Política & Poder

Tebet modulou postura independente e combativa para romper resistências

Em seu sexto ano no Senado, a parlamentar busca no dia 1º de fevereiro repetir o feito de seu pai, Ramez Tebet (1936-2006)

Renato Machado e Gustavo Uribe
Brasília, DF

Considerada independente pelos seus pares, a senadora Simone Tebet (MDB-MS) busca equilíbrio em seu discurso para fechar uma equação complicada: conseguir manter o apoio dos parlamentares defensores do discurso anticorrupção mais radical –do bloco Muda Senado– e ao mesmo tempo romper resistências em blocos tradicionais e a de Jair Bolsonaro.

Em seu sexto ano no Senado, a parlamentar busca no dia 1º de fevereiro repetir o feito de seu pai, Ramez Tebet (1936-2006), que há 20 anos foi eleito presidente da Casa.

É portanto um dos numerosos casos no Congresso de parlamentar que, antes de trilhar seu próprio caminho, usufruiu do sobrenome e da influência familiar.

Para se tornar a primeira mulher da história brasileira presidente do Senado, terá de reverter a desvantagem do lançamento tardio de sua candidatura, no dia 12, momento em que seu rival Rodrigo Pacheco (DEM-MG) já acumulava apoios em série.

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A atual presidente da importante CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) fez um aceno ao Planalto em seu discurso, afirmando que trabalhará pela autonomia do Legislativo, mas que sua candidatura não seria nem de situação nem de oposição. Seria uma “independência harmônica”, que assim poderia “ajudar o governo nas pautas prioritárias do país”.

Exemplo da ginástica está na defesa da prorrogação do auxílio emergencial, bandeira da oposição, dentro do teto dos gastos. Para a equipe econômica, as duas coisas são incompatíveis na prática.

A estratégia do MDB com a sinalização positiva era tentar afastar Bolsonaro da disputa, após o presidente declarar que Pacheco tinha a sua “simpatia”. Mais do que isso, era uma tentativa de quebrar certa má vontade do presidente, que teve início com discordância política e ganhou aspectos pessoais.

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Bolsonaro já disse em conversas reservadas que não tem simpatia pela senadora. Em mais de uma oportunidade, reclamou de críticas dela tanto em relação ao governo como a postura dele.

Em 2019, quando a senadora afirmou que o presidente poderia ajudar a reforma previdenciária “ficando calado”, “Bolsonaro a convidou para café da manhã no Alvorada.

Para causar boa impressão, evitou falar palavrões, o que faz de maneira recorrente em reuniões privadas.

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O encontro não foi suficiente para aproximá-los. Segundo assessores presidenciais, nos últimos dias a articulação política do Planalto entrou em contato com senadores para tentar demovê-los de votar em Simone Tebet.

No Legislativo, no entanto, a senadora se mostra aliada fiel nas votações, principalmente na área econômica.

De tendência liberal e reformista, contribuiu para a aprovação da reforma da Previdência e da autonomia do Banco Central e abriu caminho para apreciação mais célere, na comissão que preside, de três propostas de emendas constitucionais consideradas fundamentais pela equipe econômica: a PEC dos Fundos, a PEC Emergencial e PEC do Pacto Federativo. Todas, no entanto, empacaram depois.

Se na área econômica há alinhamento com o Planalto e com as maiores bancadas, Tebet se aproximou do Muda Senado, movimento suprapartidário de oposição formado por 18 senadores e que defende a Operação Lava Jato, a prisão em segunda instância e o impeachment de ministros do Supremo.

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A proximidade provocou desconfiança. No movimento mais extremo da disputa, o PT preferiu ficar com Pacheco e Bolsonaro a apoiar a candidata do “Muda PT”, como disse o senador Humberto Costa (PT-PE).

Sua postura passou então a se vista de duas formas. Os aliados destacam que ela é destemida, independente e representa a nova política. Outro grupo defende que é intempestiva e incontrolável.

Em dezembro de 2019, em uma audiência da CCJ com a presença do então ministro Sergio Moro (Justiça), Tebet contrariou acordo firmado entre os presidentes do Senado e da Câmara e agendou a votação de projeto de lei que permite a prisão em segunda instância. Havia uma lista de senadores pedindo isso, mas Tebet comprou briga com líderes e os presidentes.

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O choque mais frontal aconteceu em sua própria bancada na última eleição para a presidência do Senado. Tebet era pré-candidata, mas Renan Calheiros (MDB-AL) forçou sua entrada em mais uma disputa, articulando com os caciques do partido e filiando senadores de última hora para ganhar votos internamente.

Renan bateu Tebet na disputa interna, mas não obteve os votos necessários no dia da eleição e retirou sua candidatura, abrindo caminho para a vitória de Davi Alcolumbre (DEM-AP).

A senadora declarou no plenário da Casa, no dia da eleição, que apoiava o rival de seu partido. RM e GU

Simone Tebet, 50

Senadora por Mato Grosso do Sul e atual presidente da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), está em seu primeiro mandato e completando seis anos no Senado. Começou sua carreira como deputada estadual em seu estado, de 2003 a 2005. Depois foi prefeita de Três Lagoas, secretária estadual de Governo e vice-governadora. Sempre foi filiada ao MDB. Sua candidatura conta com apoio de Cidadania, MDB e Podemos.






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