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Política & Poder

Sócio do Master foi aprovado pelo BC mesmo tendo ativos congelados por suspeita de corrupção

Redação Jornal de Brasília

29/01/2026 6h15

quadrado

Maurício Quadrado, sócio do Banco Master entre 2020 e 2024, teve contas na Suíça congeladas após denúncia de pagamento de propinas no âmbito das operações Sépsis e Cui Bono, deflagradas a partir de 2016 como consequência da Operação Lava Jato. Apesar de Quadrado ter ficado com ativos financeiros no exterior indisponíveis entre 2018 e 2022, ele recebeu autorização do Banco Central (BC) para se tornar sócio do Master.

Qualquer acionista com participação chamada qualificada ou com influência na gestão de instituição financeira passa por um processo de verificação de idoneidade moral, reputação ilibada e capacidade técnica, além de ter de conseguir demonstrar a origem do patrimônio, antes de receber a autorização do BC.

A defesa de Quadrado afirma que ele “desconhecia haver um inquérito policial que o investigava por corrupção à época, mesmo com o fato de ele ter uma conta no exterior bloqueada pertencente a um truste patrimonial” (fundo de proteção de patrimônio e sem movimentação constante).

“Foi um procedimento ilegal, no qual houve total cerceamento de defesa”, diz Hugo Leonardo, sócio do escritório Hugo Leonardo Advogados e advogado de defesa de Quadrado. “Tanto que, assim que soubemos da existência do inquérito, conseguimos trancá-lo. Nada do que foi dito pelo delator foi comprovado.”

O BC não respondeu ao pedido de entrevista. Quando houve a aprovação de Quadrado como sócio do Master, a autoridade monetária era comandada por Roberto Campos Neto. Como mostrou o Estadão, Campos Neto tinha conhecimento das dificuldades do Master, e teria atuado para evitar uma intervenção ou liquidação do banco ao longo do ano de 2024, por preferir uma solução de mercado.

Segundo Roberto Panucci, especialista em direito bancário e sócio do Panucci, Severo e Nebias Advogados, o fato de existirem processos judiciais, bloqueios de bens ou inquéritos policiais que investiguem determinada pessoa não é um impedimento para que ela se torne acionista relevante de uma instituição financeira.

“A autoridade monetária analisa as circunstâncias e a gravidade de cada caso, antes de decidir se o investidor tem reputação ilibada e idoneidade para conduzir uma instituição financeira”, diz ele. “O principal objetivo do BC é evitar situações que gerem risco sistêmico, corrida bancária com ameaça de insolvência à instituição por conta dessa reputação ou o uso do sistema financeiro com interesses escusos.” Segundo ele, do mesmo jeito que pendências judiciais não impedem a obtenção de autorização pelo BC, notícias negativas publicadas sobre determinada pessoa podem criar um embaraço nessa autorização. “É caso a caso”, diz.

Denúncias ligadas à Lava Jato

Sócio da corretora Planner até 2022, Quadrado foi investigado após denúncias de que intermediaria a liberação de recursos, junto à Caixa Econômica Federal, a seus clientes, em troca de propina.

Roberto Madoglio, que ocupou o cargo de superintendente de Fundos Especiais da Caixa Econômica Federal entre 2009 e 2011, afirmou em delação premiada que recebeu propinas de várias empresas para facilitar a liberação dos recursos. Em seu depoimento, afirmou que Quadrado o orientou a abrir contas no exterior, alegando que o recebimento de vantagens indevidas fora do País era a “praxe do mercado”.

Madoglio também afirmou, na delação, que recebeu R$ 9,5 milhões da Planner, entre 2009 e 2011. Os valores teriam sido pagos após a liberação de recursos a clientes da corretora, tanto no setor imobiliário quanto em infraestrutura. O principal alvo eram os recursos do FI-FGTS, fundo de investimento criado em 2007 para destinar recursos do FGTS a grandes projetos de infraestrutura.

Para corroborar sua delação, apresentou extratos de sua conta, com os respectivos depósitos.

