filme publicitário que marca a primeira campanha da associação Eu Decido e que tenta levar para o debate público um tema ainda evitado no país: o direito de decidir sobre a própria morte.

A força do argumento está na decisão que parece natural no caso de um animal, mas que se torna impossível quando se trata de um ser humano.


No Brasil, a chamada morte voluntária assistida não é permitida. Trata-se da situação em que uma pessoa decide encerrar a própria vida de forma assistida, com supervisão médica, para evitar um sofrimento considerado intolerável.


A associação Eu Decido, criada em 2025, defende que a escolha sobre o fim da vida deve caber ao próprio indivíduo e busca ampliar a discussão no país.


“A Eu Decido acredita que cada pessoa é a única que pode decidir sobre seus cuidados de saúde e, em especial, sobre o fim da sua vida”, afirma a presidente da entidade, a advogada Luciana Dadalto, especialista em bioética e em testamento vital —documento que registra antecipadamente as decisões de uma pessoa sobre tratamentos médicos que deseja ou não receber caso não possa se expressar no futuro.


A estratégia parte de um reconhecimento: esse não é um debate que se resolve rapidamente.

Experiências internacionais mostram que discussões sobre o direito de morrer levam décadas antes de se consolidarem em leis.


Segundo defensores da causa, é um processo que pode durar cerca de 30 anos, como ocorreu em 16 países, entre eles Portugal, Espanha, Holanda e Bélgica.


Trata-se de um tempo necessário para que a sociedade assimile o tema, enfrente resistências morais, religiosas e médicas e, só então, avance juridicamente. Nesse contexto, o filme “Cachorrinho” funciona como um ponto de partida.


“A comparação do filme não é perfeita, uma vez que é a tutora que decide pelo cachorro, mas levanta uma reflexão importante: por que podemos escolher pelos nossos pets, mas não por nós mesmos?”, diz Dadalto.


A comparação do filme não é perfeita, uma vez que é a tutora que decide pelo cachorro, mas levanta uma reflexão importante: por que podemos escolher pelos nossos pets, mas não por nós mesmos?
advogada e presidente da associação Eu Decido


O debate costuma esbarrar em um tabu persistente. Segundo pesquisa de 2018 do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil, 73% dos brasileiros evitam falar sobre a morte. Em alguns casos, o silêncio chega ao ponto de virar superstição: cerca de 10% acreditam que falar sobre a morte pode atraí-la.


Como consequência, esse afastamento ajuda a empurrar decisões importantes para o fim da vida —muitas vezes quando já não há mais tempo, clareza ou autonomia para tomá-las.


Hoje, o país reconhece dois caminhos possíveis diante de doenças graves. Um deles é a distanásia, em que a vida é prolongada ao máximo, mesmo com sofrimento. Outro é a ortotanásia, que permite recusar tratamentos e evitar intervenções que apenas estendam o processo de morrer.


O que falta, para a Eu Decido, é uma terceira opção: a possibilidade de interromper a vida de forma assistida, por decisão do próprio paciente.


Um exemplo disso é o caso de uma filósofa brasileira de 74 anos que viajou à Suíça após sofrer um AVC e decidiu encerrar a própria vida, que ilustram o tipo de situação que alimenta o debate.


São pessoas que não necessariamente estão em estado terminal, mas que consideram sua condição incompatível com uma vida digna.


“Morrer com dignidade é um direito humano e um direito fundamental, devendo a pessoa ser a única responsável pela escolha do que é, para ela, uma vida digna. Entendemos ‘boa morte’ como aquela com o máximo possível de autonomia e autodeterminação”, diz a presidente.

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