BRUNO RIBEIRO, CAROLINA LINHARES E THAÍSA OLIVEIRA
SÃO PAULO, SP E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
O cancelamento da visita que Tarcísio de Freitas (Republicanos) faria a Jair Bolsonaro (PL) na Papudinha nesta quinta-feira (22) se deu em meio a ações desalinhadas entre auxiliares do ex-presidente e do governador, expôs o distanciamento com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, e irritou aliados que trabalhavam pelo encontro.
Embora Tarcísio tenha dito que cancelou a visita porque teria outros compromissos na quinta, ele tomou a decisão, segundo a reportagem apurou, porque entendeu que estava sendo pressionado por Flávio -o senador disse à CNN que o encontro seria para o governador ouvir que sua candidatura presidencial estava “descartada”.
A defesa de Bolsonaro pediu autorização para a visita de Tarcísio na última segunda-feira (19), em uma lista que incluiu também Diego Torres Dourado, irmão da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e ex-assessor de Tarcísio, e Bruno Scheid, vice-presidente do PL em Rondônia.
Os nomes tinham sido determinados pelo ex-presidente a sua mulher, segundo interlocutores de Michelle. Tarcísio recebeu o convite e confirmou o encontro. Depois, a jornalistas, fez uma confirmação pública.
“Vou lá visitar um amigo, sobretudo um grande amigo. Uma pessoa por quem eu tenho muita consideração. Vou lá manifestar a minha solidariedade, manifestar meu apoio, ver se ele está precisando de alguma coisa e reforçar que ele vai sempre poder contar comigo”, afirmou Tarcísio, durante um evento de entrega de casas em São José da Bela Vista (a 380 km de São Paulo), na terça-feira (20).
Mais tarde, porém, a assessoria do governador divulgou nota afirmando que a visita seria adiada e uma nova data seria solicitada. Nesta quarta-feira (21), Tarcísio também participou de entregas de casas no interior, mas não deu declarações a jornalistas. A reportagem tentou ouvir o governador, mas ele não respondeu.
Antes de cancelar a visita, o governador consultou o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes sobre a possibilidade de remarcar o encontro, segundo o relato de aliados, e só recuou diante da certeza de que a porta permaneceria aberta.
Michelle e os advogados do ex-presidente, porém, só souberam da decisão depois de Tarcísio informar a imprensa. Aliados da ex-primeira-dama ficaram incomodados com o modo como o governador lidou com o tema, cancelando o encontro sem a preocupação de deixar nova data agendada.
Entre bolsonaristas, a desistência de ver o presidente também gerou críticas: “Tarcísio deveria ir. É um equívoco cancelar. A visita é um gesto humanitário”, afirmou o vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo (PL). “Metade da população brasileira gostaria de visitá-lo.”
Ainda na terça, antes mesmo de Flávio se manifestar sobre a visita, o governador havia sido aconselhado a adiar o encontro para um momento mais próximo do prazo, no início de abril, de renunciar ao governo do estado caso vá tentar o Planalto -embora Tarcísio nunca tenha admitido que é pré-candidato presidencial, parte de seus aliados atua nesse sentido.
Quando soube das declarações de Flávio, o governador decidiu pelo recuo, por entender que o senador tentou intimidá-lo, de acordo com um de seus interlocutores.
Aliados de Tarcísio afirmam ainda que a intenção da visita a Bolsonaro era fazer um gesto humanitário a um amigo. O governador iria aproveitar a ocasião para relatar ao ex-presidente que tem conversado com ministros do STF para tentar viabilizar a prisão domiciliar.
A declaração de Flávio, no entanto, teria irritado o governador. A reclamação foi a de que o senador estaria tentando pautar a visita, que tinha caráter pessoal.
Na semana passada, os dois conversaram por telefone e, de acordo com relatos, o governador voltou a dizer que apoia a candidatura presidencial do senador e que vai embarcar na campanha na hora certa. Como mostrou a Folha de S.Paulo, o governador tem sido pressionado pelos bolsonaristas a demonstrar um apoio mais enfático ao senador.
Condenado por tentativa de golpe de Estado, Bolsonaro foi retirado do regime domiciliar e enviado para a Superintendência da PF em Brasília em novembro, após tentar violar a sua tornozeleira eletrônica. No último dia 15, Moraes transferiu o ex-presidente para o 19º Batalhão da Polícia Militar, unidade conhecida como Papudinha.
A mudança levou aliados do ex-presidente, como o pastor Silas Malafaia, a elogiar Tarcísio e Michelle, atribuindo a ambos a responsabilidade pela saída da sala em que ele estava. O gesto, contudo, fez a dupla virar alvo de críticas de bolsonaristas próximos a Flávio, como o irmão dele, Carlos Bolsonaro (PL-RJ).
VISITAS DE TARCÍSIO A BOLSONARO
7 de agosto de 2025
Na primeira visita ao ex-presidente após o início de sua prisão domiciliar, Tarcísio disse que Bolsonaro estava “sereno”. Naquela data, ele aproveitou a ida a Brasília para participar de um encontro com governadores e políticos de centro-direita que defendiam sua candidatura presidencial.
29 de setembro de 2025
Na segunda visita, Flávio estava na casa do ex-presidente e, ao atender jornalistas após a reunião, atrelou a definição do projeto de lei da anistia, em tramitação na época, à decisão sobre quem seria o nome do grupo que concorreria à Presidência. Tarcísio, na ocasião, reforçou que disputaria a reeleição em São Paulo.