As investigações conduzidas pelas autoridades suíças identificaram transferências diretas de contas atribuídas a Quadrado para a offshore Yonex Ltd (controlada por Madoglio) que somam cerca de US$ 3,5 milhões. No total, Madoglio admitiu ter recebido US$ 13,2 milhões em propinas (sendo boa parte da antiga Odebrecht), dos quais ele abriu mão e foram repatriados.

Com base nos detalhes fornecidos por Madoglio, a Justiça Federal determinou o sequestro e bloqueio de contas dos investigados − inclusive de Quadrado − no exterior. Foram pedidos os bloqueios de dez contas de Quadrado, mas foram encontradas duas que foram efetivamente bloqueadas. Uma era de pessoa física e a outra é o que a defesa diz ser o truste.

Segundo a defesa de Quadrado ainda, os comprovantes de depósito entre as contas do banqueiro e Madoglio dizem respeito a outros negócios que ambos tinham em comum, sem detalhar quais seriam essas atividades. “Essas transações não se relacionavam à Caixa Econômica Federal”, diz Leonardo.

Apesar do que chamou de “provas robustas” da prática dos crimes, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) liberou os recursos presos de Quadrado, em 2022. Isso porque, quatro anos após o bloqueio, a investigação não havia sido concluída e a denúncia contra o empresário não foi apresentada.

Posteriormente, em 2023 e 2025, os inquéritos policiais que envolviam Quadrado e foram abertos após das denúncias de Madoglio, foram encerrados em definitivo, com seu trancamento. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) considerou que as investigações se prolongaram de forma injustificada, sem apresentação de denúncia contra o investigado.

Segundo o próprio MPF, nenhuma das diligências apresentadas pelo órgão foi realizada, apesar de a delação ter sido feita em 2017. Os inquéritos foram trancados porque a Justiça considerou que o Estado falhou em transformar a palavra do delator em provas concretas dentro de um tempo aceitável, tornando a continuidade da investigação abusiva.

Longa trajetória no mercado

Quadrado tem uma longa trajetória no mercado financeiro. Foi diretor de mercado de capitais do Bradesco durante a década de 90, quando teve destaque em operações de IPO (oferta inicial de ações) e em privatizações, como a da Vale.

Virou sócio da Planner, em que ficou até 2022, quando criou a Trustee DTVM. Antes disso, em 2020, se tornou sócio do Master e estava à frente do Banco Master de Investimentos.

Em setembro de 2024, vendeu sua fatia no Master (estimada em 30%) e na Trustee. No ano passado, anunciou a compra do Banco Digimais e, no pacote de saída do Master, levou consigo o Letsbank a corretora do Master.

Sua ambição era criar o Bluebank, um banco que teria várias frentes de atuação. O BC, porém, não aprovou a compra das instituições financeiras por Quadrado, que anunciou em abril que desistira da aquisição do Digimais. O Letsbank foi liquidado em novembro, junto ao Banco Master e o Banco Master de Investimentos.

Em agosto, a Trustee DTVM foi uma das empresas envolvidas na Operação Carbono Oculto, que investiga o envolvimento de gestoras da Faria Lima com o crime organizado. Outra empresa que tinha Quadrado como sócio, a Banvox, também apareceu na lista de investigadas.

Recentemente, o Estadão mostrou que um fundo administrado pela Trustee registrou uma dívida de R$ 122 milhões com advogados e outra de R$ 10,7 milhões com consultoria, sem ter apresentado documentos que comprovem os serviços prestados.

Também revelou que outro fundo sob gestão da Trustee investiu quase R$ 10 milhões na BSF Gestão em Saúde, envolvida em esquema de descontos ilegais a aposentados do INSS. O aporte ocorreu em fevereiro de 2023 por meio do fundo Albali, que, segundo Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, tinha à época como único beneficiário seu então sócio Quadrado. O fundo foi o mesmo utilizado na aquisição do Fasano Itaim, hotel de luxo em São Paulo.

Estadão Conteúdo

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