JULIANA ARREGUY
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A suspensão de multas de devedores de pedágios eletrônicos e as novas regras que facilitam a obtenção da carteira de motorista beneficiam principalmente um público que tem rejeitado o presidente Lula, segundo as últimas pesquisas eleitorais.
O governo vai suspender, em todo o país, 3 milhões de multas e pontos na CNH (Carteira Nacional de Habilitação) de devedores de pedágio eletrônico, sistema conhecido como “free flow”.
No sistema, que substitui as praças de pedágio tradicionais, os veículos são cobrados por trecho percorrido por meio da leitura automática das placas. O pagamento é feito no site da concessionária.
Segundo o Registro Nacional de Condutores Habilitados, do Ministério dos Transportes, 64% dos condutores do país são homens. A maioria se concentra na faixa etária de 31 a 60 anos.
O perfil corresponde aos dados de maior rejeição a Lula no mais recente Datafolha, realizado entre os dias 3 e 5 de março em todo o país. Segundo a pesquisa, o petista empata tecnicamente com Flávio Bolsonaro (PL) em rejeição -Lula com 46% e Flávio, com 45%.
No entanto, a rejeição ao presidente é puxada pelos homens nas faixas dos 16 aos 59 anos, atingindo 57% no grupo entre 35 e 44 anos. Nesse recorte específico, a margem de erro é de sete pontos para mais ou para menos.
Em dezembro passado, o governo Lula já havia feito um aceno aos condutores ao acabar com a obrigatoriedade de aulas em autoescola para quem quiser tirar a carteira de motorista. A carga horária passará de 20 para apenas duas horas, poderá ser feita online e o futuro condutor decidirá se as aulas práticas serão em autoescolas tradicionais ou com profissionais credenciados.
Além disso, foram retiradas dos exames práticos as provas de balizas. Os motoristas sem ponto de infração na carteira registrado no ano anterior à renovação da CNH terão a sua renovação realizada de forma automática.
Na avaliação de Marcelo Vitorino, professor de marketing político pela ESPM, as medidas do governo voltadas para os condutores não são suficientes para converter votos em ano eleitoral.
“O eleitor, nos últimos anos, vem mostrando preferência por candidatos que são realmente alinhados com suas crenças”, disse ele.
O cientista político Alberto Carlos Almeida, autor dos livros “A Cabeça do Brasileiro”, “A Cabeça do Eleitor” e “O Voto do Brasileiro”, concorda que a suspensão das multas e as novas medidas para tirar a CNH não devem suavizar a imagem do presidente junto ao eleitorado que o rejeita.
“Para se tornar favorito, o governo Lula precisa melhorar a avaliação positiva do governo e adotar medidas mais abrangentes. Essa medida do free flow mostra que o governo pode até estar atento para o problema, mas não significa que tenha a capacidade de converter votos”, afirmou ele.
FREE FLOW GERA DESTAQUE
Aplicado no país desde 2023, o modelo free flow gerou especial desgaste ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que recuou, no ano passado, da implementação de dez pórticos de pedágio na modalidade.
Prefeitos e deputados estaduais criticaram os planos de aumentar a quantidade de pórticos, a visibilidade de alguns deles e o fato de que quem não pagar em até 30 dias o pedágio precisará arcar com uma multa e com cinco pontos na CNH.
Pesquisa Datafolha neste mês mostrou que os eleitores enxergam o governo estadual e as concessionárias como os principais responsáveis pela quantidade de pedágios nas estradas paulistas.
Um em cada três entrevistados (33%) responsabilizou a gestão Tarcísio, enquanto 30% colocaram a responsabilidade na conta das concessionárias. Já o governo Lula foi mencionado por 26%. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
O governo Tarcísio foi mais responsabilizado pelos homens (40%), faixa de público para a qual o presidente tem acenado com as medidas.
A cientista política Luciana Santana, professora da UFAL (Universidade Federal de Alagoas), observa que a isenção pode mirar não só novos públicos, mas recuperar eleitores com os quais o PT perdeu diálogo ao longo dos anos.
“Talvez tentar ampliar a base, tentar conquistar um voto que perdeu, principalmente porque o governo Lula já esteve ali em outros mandatos”, disse ela.