MATEUS VARGAS
FOLHAPRESS
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) afirma que a manipulação em casa de substâncias das canetas emagrecedoras expõe pacientes a graves riscos de contaminação e infecções.
Em alerta divulgado nesta quarta-feira (23), a agência diz que detectou publicações na internet com a ofertas de versões em pó de substâncias como a tirzepatida, que é o princípio ativo do Mounjaro, acompanhadas de tutoriais em que os próprios pacientes diluem e aplicam o produto.
A Anvisa afirma que não é possível comprovar que a substância contém o princípio ativo dos emagrecedores. Além disso, alerta que o uso de produtos contaminados pode levar a infecções graves.
“Ao injetar um produto contaminado, microrganismos podem ser introduzidos diretamente no organismo, sem as barreiras naturais de proteção da pele. Isso pode resultar em infecções no local da aplicação, com dor, vermelhidão, inchaço e formação de abscessos”, diz a Anvisa.
Em casos mais graves, a infecção pode se espalhar pela corrente sanguínea, causando uma condição conhecida como sepse, uma emergência médica que pode levar à internação, falência de órgãos e até à morte, alerta ainda o órgão sanitário.
A agência também afirma que localizou publicações mencionando a manipulação caseira do CBL-514, um peptídeo sintético que está em fase 2 de estudo, ou seja, que não tem autorização para a venda.
“Tomar um medicamento sem registro e ainda em fase de testes envolve riscos significativos, principalmente pela falta de evidências sólidas sobre sua segurança, eficácia e qualidade. Nessas condições, NÃO há garantias de que os benefícios esperados superem possíveis danos à saúde”, diz o órgão regulador.
“Um medicamento injetável precisa ser reconstituído em um ambiente que garanta a esterilidade, como um ambiente hospitalar ou um serviço de saúde que não traga risco de contaminação. Não temos esse tipo de produto registrado no Brasil”, diz a diretora Daniela Marreco, que é responsável pela área de medicamentos da Anvisa.
A diretora também afirma que a manipulação caseira pode levar ao produto que será injetado um microrganismo, como bactéria ou um vírus, que estava presente no ambiente.
“A gente não consegue garantir a esterilidade do produto, que é um dos aspectos que a Anvisa avalia quando aprova o registro de um medicamento. As pessoas precisam buscar medicamentos que estejam registrados no país.”
PRODUTOS REGULARES
As chamadas canetas emagrecedoras são medicamentos agonistas de GLP-1, hormônio produzido naturalmente pelo corpo humano que atua no controle dos níveis de glicose no sangue e nos mecanismos de saciedade. São indicadas para tratamento de diabetes e obesidade.
As principais marcas no mercado são compostas por semaglutida (Ozempic e Wegovy, da Novo Nordisk, além de marcas nacionais, como Ozivy, da EMS) e tirzepatida (Mounjaro, da Eli Lilly), esta última com atuação também no receptor do hormônio GIP.
Todas estas canetas têm registro da Anvisa, ou seja, tiveram eficácia, segurança e processo produtivo avaliados.
Existe forte pressão de consumidores, de parte da indústria e do universo político para ampliar a oferta e baixar os custos dos emagrecedores. O aumento do consumo para fins estéticos ou fora da bula (off-label), bem como a popularização de versões manipuladas e de medicamentos trazidos do Paraguai, porém, são pontos que preocupam associações e sociedades médicas.
A Anvisa diz que produtos contendo tirzepatida podem ser comercializados por farmácias de manipulação, desde que os paciente tenham “indicação e a devida prescrição médica emitida por profissional competente”. A venda ilegal pelas farmácias de manipulação é alvo de apuração da Polícia Federal.
A agência afirma que apenas produtos estéreis podem ser vendidos, ou seja, “completamente livre de microrganismos, como bactérias, fungos e outros agentes capazes de causar infecções”. “Quando um pó é fabricado sem os controles rigorosos exigidos para medicamentos injetáveis, pode conter contaminantes invisíveis a olho nu. Mesmo que o produto pareça limpo e esteja em uma embalagem lacrada, isso NÃO significa que seja seguro”, diz ainda o alerta.
Anvisa alerta para risco de contaminação em preparo caseiro de caneta emagrecedora ilegal
Agência afirma que não é possível comprovar que a substância contém o princípio ativo dos emagrecedores
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil