Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
Por Adriano de Souza, Caetano Mota, Felipe Marazato e João Pedro Nogueira
No horário de almoço, de uma quarta-feira, como tantas outras, a rotina de Mauro Silva seguia como sempre. Cozinheiro do Restaurante Universitário da Universidade de Brasília (UnB), na Asa Norte, ele trabalhava na preparação do almoço dos estudantes sem imaginar que, em questão de segundos, sua vida mudaria para sempre. O acidente ocorreu em 25 de abril de 2012.
Um estrondo tomou conta do local quando uma panela de pressão industrial explodiu. Em segundos, o líquido e o vapor fervente atingiram o corpo de Mauro, que instintivamente se virou de costas para tentar se proteger. O maior impacto da explosão atingiu essa região, mas os braços e o rosto também sofreram queimaduras.
Atendido por uma equipe do SAMU, o funcionário foi levado ao Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), referência no tratamento de queimados no Distrito Federal. Ali teve início um demorado processo de recuperação, que ele descreve como “desesperador”.
Questionada, a Universidade de Brasília preferiu não comentar o que ocorreu na ocasião do acidente.
Além das cicatrizes
A recuperação de um sobrevivente de queimaduras vai muito além do tratamento das feridas. Enquanto enfrentava a ardência do corpo queimado, os enjoos causados pelos medicamentos, os delicados banhos para a limpeza da pele e a coceira provocada pela cicatrização, Mauro também precisou lidar com uma série de desafios emocionais.
Durante as duas semanas de internação, sem conseguir enxergar a própria face sob as bandagens, Mauro passou a conviver com uma dúvida: como estaria sua aparência quando os curativos fossem retirados? O medo de ter perdido o cabelo ou de carregar marcas permanentes no rosto esteve bastante presente no início do acompanhamento.
“Achava que o mundo tinha acabado para mim. Não desejo isso pra ninguém”, relembra.
Outra aflição envolvia o relacionamento que havia acabado de começar. Em 2012, quando o acidente ocorreu, Mauro tinha 47 anos e estava nos primeiros meses de namoro com Ana Luiza Campos, então com 39 anos. Diante das dúvidas sobre as possíveis sequelas, ele passou a temer que sua aparência mudasse a ponto de afetar a relação.
A insegurança, no entanto, não foi sentida apenas pela vítima. Ana Luiza também acompanhou de perto as incertezas da recuperação e se recorda da angústia provocada pela espera para saber como o companheiro ficaria após o acidente. “A sensação que eu tinha era que ele não seria mais o mesmo”, confessa.
Veja o depoimento completo da testemunha aqui.
Marcas na autoestima
Os receios vividos por Mauro não são incomuns entre sobreviventes de queimaduras. Segundo o psicólogo Pedro Barbosa, que atua há 15 anos no HRAN e há 9 especificamente na Unidade de Queimados do hospital, a autoestima está diretamente relacionada à forma como cada pessoa percebe a si mesma, sendo uma experiência profundamente subjetiva.
Quando o acidente deixa marcas consideráveis no corpo, é comum que a autoestima seja afetada e que os impactos emocionais se tornem significativos. No entanto, durante a internação, essas questões tendem a ficar em segundo plano.
“Na Unidade de Queimados, (a aparência) costuma ser uma preocupação secundária. A prioridade, naquele momento, é manter o paciente vivo. À medida que ele se restabelece e deixa a condição de risco, as questões subjetivas passam a ganhar mais espaço, e o acompanhamento psicológico se torna fundamental”, ressalta Pedro.

