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Saúde

45 anos depois, Aids ainda atrai preconceito e mata milhares por ano no Brasil

O Ministério da Saúde destaca que o número de pessoas com 60 anos ou mais com HIV aumentou 46,2% na última década

Redação Jornal de Brasília

05/06/2026 6h48

Foto: DIBYANGSHU SARKAR / AFP

LUIS EDUARDO DE SOUSA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

O ano de 1981 foi marcante para o Brasil. O país rumava para o fim da ditadura militar, com o atentado do Riocentro e a abertura política sob João Figueiredo. Pelé foi eleito “atleta do século” pelo jornal francês LÉquipe. Silvio Santos inaugurou o SBT.

Um abalo sísmico contrário, porém, chegou pelo noticiário de saúde: em 5 de junho daquele ano, os Estados Unidos identificaram o começo de uma epidemia de Aids que se tornaria global e atingiria também a sociedade brasileira pelos 45 anos seguintes, completos nesta sexta-feira (5). Quase meio século depois, o país ainda amarga duros índices, com milhares de novos diagnósticos e mortes por ano.

Desde 1982, quando a epidemia chegou ao Brasil, 1,6 milhão conviveram com o HIV. Destes, 1,1 milhão de casos progrediram para Aids, segundo o DataSUS. Até o fim de 2024, 402 mil pessoas morreram pela doença.

O vírus que encurtou a vida de Cazuza (1990), Freddie Mercury (1991) e Renato Russo (1996) contaminou 25.571 pessoas no ano passado e matou 9.157 em 2024 no Brasil.

Vista então como uma sentença de morte, a Aids ganhou tratamentos que derrubaram sua letalidade. O estigma, contudo, permanece como um obstáculo à eliminação da doença, afirma Alvaro Costa, infectologista do Hospital das Clínicas e sub-investigador da Unidade de Pesquisa do Centro de Referência e Tratamento DST/Aids.

“Nos anos 1990, era uma doença fatal, com expectativa de vida curta e intenso estigma. Hoje, é uma doença crônica tratada: os pacientes têm uma ótima qualidade de vida, remédios disponíveis no SUS e prevenção. Mas o estigma é o mesmo. As pessoas ainda se escondem, têm medo e são julgadas”, diz.

Para o médico, não se trata apenas de narrativa. O estigma impede um debate sério sobre a doença e novos tratamentos.

“Existem bons estudos, com robustez, com comprometimento. Mas diferentemente do câncer, por exemplo, o HIV ainda remete a tabu, à sexualidade das pessoas e à discussão moral”, afirma Costa.

Há exemplos recentes de retrocesso ligado ao conservadorismo. Em 2025, o governo Donald Trump promoveu uma série de cancelamentos de programas sobre HIV/Aids nos Estados Unidos. Também cortou bilhões de dólares em ajuda externa.

A Aids completa 45 anos sem cura e sem vacina, mas há avanços em tratamento e prevenção. Se nos anos 1990 pacientes com HIV precisavam tomar mais de 20 comprimidos ao longo do dia, em esquemas complexos e com efeitos colaterais severos, hoje é possível controlar a infecção com um único comprimido diário.

Os antirretrovirais modernos reduzem a carga viral a níveis indetectáveis, impedindo a transmissão sexual do vírus.

Outro marco foi o surgimento da PrEP (profilaxia pré-exposição), adotada na década de 2010 em diversos países e em 2017 no SUS. O método consiste no uso de antirretrovirais por pessoas que não têm HIV, mas apresentam maior risco de exposição ao vírus. Quando utilizada corretamente, a PrEP reduz em 99% a chance de infecção e é hoje uma das principais formas de prevenção da doença.

O acesso a essas ferramentas, contudo, ainda é desigual, avalia Costa. “O que vemos no Brasil é uma boa rede de apoio nos grandes centros, sobretudo no Sudeste, e o interior desfavorecido. Temos médicos que ainda não conhecem PrEP, municípios sem testagem, pessoas sem informação. O controle da Aids depende de ações integradas: PrEP, camisinha e testagem. Se algum deles falha, há prejuízos”, afirma.

Vando Oliveira, 55, recebeu o diagnóstico de Aids em novembro de 1998. Acompanhou, ao longo de 28 anos, as mudanças nas estratégias de saúde para conter a doença e viu avanços e retrocessos, afirma.
“O preconceito ainda não está vencido, e a Aids saiu de pauta. Todo dia tem gente se infectando, todo dia tem gente morrendo. Não se pode baixar a guarda”, diz.

Ele conta que já havia medicação disponível quando recebeu o diagnóstico, mas foi tomado por uma insegurança sobre o futuro. “Como eu ia chegar em casa e dizer à minha filha que eu tinha Aids? Como contar para os meus amigos? Mais do que sofrer preconceito, era expor pessoas que você ama ao julgamento alheio.”

Hoje coordenador da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV no Ceará, Oliveira diz que diariamente conhece novas histórias com o mesmo dilema, que castiga principalmente as pessoas em maior vulnerabilidade.

“O perfil de quem tem Aids é a pessoa pobre, negra e periférica. Justamente quem tem menos informação, renda e acesso à saúde. Lidamos com 900 famílias que dependem de cesta básica para se alimentar. Quantas estão sem pedir? Há pessoas vivendo com HIV e com fome. Como se toma remédio com fome?”, questiona.

Oliveira avalia que houve nos últimos anos um afrouxamento das políticas sobre Aids, decorrente de uma falsa percepção de que a doença não mais representava perigo, influenciada pelos avanços no tratamento.

“Hoje eu tomo remédio todo dia e vivo bem, mas ainda há muita gente com Aids no Brasil sem remédio, vide o número anual de mortes. Isso o Estado não pode permitir”, diz.

De acordo com o boletim epidemiológico de Aids de 2025, o Brasil registrou em 2024 uma taxa de 3,4 óbitos para cada 100 mil habitantes, o menor índice de mortalidade da série histórica. De 2023 para 2024 houve queda de 12,8% no número de mortes, passando de 10.500 para 9.157.

O perfil de quem se infecta mudou ao longo das décadas. Após anos de feminização, a epidemia voltou a se concentrar em homens. Em 2024, havia 28 homens vivendo com HIV para cada 10 mulheres.

Pretos e pardos representavam 59,7% de todos os novos registros, enquanto a participação de pessoas brancas caiu para 36,8%. Por fim, o documento do Ministério da Saúde destaca que o número de pessoas com 60 anos ou mais com HIV aumentou 46,2% na última década.

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