Brasília, 15 – O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, decretou ontem a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, nova denominação da Reag DTVM. A Polícia Federal investiga se fundos da gestora foram usados em fraudes junto ao Banco Master, liquidado em 18 de novembro do ano passado. Na quarta-feira, o fundador da Reag, João Carlos Mansur, foi alvo da PF na segunda fase da Operação Compliance, que apura irregularidades no Master.
Além de liquidar a gestora de recursos, o BC alertou o Ministério Público Federal sobre transações relâmpagos feitas por vários fundos da Reag a partir de um empréstimo do Master.
De acordo com o BC, a liquidação da Reag ocorreu porque a empresa teria agido como “facilitadora de ilícitos”, além de ter “violado leis e normas sobre gerenciamento de riscos, compliance e auditoria interna”. A avaliação da autoridade monetária foi a de que regimes menos extremos, como a intervenção na instituição, seriam insuficientes para sanar os problemas da Reag. Na mesma decisão, o BC comunicou a indisponibilidade de bens de controladores e ex-controladores da gestora, inclusive Mansur.
A liquidação foi determinada pela diretoria colegiada do BC, composta pelo seu presidente, Gabriel Galípolo, e mais oito diretores. Os votos são dados de maneira secreta para evitar vazamentos entre a decisão do colegiado e a ação que deve ser tomada na sequência. Pelo regimento da autoridade monetária, coube ao diretor de Fiscalização, Ailton Aquino, propor a ação.
Galípolo nomeou como liquidante a APS Serviços Especializados de Apoio Administrativo Ltda., tendo como responsável técnico Antonio Pereira de Souza. Ele já trabalhou ao menos na liquidação do Banco Bamerindus.
Apesar de a decisão ter sido anunciada um dia após a operação da PF na quarta-feira, a iniciativa de liquidar a gestora de recursos já estava no radar do BC há tempos, segundo apurou o Estadão/Broadcast.
Conforme apurou a reportagem, todo o processo seguiu o rito normal. Além de se tratar de uma longa investigação, que envolve a coleta e validação de provas, esse tipo de processo é enviado para a diretoria do BC e votado, e o liquidante, mobilizado para assumir a instituição. Por isso, tudo precisa ser feito com antecedência.
Também houve o cuidado do BC em coletar o maior número de documentos para respaldar a decisão e evitar questionamentos, como ocorreu no caso do Master.
OUTRAS INVESTIGAÇÕES
Na primeira fase da Compliance Zero, a PF investigou um esquema de vendas de carteiras de crédito inexistentes pelo Master ao Banco Regional de Brasília (BRB). Vorcaro foi preso em 17 de novembro, um dia antes da liquidação do Master. Ele foi solto 12 dias depois.
Foi o próprio BC que alertou a PF e o Ministério Público Federal (MPF) sobre o suposto esquema bilionário entre Master e Reag, que agiria como operadora da triangulação de recursos oriundos de fraudes.
A gestora já havia sido alvo de outras investigações. Em agosto ano passado, a empresa entrou na mira da Operação Carbono Oculto, que apura esquema de lavagem de dinheiro envolvendo o Primeiro Comando da Capital (PCC).
A Reag se disse vítima da Carbono Oculto. A PF fez uma devassa nas contas da holding de Mansur – o que reforçou os indícios de que a gestora criava fundos de investimento e comprava empresas para blindar o patrimônio de grupos criminosos. Acusações que a empresa nega.
Gestora foi a maior entre as independentes
Fundada em 2012 pelo empresário João Carlos Mansur como uma administradora de recursos, a Reag era, até julho do ano passado, a maior gestora independente do País, com R$ 341,5 bilhões sob administração, segundo ranking da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
Era também a segunda maior gestora do mercado de Fundos de Investimento em Participações (FIP); tinha o terceiro maior patrimônio sob gestão em Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e a segunda maior participação nos fundos multimercados.
Mansur tem influência em outras áreas. No futebol, é conselheiro do Palmeiras. Na cultura, a Reag patrocinava o Cine Belas Artes, um dos mais relevantes cinemas de rua de São Paulo, até novembro
Em agosto de 2025, uma operação conjunta da Polícia Federal, Polícia Militar de São Paulo, promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) das Receitas Estadual e Federal deflagraram a Operação Carbono Oculto, com o objetivo de combater a infiltração do crime organizado na economia formal do País. Segundo as investigações, o grupo que foi alvo da operação dominava a cadeia produtiva no setor de combustíveis, inclusive promovendo adulteração de produtos, e utilizava dinheiro ilícito obtido com a prática de crimes para comprar empresas. Parte dessa cadeia foi capturada pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), que usou a estrutura para lavar dinheiro do tráfico de drogas.
As supostas ligações da Reag com o crime organizado apareceram em uma investigação do Gaeco, do Ministério Público do Estado de São Paulo. Um documento do Gaeco apontou que a gestora tinha presença estruturada em operações com usinas de açúcar e etanol controladas pelo PCC no interior do Estado. A Reag Administradora de Recursos e um dos seus sócios aparecem como representantes legais da Usina Itajobi, de Catanduva (SP). A propriedade foi comprada por meio do fundo Mabruk II, gerido pela Reag e cujos recursos, de acordo com o MPSP, e pertence a uma pessoa apontada como principal suspeito de lavagem de dinheiro do PCC.
Estadão Conteúdo