Mauro pontua que, por ser negro, as diferenças de pigmentação ajudaram a disfarçar parte das marcas deixadas pelo acidente. As áreas mais claras correspondiam ao tom natural de sua pele, enquanto as mais escuras eram resultado das queimaduras. Por isso, a insegurança com a aparência nunca se tornou uma questão central em sua vida.
Ele testemunha que “nunca”viveu um luto em relação ao próprio corpo. Ao longo da recuperação, também não enfrentou situações de preconceito por causa da aparência. Pelo contrário, destaca o apoio recebido de familiares, amigos e da equipe do HRAN, que considerou fundamental durante o tratamento.
Apesar do abalo psicológico provocado pelo episódio, Mauro afirma que a experiência trouxe uma nova perspectiva sobre a vida. “São nessas horas que a gente percebe que a família importa”, diz. Hoje, prefere olhar para frente. “Depois que passa do acidente, já foi. Tenta esquecer.”
Luto das mudanças
O psicólogo afirma que essa etapa pode ser acompanhada por uma espécie de luto. Segundo o especialista, o termo não está relacionado apenas à morte de alguém, mas à qualquer perda significativa vivenciada por uma pessoa.
“Trata-se de um processo psicológico que ocorre quando somos obrigados a lidar com a ausência de algo que fazia parte da nossa vida”, explica.
Nos casos mais graves, as consequências de uma queimadura podem ir muito além das cicatrizes, incluindo limitações funcionais, perda de tecidos e até amputações. Diante dessas mudanças, alguns pacientes precisam reconstruir a forma como enxergam a si mesmos e aprender a conviver com uma nova realidade corporal e imagética.
Pedro frisa, porém, que não existe uma resposta universal para esse processo. A forma como cada indivíduo vivencia essa perda depende tanto da intensidade das sequelas quanto do significado que atribui a elas.
Retorno à normalidade
A experiência de Mauro teve um desfecho positivo. Embora os médicos tenham identificado queimaduras em cerca de 30% do corpo e previsto um longo período de recuperação, quando finalmente retirou os curativos, o cozinheiro percebeu que a situação era menos grave do que imaginava.
Noite interrompida
Já se passaram 14 anos desde o acidente que mudou a vida de Mauro. Já para a publicitária Lara Andrade, de 22 anos de idade, apenas dois meses que sofreu queimaduras durante uma festa de aniversário. Segundo ela, uma lareira ecológica entrou em contato com álcool etílico e provocou uma explosão que atingiu duas pessoas.
A também publicitária Lara Moraes, 23 anos, estava no local e testemunhou o episódio. “Estávamos dançando e tirando fotos quando senti uma gota de álcool atingir meu olho, seguida pelo som de uma explosão. Quando consegui abrir os olhos, já havia gritos por todos os lados e pessoas em chamas. Foi tudo muito rápido”, relata ela, que não teve nenhum ferimento.

Lara lembra que, nos primeiros segundos, mal conseguia compreender o que estava acontecendo. “Eu só gritava e me debatia”, conta. Por sorte, havia uma piscina próxima. Depois dos momentos iniciais de desespero, conseguiu chegar até ela e se jogar na água.
“Foi um alívio instantâneo. Não apenas porque o fogo apagou, mas porque, naquele momento, eu percebi que estava viva.”
Com cerca de 20% do corpo queimado, ela foi levada de ambulância pelo SAMU ao HRAN, onde ficou internada para tratamento. A jovem sofreu queimaduras de primeiro a terceiro grau em diferentes regiões, do queixo às canelas.

Cabelo
Dois meses após o acidente, Lara já voltou para casa e tenta retomar a rotina aos poucos. As queimaduras nas áreas mais visíveis do corpo foram as menos graves e apresentaram uma boa cicatrização. Por isso, afirma não estar vivenciando um sentimento de luto, mas sim um processo de adaptação à forma como se vê.
Houve, porém, um momento que a assustou. Durante a internação, enquanto sua mãe passava a mão em seu cabelo, ela percebeu que havia perdido muito mais fios do que imaginava por causa do incêndio.
Negra e dona de longos cabelos cacheados desde a infância, ela lembra que os fios sempre fizeram parte de sua identidade. “Era uma das primeiras coisas que as pessoas reconheciam em mim”, pontua.
Em vez de encarar a mudança apenas como uma perda, Lara decidiu transformá-la em uma oportunidade de recomeço.
“No dia em que fui ao salão, pensei em fazer um corte ousado, algo que eu provavelmente não teria coragem de fazer em uma situação comum. Me arrumei, coloquei uma roupa bonita, fiz uma maquiagem e fui decidida a me sentir bonita.”

Autocuidado
Pedro Barbosa destaca que as questões relacionadas à autoestima não são necessariamente diferentes entre homens e mulheres. No entanto, segundo o psicólogo, é importante considerar que a aparência costuma ocupar lugares distintos nas experiências subjetivas vividas por cada gênero.
Segundo Lara, uma das formas de lidar com as mudanças tem sido redescobrir a própria imagem. Embora ainda não possa usar roupas curtas por causa da exposição ao sol, ela conta que passou a olhar para o guarda-roupa de maneira diferente.
“Nem todos os dias são bons. Às vezes, acordo sem me sentir bonita. Aí eu respiro, abro espaço para o autocuidado e busco alguma coisa que me faça bem, seja um penteado, uma roupa ou uma maquiagem”, diz.
A relação de Lara com o próprio corpo também mudou. “Agora preciso ter uma atenção redobrada. Além dos remédios e das precauções, passar cremes e hidratantes, beber mais água, cuidar da alimentação, praticar atividade física e cuidar da saúde mental são coisas que não podem ser negligenciadas”, afirma.

