ADRIANA FERNANDES
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
Três meses antes de ser preso pela Polícia Federal e de ver o Banco Master ser liquidado pelo Banco Central, Daniel Vorcaro ainda tinha planos grandiosos para o seu futuro no setor bancário.
“Sou jovem. Tenho só 41 anos e um mundo pela frente”, disse ele a três interlocutores em agosto de 2025, na sala principal da sua mansão de 1.700 m² no Lago Sul, bairro nobre de Brasília. Ele reunira o grupo numa roda de quatro cadeiras imponentes em torno de uma mesa central com tigelas contendo pistaches frescos, servidos com acompanhamento de café expresso e água mineral francesa.
A frase foi dita em resposta à expectativa no setor de que ele seria banido do mercado bancário pelo BC.
Ambicioso, Vorcaro costumava dizer que teria uma trajetória semelhante a de André Esteves, o dono do BTG Pactual -hoje entre os maiores bancos do país.
Àquela altura, o tempo estava se esgotando para o Banco Master. Vorcaro tentava sobreviver vendendo ativos pessoais e buscava a aprovação de uma linha de empréstimo de até R$ 15 bilhões do FGC (Fundo Garantidor de Créditos). O objetivo era cobrir o pagamento de CDBs (Certificados de Depósito Bancário) que iriam vencer.
Ele tinha estado pouco tempo antes na Europa, onde contou ter se reunido com investidores árabes interessados em virar sócios da parcela do Master que não seria adquirida pelo BRB, o banco estatal de Brasília.
Um possível apetite de investidores árabes pelo Master era uma história que Vorcaro repetia à exaustão ao FGC, pelo menos desde que o Master passou a enfrentar dificuldades para pagar os seus CDBs.
Vorcaro reclamava do BC e afirmava preferir uma intervenção à demora do órgão regulador na avaliação da instituição financeira pelo BRB. Segundo ele, a demora fazia o Master sangrar.
O anúncio de aquisição de 58% do Master pelo Banco de Brasília completa um ano neste sábado (28), e o caso ainda está longe de ser elucidado. Em setembro de 2025, a diretoria colegiada do BC vetou por unanimidade a operação.
Nos últimos dois meses, a Folha de S. Paulo analisou documentos, públicos e sigilosos, conversou com investigadores e pessoas ligadas direta ou indiretamente ao caso, apontado com o maior escândalo financeiro da história do Brasil e que pode gerar um rombo superior a R$ 60 bilhões.
O resultado é uma série de cinco capítulos que tem início com os acontecimentos anteriores a 28 de março de 2025, quando o BRB chamou a atenção do mercado ao anunciar o acordo com Vorcaro para compra de fatia do Master.
CRESCIMENTO ACELERADO
A partir do segundo semestre de 2019, depois que o BC autorizou a transferência do controle acionário do banco Máxima (futuro Master) para Vorcaro, o conglomerado teve forte crescimento com aportes de capital e captações de CDBs intermediadas por plataformas de investimento.
Até 2024, os ativos totais do Master passaram de R$ 3,7 bilhões para R$ 82,7 bilhões. Boa parte do crescimento das captações veio de compras de outros bancos: Vipal, Banif Brasil, Voiter, Letsbank e a Will Financeira.
Nenhuma dessas aquisições até então indicava riscos desproporcionais nos processos internos do BC, segundo pessoas a par do tema.
Banqueiros e integrantes do mercado reportavam, no entanto, desconfianças com o tipo de negócio do Master. O BC passou então a examinar onde o banco investia os recursos captados. Os maiores problemas estavam em participações societárias em empresas, empréstimos corporativos, precatórios e nos CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários).
Entre 2022 e 2024, o BC emitiu 31 ofícios com determinações de ajustes e provisões, reforço de capital e melhorias nas práticas de gestão do Master, de acordo com relatos e documentos obtidos pela reportagem.
O caso que mais chamou a atenção foram os empréstimos do Master para pessoas jurídicas. Em 2023, quando era diretor do BC, Paulo Sérgio Neves de Souza recebeu do então presidente do BC Roberto Campos Neto a incumbência de verificar carteiras de crédito de empresas e fundos ligados ao banco.
O relato repassado por ele à diretoria foi de que as operações de PJ do Master paravam de pé, de acordo com duas pessoas a par do tema.
Paulo Sérgio é hoje investigado sob suspeita de ter manipulado informações sobre a atuação do Master para driblar alertas e investigações internas.
O receio no mercado também era forte em torno dos negócios do Master com precatórios. A preocupação era de que esses ativos estavam lançados com valor acima do mercado.
O escritório Galdino & Coelho foi contratado para fazer um parecer. Segundo o advogado Diogo Rezende, o Master contratou a firma para fazer parecer a ser enviado ao BC sobre a chance desses direitos creditórios contra a União serem efetivados, além da previsão de prazo para o recebimento do dinheiro.
Não foi feita uma análise se o preço desses ativos estava justo no balanço do banco.
Com o avanço das investigações, em 2025, descobriu-se que o Master não tinha apenas R$ 8 bilhões de precatórios e pré-precatórios, como constava no balanço, mas R$ 21 bilhões, ou seja, R$ 13 bilhões estavam escondidos na estrutura opaca de fundos de investimento, de acordo com técnicos do BC.
A partir do segundo semestre de 2024, Vorcaro passou a enfrentar dificuldades para rolar os CDBs, em parte devido à crise de credibilidade que começava a alcançar clientes de varejo. Algumas plataformas de venda de investimentos resolveram recomprar volumes grandes de CDBs com desconto para revender em lotes de R$ 250 mil, o limite máximo da garantia do FGC.
O movimento agravou a situação e o risco do FGC, elevando a pressão dos maiores bancos privados do país sobre Campos Neto.
