Um novo teste rápido para identificação do risco de Alzheimer começa a ser disponibilizado no Brasil e pode mudar a forma como a doença é detectada no país. A tecnologia, já utilizada em países como Alemanha, Itália, China e Austrália, permite identificar sinais biológicos associados à doença por meio de uma amostra de urina, com resultado em aproximadamente 10 minutos.
A proposta do exame é funcionar como uma ferramenta de triagem, ajudando a indicar quais pacientes devem ser encaminhados para investigação médica mais aprofundada antes mesmo do surgimento dos sintomas cognitivos.
Atualmente, o diagnóstico do Alzheimer ainda ocorre, na maioria dos casos, em fases mais avançadas da doença, quando a perda de memória, alterações de comportamento e comprometimento da autonomia já estão instalados. Esse atraso reduz as possibilidades de intervenção e aumenta o impacto sobre pacientes, famílias e o sistema de saúde.
Segundo estimativas, cerca de 2 milhões de brasileiros vivem com algum tipo de demência, sendo o Alzheimer responsável por 60% a 70% dos casos. Com o envelhecimento acelerado da população, a projeção é que esse número chegue a 5,7 milhões até 2050.
Estudos internacionais indicam que os processos neurodegenerativos associados ao Alzheimer podem começar décadas antes dos primeiros sintomas. O acúmulo da proteína beta-amiloide, por exemplo, pode ocorrer até 30 anos antes da manifestação clínica da doença.
É justamente nesse estágio inicial que o novo exame busca atuar. Ao identificar biomarcadores relacionados à beta-amiloide, o teste pode sinalizar o risco da doença precocemente, permitindo que o paciente passe a ser acompanhado antes da progressão dos sintomas.
De acordo com Giuliano Araújo, CEO da Biocon Diagnósticos, empresa responsável pela aprovação do teste no Brasil, a tecnologia não substitui o diagnóstico médico, mas pode representar uma porta de entrada mais acessível para a investigação.
“Hoje, exames como PET Scan, testes laboratoriais avançados e punção lombar são caros, invasivos ou pouco acessíveis. A proposta é oferecer uma alternativa rápida, não invasiva e com menor custo, ampliando o acesso à triagem”, afirma.
O impacto econômico também é um dos diferenciais. Enquanto exames laboratoriais avançados podem custar entre R$ 3.900 e R$ 4.482, e exames de imagem ultrapassam R$ 9 mil, o novo teste deve chegar ao consumidor final por valores entre R$ 500 e R$ 600.
Além da redução de custos, a triagem mais acessível pode contribuir para organizar a jornada do paciente dentro do sistema de saúde, direcionando exames mais complexos para casos com maior probabilidade de risco.
A chegada da tecnologia ocorre em um momento de mudança na abordagem global das demências. Relatório recente da Comissão Lancet aponta que cerca de 45% dos casos de demência podem ser potencialmente prevenidos ou retardados com o controle de fatores de risco ao longo da vida, como hipertensão, diabetes, sedentarismo, tabagismo, isolamento social e baixa escolaridade.
Nesse cenário, identificar o risco antes do aparecimento dos sintomas passa a ser estratégico. A antecipação permite intervenções como acompanhamento neurológico, estímulo cognitivo, mudanças no estilo de vida e controle de condições associadas.
A tecnologia foi desenvolvida com base em estudos internacionais que envolveram mais de 4 mil participantes e apresenta sensibilidade inicial em torno de 75%, com avanços em pesquisas recentes.
A base científica do exame está ligada a pesquisas conduzidas por centros internacionais de referência em neurociência, incluindo estudos que consolidaram a chamada hipótese amiloide — uma das principais explicações para o desenvolvimento do Alzheimer.
O avanço também acompanha mudanças no tratamento da doença. Em dezembro de 2025, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o lecanemabe, medicamento indicado para pacientes em estágio inicial do Alzheimer, com comprometimento cognitivo leve e confirmação da presença de patologia amiloide.
Nesse contexto, a identificação precoce do risco pode facilitar o encaminhamento adequado para terapias e acompanhamento especializado.
Mais do que um avanço tecnológico, a chegada do teste reacende uma discussão mais ampla sobre o modelo de saúde no país. Especialistas apontam que o Brasil ainda concentra esforços no tratamento de doenças já instaladas, enquanto estratégias de prevenção e diagnóstico precoce permanecem menos difundidas.
Com o envelhecimento da população, cresce a necessidade de repensar esse modelo. A possibilidade de antecipar o risco do Alzheimer pode influenciar tanto decisões individuais quanto políticas públicas, ampliando o foco em qualidade de vida, autonomia e envelhecimento saudável.
A discussão deve ganhar força nos próximos anos, à medida que novas tecnologias ampliem as possibilidades de prevenção e reorganizem a forma como o país enfrenta as doenças neurodegenerativas.