Segundo ela, essa rotina acabou fortalecendo sua relação consigo mesma. “Esses momentos de autocuidado, de certa forma, criaram uma proximidade maior comigo. Estou passando por uma redescoberta pessoal”, conta.
A jovem observa que passou a enxergar até as próprias marcas de outra forma. “Esses dias, olhei no espelho e disse: acho que essa cicatriz vai ser o meu charme.”
Acompanhamento psicológico
Lara também destaca a importância da terapia durante o tratamento. Em uma das atividades propostas pela psicóloga, ela foi incentivada a tocar as próprias cicatrizes enquanto verbalizava o que estava fazendo.
“Eu passava o creme e dizia para mim mesma o que estava acontecendo naquele momento. De certa forma, me ajudou muito a tornar aquilo real”, relata.
Além das questões relacionadas à autoestima, o acompanhamento psicológico – iniciado ainda durante a internação e mantido após a alta – a ajudou a lidar com outros medos.
“É muito ruim ter a sensação de incapacidade e de não conseguir fazer coisas que antes eram simples. A terapia tem me ajudado a entender que existe um tempo certo para tudo”, menciona.
Rede de apoio
Lara afirma que a rede de apoio foi e ainda tem sido essencial. Segundo a jovem, amigos cancelaram compromissos para passar tempo com ela nas semanas seguintes ao acidente, além da família e do namorado, que se revezaram entre noites mal dormidas no hospital e momentos de desabafo durante os períodos mais difíceis.

Pedro Barbosa destaca que a presença desse suporte é fundamental para a melhora dos resultados clínicos de sobreviventes de queimaduras. “Ela pode ser a diferença entre uma boa e uma má recuperação, por exemplo”, comenta.
A estudante de medicina Júlia de Souza, atualmente em período de internato – etapa prática da formação médica realizada em hospitais –, também enfatiza a importância desse suporte.
“Os principais desafios das queimaduras envolvem tanto a recuperação física quanto emocional. Como o tratamento costuma ser longo e exige cuidados específicos, percebo que a ausência de uma rede de apoio familiar ou social pode tornar esse processo muito mais difícil”, explica.
Avanços e desafios
A falta de informação em torno desses acidentes também chamou a atenção de Lara. Até antes do ocorrido, ela pontua que não tinha dimensão de como esse tipo de ocorrência é comum, nem de o quanto o tratamento pode ser longo e delicado.
“Eu sinto falta de ver esse assunto mais presente. Enquanto estive internada, percebi que existem diferentes tipos de queimaduras e que a população não sabe como agir em situações de emergência até a chegada do socorro”, diz.
O médico José Adorno, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ) e ex-diretor do HRAN, reforça essa percepção ao destacar que muitas pessoas ainda enxergam a queimadura apenas como uma lesão superficial, quando, na realidade, ela pode comprometer múltiplos sistemas do corpo, gerar risco de morte e deixar sequelas permanentes.
“Mesmo com todos os avanços, a melhor queimadura ainda é aquela que não acontece. A prevenção continua salvando mais vidas do que qualquer tecnologia disponível hoje”, frisa.
Nesse contexto, Adorno ressalta que, nas últimas décadas, o tratamento dessas lesões passou por uma revolução.
Hoje, recursos como curativos avançados, terapias por pressão negativa, substitutos de pele e um suporte intensivo mais eficaz reduziram a mortalidade, encurtaram o tempo de internação e melhoraram a recuperação dos pacientes.
Apesar dos avanços, o especialista afirma que o Brasil ainda registra alta mortalidade por queimaduras, com mais de 3 mil mortes por ano, incluindo cerca de 300 casos em crianças. “Muitas vítimas sobrevivem, mas convivem com sequelas físicas e estéticas de longo prazo”, diz.
De acordo com dados da Unidade de Queimados do HRAN, em 2025, o hospital realizou 6.934 atendimentos, entre eles 3.179 no pronto-socorro, 3.147 no ambulatório de queimaduras agudas e de sequelas decorrentes delas, 187 internações na enfermaria e 421 procedimentos no centro cirúrgico.
Protocolos e prevenções
Responsável em muitos casos pelo atendimento inicial de sobreviventes de queimaduras, o Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) orienta que, no primeiro momento, a área lesionada seja protegida com um pano limpo até a chegada do socorro especializado, evitando-se a aplicação de qualquer substância sobre a lesão.
Em relação às vítimas, é importante interromper o contato com o agente causador e retirar objetos como anéis e relógios, que podem dificultar a circulação.
O bombeiro militar Iago Soares reforça que, em muitos casos, a forma de agir no primeiro atendimento é determinante para evitar o agravamento das lesões. “Não estourar bolhas, nem passar pasta de dente, gelo ou tratar queimaduras em casa sem auxílio”, orienta.
Entre janeiro e maio de 2026, foram registradas 50 ocorrências no DF. Iago Soares ressalta ainda que a maioria dos casos de queimaduras está relacionada ao ambiente doméstico, seja por panelas de pressão, óleo quente, curto-circuitos ou velas acesas.
Supervisão de Vivaldo de Sousa e Luiz Claudio Ferreira