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Política & Poder

Terceira via chega à eleição sem empolgar e pressionada por voto útil; especialistas apontam motivos

Ao menos duas pesquisas divulgadas nesta segunda-feira, 28, indicam que o apelo do voto útil tem sido um desafio

Redação Jornal de Brasília

30/09/2026 6h29

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A menos de uma semana das eleições presidenciais, os candidatos da terceira via na disputa presidencial não apenas não conseguem emplacar nas pesquisas, rompendo a polarização, como têm sido pressionados por aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL), em meio à disputa acirrada com o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ao menos duas pesquisas divulgadas nesta segunda-feira, 28, indicam que o apelo do voto útil tem sido um desafio a Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante).

Especialistas ouvidos pelo Estadão citam cristalização, número de candidatos, força das imagens de Lula e Bolsonaro e incapacidade de formular um discurso alternativo como razões para que a terceira via não tenha decolado pela terceira eleição consecutiva.

A pesquisa Quaest, divulgada nesta segunda-feira, 28, mostra o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, com 39% das intenções de voto, seguido por Flávio Bolsonaro, com 34%. Na sequência aparecem Augusto Cury, com 4%; Ronaldo Caiado, também com 4%; Renan Santos, com 3%; e Romeu Zema, com 1%. O cenário é semelhante ao registrado em 2022 na mesma altura da disputa, quando a pesquisa Quaest apontava uma vantagem de 27 pontos porcentuais do segundo colocado sobre o terceiro.

Para o professor do Insper e cientista político Leandro Consentino, a decisão de voto nos líderes das pesquisas já está muito mais cristalizada. Segundo ele, além da polarização, a vasta quantidade de nomes ligados à direita também ajudou a pulverizar os votos entre candidatos como Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema. Contudo, o problema é mais complexo: “Há uma incapacidade dos demais postulantes de formular qualquer discurso alternativo. Se você olhar o que está aparecendo aí, é muito mais do mesmo, quase uma espécie de bolsonarismo do B”. “Acho que, se houvesse uma candidatura à direita que não fosse bolsonarista e não fosse radical, talvez tivesse mais sucesso. Se não flertasse com o bolsonarismo, dizendo ‘vou indultar o ex-presidente, vou assumir pautas dele’, talvez ela tivesse crescido um pouco mais e a história pudesse ser diferente em alguma medida.”

Na mesma linha, o cientista político Vinicius Lima afirma que Jair Bolsonaro segue forte na mente do eleitorado, o que dificultou o caminho de nomes mais ligados à direita: “A presença de Flávio como candidato que representa o pai nessa corrida desfavorece o surgimento de novos arranjos competitivos à direita que não gravitem em torno do bolsonarismo. Neste contexto, optar por outra candidatura de direita como alternativa ao antipetismo parece muito pouco provável nessa eleição”, apontou ele.

Ao contrário da direita, o campo da esquerda aparece esvaziado para Leandro Consentino, com Lula reunindo os principais partidos e apenas legendas menores lançando candidatos. Dos cinco nomes deste campo que aparecem na disputa — Lula, Samara Martins, Rui Costa Pimenta, Edmilson Costa e Hertz Dias — apenas o candidato do PT ultrapassou a marca de 1% nas pesquisas. “O Lula soube, vamos dizer assim, esvaziar todos os postulantes que poderiam ser colocados ao seu redor. Ele tira o PSB da jogada, neutraliza a própria Rede, com a Marina Silva estando no seu bloco. Então, a esquerda não é tanto um problema. Ela está ali só se apresentando naquelas candidaturas nanicas de sempre: PSTU, PCO, PCB…”

Voto útil é desafio para candidatos fora da polarização

Sempre motivo de discussão, o voto útil, apontado como elemento de pressão em torno dos candidatos nas últimas pesquisas, pode ser impulsionado pelos próprios nomes que lideram a corrida à Presidência e pela dinâmica de polarização da disputa. Como explica Vinicius Lima, “considerando que vivemos um ambiente político em que a definição e o fortalecimento de um grupo são impulsionados por uma lógica de oposição ao que se considera como pior adversário”.

Nesse cenário, a percepção de que um dos principais candidatos representa o “pior cenário” pode levar o eleitor a se coordenar em torno de outro candidato com maior capacidade de enfrentá-lo. “O eleitorado está novamente muito mais orientado pelas duas candidaturas polarizadoras, tanto à esquerda, com o Lula, quanto à direita, com o bolsonarismo”, afirma o professor do Insper Leandro Consentino.

O Estadão procurou as equipes dos candidatos Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema para falar sobre a campanha, mas nenhum deles se manifestou.

Cenário para 2030 pode liquidar polarização

A disputa de 2026 pode definir não apenas o próximo presidente, mas também quais lideranças terão espaço na política brasileira nos anos seguintes. Nomes como Tarcísio de Freitas e Renan Santos, são alguns dos nomes cotados para a próxima disputa. Outros que frequentemente são citados, a depender do resultado que terão na corrida deste ano, são o ex-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), que concorre ao Palácio Guanabara e lidera as pesquisas, e o ex-prefeito do Recife, João Campos, que trava uma disputa acirrada com a atual governador, Raquel Lyra, em Pernambuco.

Para o professor Leandro Consentino, 2026 pode ser justamente o ponto de transição entre a atual polarização e uma nova configuração política em 2030. “O campo da esquerda não vai ter o Lula novamente na cédula em 2030. Vencendo, não há possibilidade; perdendo, dificilmente ele concorreria, pensando nas eleições e na própria biografia política dele também. No caso do Flávio, se ele vencer, tem mais quatro anos. Mas, se não vencer, acho que se encerra também um ciclo importante no bolsonarismo. O bolsonarismo perde o seu monopólio na direita. Então, de toda forma, acho bastante difícil que essa polarização persista em 2030”, completa.

Estadão Conteúdo

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