Diante do quadro, Vorcaro articulou no Congresso aprovação de uma emenda para quadruplicar o seguro do FGC para R$ 1 milhão. A proposta foi apresentada pelo presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), por meio de uma emenda à proposta que tratava da autonomia financeira do BC.
Na justificativa da emenda, Ciro disse que o aumento da garantia para novos patamares visava incentivar a possibilidade de instituições terem maior competitividade entre si. Os bancos médios e pequenos, no entanto, se manifestaram contrários à mudança.
A PEC não foi votada até agora e a emenda de Ciro foi retirada. A vários interlocutores, Campos Neto relatou que ligou para Ciro para impedir o avanço da emenda.
De acordo com relatos colhidos pela Folha de S. Paulo com quatro pessoas a par do tema, uma exposição de motivos que foi feita pela equipe Campos Neto em conjunto com o FGC foi fundamental para barrar a medida.
Se a emenda Ciro prosperasse, ela teria sido responsável por um desfalque ainda maior nas reservas do FGC devido ao estoque de CDBs emitidos pelos bancos do conglomerado Master. Na descrição de um executivo do setor, seria uma hecatombe.
Os CEOs dos bancos privados se queixavam no BC que a operação do Master não era um negócio de atividade bancária tradicional, mas uma instituição operada como se fosse um fundo multimercado e com objetivos pouco republicanos.
O banqueiro mais contrariado era o presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho.
O Itaú rejeitou uma saída privada para o Master que chegou a ser discutida com Campos Neto. A falta de uma legislação no Brasil para esse tipo de ação foi um empecilho. Procurado, o Itaú não comentou. Campos Neto e Vorcaro também não se manifestaram.
No primeiro semestre de 2024, a situação de liquidez do Master começou a se agravar. Vorcaro foi chamado a fazer um plano de ajuste. Ele acertou com o BC uma proposta de captação de R$ 15 bilhões junto a investidores insitucionais e se comprometeu com a redução da carteira de CDBs. O plano falhou. Vorcaro só conseguiu captar R$ 2 bilhões.
Em novembro de 2024, o BC deu um ultimato com prazo de seis meses para os problemas serem resolvidos.
Nesse momento, Vorcaro estruturou uma saída via a dobradinha com BRB, que desde julho de 2024 vinha comprando carteiras de crédito do Master. Essas carteiras já apresentavam comportamento atípico de inadimplência e sinais de inconsistência.
O banco estatal de Brasília, sob comando do governador Ibaneis Rocha (MDB), cujas relações com Vorcaro são alvo de investigação, se propôs a assumir o Master. A alegação era a de que o banco de Vorcaro poderia ampliar os horizontes do BRB. Um ano depois, o resultado mostra que o BRB estatal deverá encolher se quiser sobreviver.
LINHA DO TEMPO DO CASO MASTER
2º Semestre de 2019
Aprovação pelo BC da transferência do controle acionário do banco Máxima (futuro Master) para Daniel Vorcaro. Foi exigido que Vorcaro demonstrasse capacidade de obtenção de liquidez adicional junto aos grandes bancos.
2019 a 2024
Conglomerado Master tem forte crescimento com aportes de capital e captações de CDBs intermediadas por plataformas de investimento. Grupo adquire Vipal, Banif Brasil, Voiter, Letsbank e Will Financeira.
Entre 2022 e 2023
BC envia 18 ofícios ao Master exigindo ajustes e provisões, reforço de capital e melhoria de práticas.
Outubro de 2023
Após queixas de participantes do mercado, BC aprova resolução limitando o crescimento do volume desses ativos no balanço.
Dezembro de 2023
CMN aprova norma que cria limites de patrimônio para captações garantidas pelo FGC para conter excessos do Master, com a justificativa de não provocar instabilidade no sistema bancário.
1º Semestre de 2024
Com deterioração das condições de funding, BC exige plano de recuperação de liquidez. Vorcaro é chamado para adoção das primeiras medidas de ajuste e assina compromisso com o BC, que prevê captação de R$ 15,1 bilhões junto a investidores.
Agosto de 2024
Com aperto das regras, o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), apresenta uma emenda legislativa propondo o aumento da cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Proposta não vai para frente.
2º Semestre de 2024
Master passa a enfrentar dificuldades para rolar CDBs, em parte devido a crise de reputação que começava a alcançar clientes de varejo. Algumas plataformas passam a recomprar volumes grandes de CDBs com desconto para revender em lotes de até R$ 250 mil. Plano de recuperação de liquidez é frustrado. Master capta apenas R$ 2 bilhões dos R$ 15 bilhões exigidos pelo BC.
2º Semestre de 2024
BC passa a examinar onde o Master investia recursos captados. Descobre que balanço do banco era concentrado principalmente em precatórios judiciais, participações em empresas, empréstimos para PJs e CRIs (certificados de recebíveis imobiliários).
Julho de 2024
Vorcaro inicia relações comerciais com o BRB comprando carteiras de crédito que já tinham comportamento atípico de inadimplência e sinais de inconsistências operacionais. Operações de carteiras chegaram a R$ 6 bilhões nesse ano, e total das aquisições alcança até R$ 21,9 bilhões antes de o BC proibir essas compras.
Novembro de 2024
Vorcaro assina um novo compromisso que dá prazo de seis meses para a correção dos problemas. Master passa a ter dificuldades recorrentes no recolhimento de compulsórios e dificuldade de rolagem de obrigações.
Novembro/Dezembro 2024
BC busca com bancos solução de mercado para Master, que não vai para frente.
28 de março de 2025
Em comunicado ao mercado, BRB formaliza interesse na aquisição de parte do Master e surpreende o setor bancário. Tem início a segunda fase do caso Master com a análise pelo BC da operação, vetada em 3 de setembro de 2025.